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Dois assuntos recorrentes deste blog são a definição do que significa “ser de esquerda” e a existência ou não de uma experiência virtuosa concreta de socialismo.

Defendo a tese de que qualquer pessoa que tenha a democracia liberal (também chamada representativa) como valor fundamental não é de esquerda. Em uma troca de comentários com o gestor do blog Lavra Palavra, que se define claramente à esquerda, encontrei uma síntese muito interessante e que corrobora minha tese central: “no capitalismo, o Estado que lhe cabe precisa reproduzir a forma da concorrência de mercado, o que o faz desde internamente entre seus poderes que se bloqueiam e travam mutuamente, quanto à sua dinâmica eleitoral “competitiva” e sua alternância de poderes como princípio.”

Evidentemente vejo esta definição como virtude e não como vício, mas confesso tratar-se de uma posição minoritária. A guerra de propaganda tem muito mais militantes do lado de quem transformou a palavra “Direita” em sinônimo de “fascista” e “Esquerda” em sinônimo de “libertário” ou “libertária”, o que é curioso, já que a prática política real associada à esquerda sempre foi totalitária.

Como bem definiu o professor emérito da USP Ruy Fausto no artigo  “O ciclo do totalitarismo e os impasses da esquerda mundial” publicado na REVISTA FEVEREIRO número 7, “O que sim é problema, e grande problema, no interior da esquerda, é o autoritarismo, sob forma populista frequentemente. (…) “E o “comunismo” foi no passado, e continua se definindo como, um totalitarismo”.

Na tentativa de dar substância às suas teses e encontrar um modelo de “socialismo” que não seja carniceiro, a esquerda andou tentando apropriar-se da experiência virtuosa das socialdemocracias. Aqui vamos nos concentrar na experiência sueca e demonstrar que tal apropriação é indevida.

Para permitir uma visão mais abrangente e, como gostam os sociólogos, “dialética” da questão, publico abaixo dois artigos que abordam esta experiência a partir de posições ideológicas claramente distintas.

O primeiro chama-se “Olof Palme e a trajetória do estado de bem-estar na Suécia” de  Kjell Östberg, via Jacobin Magazine, traduzido por Gabriel Landi Fazzio e publicado no blog Lavra Palavra.

O segundo chama-se “7 fatos que contradizem tudo que você acreditava sobre a Suécia”, escrito por Felippe Hermes para o site Spotniks.

Gostei dos dois artigos, mas no primeiro ainda me surpreendo com algumas questões.

Como já disse acima, penso que nenhum modelo político que respeite a independência entre os poderes, abrigue a alternância de poder e preserve a propriedade privada dos meios de produção seja de esquerda. Logo, socialdemocracia não é de esquerda.

O primeiro artigo está sempre a um passo de censurar Olof Palme por não radicalizar as reformas e abolir a democracia para abraçar de vez o socialismo. A esquerda queria outra coisa, não a democracia. Palmer era um crítico desta “outra coisa”.

Já o segundo artigo faz uma análise de um período mais amplo e traz uma contribuição importante para quem deseja compreender melhor a “guerra de propaganda” e a precisão (ou imprecisão semântica) por traz de conceitos fundamentais em uma sociedade que visa o bem-estar social.

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Olof Palme e a trajetória do estado de bem-estar na Suécia

 

Por Kjell Östberg, via Jacobin Magazine, traduzido por Gabriel Landi Fazzio.

Fevereiro marcará trinta anos desde que o Primeiro Ministro sueco Olof Palme foi morto a tiros no centro do Estocolmo. A identidade de seu assassino segue desconhecida.

A Suécia durante o tempo de Palme é muitas vezes vista como o maior exemplo da socialdemocracia: altos padrões de vida e uma relativamente baixa desigualdade de remuneração; baixo desemprego e um avançado sistema de bem-estar social financiado em imposto progressivos e pensões, auxílios-doença, licença maternidade e paternidade remuneradas e creches universalizadas das quais se gabar.

Quando perguntado sobre como seria seu país ideal, o ex-presidente francês George Pompidou, que dificilmente se diria tender à esquerda, respondeu: “A Suécia, com um pouco mais de sol”.

Hoje, a socialdemocracia sueca perdeu muito da sua posição internacional como baluarte para a esquerda socialista. Muitos apontam os anos 80 como o momento em que as coisas começaram a mudar, quando os ganhos do meio século anterior começaram a ser revertidos. Teria o modelo sueco morrido como Olof Palme?

Ainda que ele tivesse apenas 59 anos quando ocorreu seu assassinato, Palme estava no centro da política sueca há mais de trinta anos. Muito havia mudado na Suécia ao longo dessas três décadas – inclusive o perfil político de Palme.

Em 1932, os socialdemocratas chegaram ao posto de primeiro ministro, onde permaneceriam por 44 anos.  A aplicação precoce de políticas econômicas keynesianas e os primeiros passos na construção de um “Lar do Povo”, nos anos 30 deram ao partido a imagem de um reformismo robusto.

Pelas muitas décadas em que o partido esteve no poder, no entanto, a Suécia não diferiu tanto de outros países capitalistas industrializados. Após a 2ª Guerra Mundial tornou-se amplamente aceito que o estado deveria expandir e construir a infraestrutura necessária à indústria moderna e ao bem-estar social: estradas para cargas e transporte, moradias e cuidados médicos para os trabalhadores e escolas e educação para a força de trabalho mais altamente qualificada.

A organização e as ambições do setor público diferiram de país para país, certamente. Mas o crescente estado de bem-estar social não foi uma exclusividade sueca.

Quando Palme aderiu ao Partido Socialdemocrata no começo dos anos 50, a sociedade se caracterizava por um amplo consenso social-liberal. O otimismo quanto o crescimento havia se estabelecido após a 2ª Guerra Mundial e a economia transbordava. O partido do qual era filiado não era particularmente radical. Como Eric Hobsbawn escreveu: “Quanto aos partidos socialistas… eles se encaixavam prontamente no novo capitalismo reformado, porque por propósitos práticos eles não tinham qualquer política econômica própria”.

A trajetória de Palme era pouco usual para um socialdemocrata. Um partido amplamente proletário, sua liderança era composta quase inteiramente por homens de origem operária. Palme, em contraste, era nascido em uma família da elite e tivera uma educação tradicional e de alta classe.

Palme começou sua carreira como um guerreiro frio: era o ator internacional central na construção da Conferência Internacional de Estudante Antissoviéticos, um projeto financiado pela CIA e cujo maior propósito era prevenir que estudantes do terceiro mundo se tornassem comunistas. Ele inclusive foi ligado às operações da inteligência sueca.

Ainda assim, sua tarefa estudantil internacional ensinou a Palme o caráter destrutivo e, mesmo de uma perspectiva anticomunista, contraproducente das guerras colonialistas. Após uma visita à Malásia, Palme escreveu: “É um estranho paradoxo que o governo britânico gaste milhões de libras para matar alguns poucos comunistas na floresta e ao mesmo tempo esteja cuidadosamente cultivando um número crescente deles na Universidade da Malaya”.

As visões anticomunistas de Palme o colocaram no centro da socialdemocracia sueca nos anos 50. Formalmente neutra, a Suécia era estreitamente ligada ao ocidente de maneira ideológica, econômica e militar. O país era mesmo visto como o décimo sétimo membro secreto da OTAN, tanto pelos EUA quanto pela União Soviética.

Em outros pontos Palme também estava solidamente no centro do partido, senão à direita. Ele não estava convencido de que os programas sociais deveriam ser universais – não apenas para evitar impostos muito altos – e suas posições eram marcadamente favoráveis aos “negócios”.

Em 1953, Palme teve sua chance. O primeiro ministro Tage Erlander nomeou o jovem socialdemocrata como seu secretário pessoal e, antes dos 30 anos, Palme tornou-se indispensável para Erlander.

Erlander já há muito reclamava de que o partido era árido de debate ideológico. Em Palme ele encontrou um raro parceiro intelectual. Ao fim dos anos 50, a dupla estava lançando as fundações para política socialdemocratas mais firmes.

Seus ideais não vieram da esquerda socialista. A mais importante fonte de inspiração foi o economista liberal estadunidense John Kenneth Galbraith. Em seu livro de 1958 A Sociedade Opulenta [The Afflunt Society], Galbraith reconheceu o desbalanceamento, nas sociedades industriais do ocidente, entre o a iniciativa privada e os serviços públicos, e clamou por mais do segundo e menos do primeiro.

Palme e Erlander formularam uma base ideológica para a socialdemocracia em sua própria sociedade opulenta. O estado de bem-estar social universal proporcionaria segurança econômica a todos os cidadãos, fomentando laços de solidariedade social e dando à nova classe média um interesse material na expansão dos gastos públicos. Altos impostos se tornariam bem-vindos, não desprezados. Isto foi um abandono da política de bem-estar social seletiva que Palme estava capitaneando.

Uma economia mais planejada e um setor público maior não tornam uma economia em socialista. Mas há alguns fatores que distinguiam o sistema político do país e se tornaram de importância decisiva para o próximo passo da socialdemocracia sueca.

Um desses fatores era a força do movimento sindical, que incluía o Partido Socialdemocrata, a confederação sindical LO, um microcosmos de associações educacionais locais, Casas do Povo, organizações de moradores e assim por diante. Outra diferença foi a maneira pela qual os socialdemocratas utilizaram sua influência para construir um estado de bem-estar social, nacional e localmente. Com poucas exceções as instituições de bem-estar social eram inclusivas, universalistas e financiadas, possuídas e geridas pelo poder público. Eram politicamente controladas e isentas da exploração privada.

Isso lançou as bases para uma sociedade potencialmente diferente. Mas foi necessária uma escalada popular para desencadear essas possibilidades.

A radicalização dos anos 60 e 70 foi profunda na Suécia, começando entre a juventude no contexto da Guerra do Vietnã e desafiando tanto o stalinismo quanto a socialdemocracia. Durante os anos 70 o novo movimento feminista aumentou sua força e pressionou as velhas formas. O movimento ambientalista quase foi bem-sucedido em impedir a construção de novas usinas nucleares. Mais importante ainda foi a onda de greves, que começaram com a greve dos mineiros em 1970. A classe trabalhadora, as categorias tradicionalmente radicalizadas, subitamente tomaram o palco e desafiaram a política de conciliação de classes.

Em 1960, Palme observou com interesse radicalismo florescente. E não passou ileso. Por conta de sua forte oposição ao colonialismo e ao racismo, ele achou mais fácil que outros políticos estabelecidos entender o dinamismo das lutas pela libertação no terceiro mundo, Sua receptividade, curiosidade e boas relações com influentes intelectuais lhe permitiram captar a importância desses novos movimentos sociais mais prontamente que outros. A oposição de Palme à guerra dos EUA no Vietnã o tornou uma figura única na política internacional.

Quando as reivindicações por reformas mais profundas encontraram seu caminho no interior da Socialdemocracia, principalmente pelas vozes dos sindicados e movimentos de mulheres, Palme foi frequentemente um dos melhor posicionados para articular a justeza de tais demandas.

Assumindo como primeiro ministro em 1969, Palme prontamente seguiu por uma série de reformas que englobaram aspectos fundamentais da política social e econômica. Na verdade, uma grande parte dos fenômenos tipicamente associados com o estado de bem-estar social sueco foram criados ou substancialmente reformados durantes os primeiros sete anos de Palme. O gasto nacional cresceu de 26% para 38% do PIB.

Um grande número de reformas foram relacionadas às políticas familiares e muitas carregavam a marca da igualdade: subsídios para moradias de pensionistas e para as famílias com crianças pequenas, licença maternidade e paternidade, aumento dos subsídios para os gastos no sustento infantil, um sistema universal de creches e, no começo de 1974, direito ao aborto.

Na metade dos anos 70, a Suécia havia avançado mais que qualquer outra socialdemocracia. Naturalmente, isso não foi graças a uma só pessoa. Ao contrário, é crucial frisar a importância dos velhos e novos movimentos sociais no desenvolvimento do estado de bem-estar social Sueco. A magnitude e o conteúdo de tais reformas não pode ser explicado sem se referir a tais movimentos.

Esses foram também os anos em que Palme fez seu nome internacionalmente como estadista anti-imperialista.  Começou com o Vietnã. Já em 1965 ele condenou publicamente a guerra, e seu criticismo se aprofundou sob a pressão dos movimentos em solidariedade aos vietnamitas. Sua comparação, em 1972, entre o bombardeio dos EUA de Hanói e Guernica e as atrocidades nazistas ultrajaram Henry Kissinger, levando Richard Nixon a chamá-lo de “aquele babaca sueco”.

Durante os anos 70 ele permaneceu como festejado participante do diálogo internacional entre o Norte e Sul Global, e usualmente favorecia ao último. Na ONU a Suécia votou contra a guerra em resoluções sobre a África do Sul, Israel/Palestina e pela distribuição do poder econômico global. A Suécia deu apoio material às lutas pela libertação em diversos países africanos.  Líderes radicais do terceiro mundo, como Fidel Castro – cuja revolução Palme apoiou – abraçaram o líder sueco como aliado.

Ao mesmo tempo, Palme nunca deixou seu antirracismo e anti-colonialismo interferir com seu desejo de manter os movimentos radicais subordinados aos poderes dominantes. Isso se tornou excepcionalmente evidente durante a Revolução Portuguesa de 74/75, quando Palme usou de todo seu prestígio para ajudar a pacificar a revolta, trazendo o país para o interior da aliança do oeste europeu e mantendo-o na OTAN.

Quanto às relações militares suecas, eram os negócios de sempre. “Agora, quando eu estiver remando com os americanos”, Palme disse a seus generais, “pelo amor de Deus assegurem que teremos uma boa relação com eles [os americanos] ao menos quanto à nossa defesa”.

De fato, para os EUA e outros governos poderosos, Palme tinha uma função distinta: ele era um dos poucos estadistas que poderiam servir como um contato e como uma ponte com os movimentos e regimes radicais. Kissinger viajou a Estocolmo para agradecer a Palme pelo seu papel na Revolução Portuguesa menos de um ano após o fim da Guerra do Vietnã, um indicativo de sua utilidade.

Ainda assim, para muitos dos líderes do terceiro mundo, ele era um dos poucos representantes do mundo desenvolvido que defendia suas causas por uma ordem mundial mais justa. A existência de incontáveis ruas, escolas e praças na África e na América Latina levando o nome de Palme indicam a importância de tal apoio.

De volta ao lar, o escopo das reformas socialdemocratas e o contínuo crescimento do setor público incitaram amigos e adversários a perguntar quando a socialdemocracia de Palme iria transformar fundamentalmente o sistema.

Os sindicatos queriam isso. Em 1976 a LO reivindicou a criação de fundos dos assalariados. Nesta proposta, todo ano uma porção dos lucros das companhias – na forma de ações – seria transferida para fundos controlados pelos sindicatos. Após algo entre 20 e 75 anos, os trabalhadores controlariam a maior parte da maioria das companhias.

A demanda do plano por uma socialização gradual criou distúrbios no partido. Palme e a liderança do partido eram a favor do que chamavam de “socialismo funcional”: aprofundar a democracia, fazer crescer o setor público, aumentar os recursos para o planejamento público, criar leis reduzindo a influência dos empregadores. A propriedade em si, recusavam-se a tocar.

O “Plano Mediner” era um ataque a tal credo, e Palme gastou muitos anos matando os pontos radicais da proposta. Sua reação demonstrou que, a despeito de todas as reformas realizadas, ele não estava disposto a pisar para além das fronteiras do capitalismo.

Os fundos dos assalariados que acabaram por ser decretados, como apontou o biografista de Meidner, Lars Ekdahl, guardavam pouca semelhança com a proposta original. Não havia distribuição de lucros; abriu-se mão de quase todo o poder dos sindicatos sobre a indústria; não havia a determinação de quebrar a sólida concentração de poder e riqueza de uma vez por todas – abriu-se mão da ideia dos fundos como elemento de uma estratégia socialista democrática.

Ao mesmo tempo, a mudança na conjuntura social e econômica estava mudando as condições para mais políticas reformistas, fossem radicais ou de qualquer outro tipo. Com o fim do crescimento do pós-guerra e o começo de um período de maior turbulência, as fundações econômicas do estado de bem-estar social começaram a ser postas em questão.

Friedman passou a substituir Keynes como estrela-guia. E os movimentos sociais, portadores da radicalização, começavam a declinar.

Em acréscimo, o próprio Partido Socialdemocrata encontrou-se fora do poder pela primeira vez em décadas. Entre 1976 e 1982, o partido estava na oposição quando a crise econômica estava em seu pior momento. Quando o partido retornou ao poder após as eleições de 1982, as condições para as políticas socialdemocratas tradicionais haviam mudado completamente.

Em parte, a economia sueca estava seriamente enfraquecida por grandes déficits orçamentários, desemprego significativo e uma alta taxa de inflação. Mas também a própria socialdemocracia começou a se adaptar às políticas econômicas monetaristas e influenciadas pelo neoliberalismo. Isso foi particularmente verdade para um grupo de jovens economistas agrupados ao redor do ministro das finanças de Palme, Khel-Olof Feldt.

No primeiro documento financeiro do governo, se proclamava que uma retomada da produção industrial deveria se dar com o aumento dos lucros das companhias, o consumo deveria ser contido de modo que a poupança geral do país pudesse aumentar e medidas anti-inflacionárias deveriam ser priorizadas. Tudo isso viria às custas do setor público. Se o Plano Mediner havia indignado o centro e a direita do partido, o documento financeiro do governo deflagrou conflitos entre a liderança do partido e a LO.

Ainda no poder no meio dos anos 80, os socialdemocratas tomaram as primeiras medidas em direção à desregulamentação do sistema bancários e do câmbio. Qual foi o papel de Palme neste desenvolvimento? Há poucas indicações de que ele tivesse qualquer intenção de freá-lo. Durante todo o período, ele defendeu seu ministro das finanças contra os ataques da esquerda do partido.

Para Palme, o novo cenário político e econômico não implicava que o potencial reformista havia se exaurido. Enquanto políticos como Feldt queriam reorientar o partido de forma permanente e romper com as antigas políticas econômicas, muito do que estava sendo feito nos anos 80 era, aos olhos de Palme, um mal necessário que iria eventualmente trazer a ordem de volta à economia nacional. A posição de Palme, Feldt explicou, era “mais sobre dar ao partido a oportunidade, através de medidas indesejáveis, de retornar à sua antiga política. Nós tínhamos que nos arrastar através de um túnel. Do outro lado havia uma luz”.

Essa era uma esperança realista? Ou, para retornar a questão inicialmente posta, o modelo sueco morreu com Olof Palme?

A questão não é simples, mesmo porque o “modelo sueco” é, em si próprio, multifacetado. Nitidamente muitas de suas marcas permanecem intactas – uma rede de seguridade social relativamente generosa financiada por impostos – mesmo que o nível dos benefícios tenha sido minado e uma grande parte do setor públicos tenha sido vendida. O movimento sindical sueco – a força verdadeira por trás dessas políticas, e os arquitetos do modelo sueco – permanece comparativamente forte.

Se, por outro lado, consideramos esse modelo como a política socialdemocrata clássica de expansão do estado de bem-estar social e controle da economia, fica evidente que muito desse foi abandonado: políticas keynesianas contra crises, controle financeiro governamental do crédito e dos mercados de câmbio e taxas de juros, um banco nacional sob controle político, a ambição de perseguir uma política industrial nacional ativa, um setor público não apenas amplamente financiado e controlado pelo estado sem interesses lucrativos, construção de moradias públicas e programas de propriedade, e geralmente sistemas de benefícios definidos.

Mesmo se deixarmos a terra firma da análise histórica, há razões para duvidar o quanto Palme teria sido capaz de lutar contra os moinhos da mudança.

Uma razão importante para isso é que a luz no fim do túnel acabou sendo a luz de um trem se aproximando. A política econômica defendida pelo governo Palme ajudou a atirar o país em uma nova e séria crise no começo dos anos 90, que prenunciou uma nova série de medidas de austeridade, desregulações e privatizações.

É óbvio que os líderes políticos socialdemocratas que sucederam Palme foram inábeis ou indispostos a abandonar o curso no qual haviam embarcado, e na verdade o navegaram até o fim.

Então enquanto o Partido Socialdemocrata de hoje possa parecer desajustado a Olof Palme, é importante não ser excessivamente benevolentes em defender o seu legado. Transitando entre o consenso do pós-guerra e a era neoliberal, Palme foi tanto o grande reformista como o facilitador da transferência do poder da política para o mercado.

Palme, o perfeito social democrata cristaliza, portanto, o dilema conjuntural e constitutivo da socialdemocracia. Dessa forma, seu exemplo prova que é a inabilidade da socialdemocracia de pensar para além do capitalismo a fonte de seu declínio terminal.

Link para o artigo no Lavra Palavra: https://bloglavrapalavra.wordpress.com/2015/09/23/olof-palme-e-a-trajetoria-do-modelo-sueco/

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7 fatos que contradizem tudo que você acreditava sobre a Suécia

Por FELIPPE HERMES para o Spotniks

Uma monarquia parlamentarista com religião oficial de Estado e uma das sociedades mais liberais da Europa. Parece improvável, mas essa é a Suécia que ganhou o posto de modelo da esquerda democrática no mundo (e da nem tão democrática assim em menor grau). O sucesso do Estado de bem-estar social na Suécia é uma prova, segundo muitos, de que a intervenção estatal é parte fundamental no desenvolvimento de um país. Mas, como de costume, a história é sempre contada pela metade.

O modelo de desenvolvimento sueco vai muito além da concessão de enormes benefícios sociais à população em troca de pesadíssimos impostos sobre a renda, que podem chegar a 59% na alíquota máxima (número que já foi de 102% em 1975), ou 44% na média de toda a população. Com uma longa tradição liberal na economia, a Suécia desfrutou de um dos mais longos períodos de crescimento já registrados na história mundial. Foram nada menos do que 100 anos, entre 1850 e 1950, com tarifas de importação zeradas, adoção do padrão ouro e uma das economias mais abertas da Europa. Durante o período, a economia do país registrou um crescimento médio de 1,64% no PIB per capita, contra 0,89% da média mundial. A Suécia enriqueceu.

A mudança de rumo, porém, teve início nos anos 50, quando o então Partido Social Democrata, SAP na sigla sueca, mudou os rumos da economia para a adoção de um modelo inspirado nas políticas fiscais e de pleno emprego do new deal, o plano americano adotado após a crise de 1929. Quarto país mais rico da Europa em 1950, a Suécia assistiu a ascensão de um modelo baseado em pleno emprego e no suprimento de demandas da Europa do pós guerra. A economia sueca, porém, que até então crescia 60% acima da média europeia, passou a crescer 15% menos durante as 2 décadas que se seguiram.

O período de 1970 a 1990 é amplamente conhecido como o apogeu do Estado de bem estar social. Durante este período, ocorreu o ápice da taxação sobre a renda (os tais 102% de alíquota máxima), além do aumento de benefícios sociais que cobriam literalmente do berço ao túmulo. O governo sueco passou a agir diretamente na distribuição dos lucros das empresas, em uma mal sucedida política que previa transformar parte dos lucros em ações das empresas – que acabariam detidas por fundos controlados por sindicatos. Pela proposta, em 20 anos os sindicatos deteriam nada menos que 52% do capital das empresas do país.

Todo o processo, entretanto, foi interrompido com a chamada “Grande Depressão Sueca”, com causas que variam da excessiva dívida pública do país, que vinha de déficits constantes, à explosão no crédito, promovida pelo Banco Central e um claro desgaste em mercados antes puxadores do crescimento, como o setor imobiliário. Ao longo de 3 anos o país entrou em uma profunda recessão. O resultado que se segue a esta quebra, porém, é pouco divulgado. Abaixo listamos 7 exemplos de políticas adotadas que levaram a Suécia a rever boa parte do que nos contaram sobre o país até então.

1. A CARGA TRIBUTÁRIA ESTÁ CAINDO, AO CONTRÁRIO DOS DEMAIS PAÍSES RICOS.

Para financiar a expansão dos gastos sociais, os governos sociais democratas se especializam em expandir a carga de impostos para além da cobrança tradicional de imposto sobre a renda. Ao contrário destes, os impostos sobre o consumo, que são maioria em países como o Brasil, apresentam menor rejeição pela população. Aumentar impostos específicos requer menos desgaste político do que elevar uma única alíquota de imposto de renda.

Com base nisso, a carga tributária da Suécia cresceu a partir dos anos 70, saindo de 31,4% para expressivos 53% em menos de 2 décadas. Apesar disto, os déficits do país continuarem crescendo. A solução encontrada, tal qual no Brasil, foi delimitar em lei o limite do gasto público. Mas, ao contrário do Brasil, onde a lei só se aplica aos estados e municípios, na Suécia, o governo federal foi duramente afetado.

Entre 2000 e 2013, a Suécia registrou uma redução de nada menos do que 7 pontos percentuais, saindo de 49,5% para atuais 42,8%. Para efeito de comparação, a carga brasileira cresceu de 30,3% para 35,95% no mesmo período.

2. O NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS É O MENOR EM DÉCADAS.

Um dos efeitos mais notáveis da ampliação do sistema de bem-estar social foi justamente a elevação do percentual de funcionários públicos no país. Entre 1970 e 1990, o número de funcionários públicos para cada empregado do setor privado saiu de 0,386 para 1,51.

Como ressalta o Le Monde, a redução do número de funcionários públicos foi encarada pelos governos suecos como uma forma de reativar a economia. O número de funcionários públicos caiu de 1,7 milhões para 1,3 milhões entre 1990 e 2013, enquanto no mesmo período, os trabalhadores do setor privado saíram de 2,8 milhões para 3,25 milhões. Ainda de acordo com a OCDE, os gastos do país com funcionalismo não se distinguem de nenhuma das economias consideradas menos intervencionistas – de fato, gasta-se menos do orçamento com o funcionalismo do que, por exemplo, nos Estados Unidos.

3. A RELAÇÃO DÍVIDA/PIB É MENOR QUE A BRASILEIRA.

Após ver sua dívida decuplicar (crescer impressionantes 10 vezes) entre 1975 e 1990, a Suécia aproveitou os anos de profunda recessão para repensar por inteiro sua gestão. Em 1991, os juros da dívida pública consumiam 29% da arrecadação de impostos do país, contra 6% do Brasil em 2013.

Assim como o Brasil, os suecos criaram sua Lei de Responsabilidade Fiscal e trataram de amarrar o crescimento do governo pelos anos seguintes. Constantes superávits fiscais levaram o país a reduzir drasticamente o peso da dívida, que saiu de 71% em 1991 para 38% atuais (contra 64,6% do governo brasileiro). Quando analisamos a dívida líquida, aquela que inclui os ativos do governo, como reservas internacionais, os suecos são de fato devedores de apenas 10% de seu PIB, contra 35% do governo brasileiro.

4. GRANDES CORPORAÇÕES PAGAM MENOS IMPOSTOS NA SUÉCIA DO QUE NO BRASIL OU NOS ESTADOS UNIDOS.

Ao contrário do que possa parecer, os suecos tributam menos grandes empresas do que os demais países europeus. Apenas 6% da arrecadação do país vem de imposto sobre empresas, contra 9% na média da OCDE. Os impostos sobre consumo também possuem maior peso no país nórdico do que nos demais países da OCDE – são $29 em cada $100 arrecadados, contra $23 na média dos países.

A redução do imposto sobre grandes corporações tem sido uma prática constante no país, como parte da integração econômica com a União Europeia. Empresas como a brasileira Évora escolhem a Suécia como sede europeia justamente pelos baixos impostos. As taxas sobre pessoa jurídica se encontram hoje em 22%, contra 34% no Brasil (podendo chegar a 45% em bancos) e 40% nos Estados Unidos. A redução de impostos corporativos tem sido uma constante na OCDE, para escapar de grandes empresas que abusam de táticas contábeis para reduzir impostos pagos. Os Estados Unidos são neste aspecto um ponto fora da curva, com uma taxa maior que todos os demais. O fato, porém, não elimina o destaque sueco neste caso, conseguindo manter taxas menores que França, Reino Unido, Alemanha e Espanha.

5. AS PRIVATIZAÇÕES ESTÃO NA MODA NA SUÉCIA.

Ao contrário de países como o Brasil, onde o tema se tornou um tabu, os sucessivos governos social democratas e conservadores que sucederam a grande depressão do país, encontraram na venda de empresas estatais uma forma de garantir o cumprimento de metas fiscais e reduzir a dívida pública.

Os processos são contínuos e incluem de fabricantes de bebidas a bancos. Em um dos casos mais recentes, a Suécia privatizou suas farmácias, que até 2011 eram estatais. O país era um dos 3 no mundo a ter este setor sob controle do Estado – junto a Cuba e Coréia do Norte. A venda da Apoteket terminou com o monopólio estatal no setor, e sem resultar num monopólio privado. Cerca de 1/3 dos estabelecimentos foram revendidos aos funcionários que operavam as lojas.

O governo sueco promoveu a privatização do Nordea, banco com presença em todos os países nórdicos, além da Finlândia, Polônia e outros países europeus. A bolsa do país, antes também estatal, foi privatizada, levantando US$ 4 bilhões. Dentre as privatizações planejadas, se encontram ainda a companhia aérea detida em conjunto com países da região, além de uma companhia telefônica, na qual o Estado ainda é acionista. Ao contrário do que possa parecer, defender as privatizações não foi um fator negativo na política do país. Pela primeira vez desde o pós guerra um governo conservador se reelegeu, permanecendo 8 anos no cargo. Antes dele, o último conservador a comandar o país havia sido o responsável por gerir a Suécia na sua grande depressão, entre 1991 e 1994.

6. E ELES ESTÃO PRIVATIZANDO SAÚDE E EDUCAÇÃO.

 

Apesar de financiada pelo Estado, a saúde e a educação na Suécia têm sido, nas palavras do jornal inglêsThe Guardian, um laboratório para a implementação do setor privado no país, conhecido pelo sistema de saúde socializado. Governos conservadores e trabalhistas, de direita e esquerda, promoveram durante os últimos 15 anos um prolongado ajuste sobre ambos os setores. Atualmente a Suécia conta com 30% dos atendimentos médicos e 1 em cada 8 escolas sendo geridas pela iniciativa privada.

O debate no país tem se centrado, entretanto, na possibilidade das empresas obterem lucro. Como no Brasil, inúmeros provedores de saúde e educação são entidades sem fins lucrativos, com a diferença de que lá, como no Chile, o governo financia a aquisição de ambos os serviços por meio dos chamados ‘vouchers’, cheques com destinação certa.

A abertura no país tem servido de exemplo, como relatou a The Economist, também britânica, parareformar a saúde inglesa. Como aponta a revista, os suecos tem feito aquilo que Thatcher não conseguiu fazer – reduzir o peso do Estado na gestão de saúde. Além de servir de base para outros países, o modelo permite o surgimento de grandes empresas no setor, como a Capio, que administra um dos maiores hospitais do país e possui 11 mil funcionários.

Os resultados têm sido expressivos, em especial no tempo de atendimento. Ainda segundo o The Guardian, o tempo médio de espera em uma emergência de um destes hospitais tem sido de meia hora, contra uma média de 4 horas em emergências de hospitais ingleses.

7. É MAIS FÁCIL FAZER NEGÓCIOS NA SUÉCIA DO QUE NA ALEMANHA.

A abertura comercial, marca da Suécia liberal do século XIX, tem se mantido intocada pelo país ao longo das últimas décadas. A ausência de uma lei de salário mínimo, flexibilidade trabalhista e um baixo peso de impostos sobre os salários (na média os números são aproximadamente metade dos brasileiros – ou seja, enquanto no Brasil para cada R$ 1 em salário, paga-se R$ 1,03 em impostos, na Suécia a taxa é de $ 0,44).

O país possui uma colaboração de destaque no ranking da Doing Business, organização que mede os padrões internacionais de burocracia e outras dificuldades para implementação de um negócio.

Assim como a Noruega, onde fazer negócios é mais fácil do que nos Estados Unidos, a Suécia se destaca como a 11ª colocada no ranking, à frente de países como Alemanha, Suíça e Holanda (respectivamente a maior economia da Europa, o país com maior facilidades para o setor financeiro e o país com o maior porto do continente).

O que torna a Suécia tão atraente, porém, é justamente sua posição em um 4º lugar no ranking de países com maiores tratados comerciais. A Suécia – ao contrário do Brasil, que nos últimos 12 anos realizou apenas 3 acordos bilaterais – especializou-se em firmar acordos de livre comércio.

A transformação da Suécia de uma utopia de esquerda em um dos países mais culturalmente e economicamente abertos do continente, tem sido uma experiência notável, com certo destaque para a importância de suas instituições. O tal socialismo sueco convive mais na mentalidade apaixonada de pessoas incapazes de correlacionar fatos e eventos do que na prática. O país, ao contrário do que se pensa, não adquiriu sua riqueza graças à distribuição de renda – em suma, os suecos aprenderam na prática algo que os brasileiros ainda relutam em aceitar: a criação de riqueza é um passo fundamental para aqueles que sonham em dividi-la.

Link: http://spotniks.com/7-fatos-que-contradizem-tudo-que-voce-acreditava-sobre-a-suecia/

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Sobre este assunto leia também A AURORA NÓRDICA PARA O CAPITALISMO.

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