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Generalizações frequentemente têm um efeito negativo, mas, no limite, nos permitem apreender a tendência de pensamento de um grupo. A questão passa a ser como circunscrever o grupo, como isolar elementos suficientes para transformá-lo em objeto consistente de análise.

Esta problemática perpassa vários artigos do blog, principalmente na busca por elementos que permitam compreender o que são e o que querem grupos que se aglutinam em conceitos como extrema-esquerda, esquerda, centro, direita e extrema-direita.

Se estas cinco gavetas ideológicas são evidentemente pequenas para abarcar a complexidade real da política e a natural disputa por espaço e poder entre todos seus agentes diretos e indiretos, a redução desta tensão para a dicotômica separação esquerda/direita torna tudo ainda mais difícil.

Esquerda/Direita acabam por se mostrar conceitos fluidos, de pouca ou nenhuma precisão semântica.

Para tentar melhorar a precisão, ultimamente uso dois enfoques que são complementares entre si.

O primeiro é econômico, em que a divisão simplificada é possível:  a esquerda se define pela busca do fim da propriedade privada dos meios de produção, ou ao menos seu controle (como na China); a direita se define pela defesa da propriedade privada dos meios de produção, com maior ou menor intervenção do Estado na economia.

O segundo critério é político e usa a divisão proposta por Augusto de Franco entre democratas e autocratas.

Aqui é imperativo observar um detalhe essencial: existem autocratas de extrema-direita, de esquerda e extrema-esquerda, mas democratas existem apenas no intervalo que vai do centro à direita, uma vez que não é possível conciliar a autocracia ou o fim da propriedade privada dos meios de produção com a democracia.

Algumas pessoas têm dificuldade com este ponto: por que não pode existir democracia sem a propriedade privada dos meios de produção?

A questão é filosófica e prática.

A abolição da propriedade privada dos meios de produção só é possível eliminando o direito de pessoas empreenderem e de outras optarem por vender-lhes a sua força de trabalho.

Estes direitos estão no cerne da democracia liberal e do estado de direito, uma vez que os direitos civis se fundamentam na liberdade individual, que abarca o direito à vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei.

Quem defende o fim da propriedade privada dos meios de produção ataca a democracia liberal e fala em democracia direta ou em centralismo democrático, a primeira uma quimera e a segunda, pura ironia.

Democracia direta não tem a menor chance de funcionar minimamente bem em sociedades complexas e centralismo democrático é apenas eufemismo para ditadura de partido único.

Neste ponto alguns que se auto classificam à esquerda acenam com a socialdemocracia como exemplo de modelo de esquerda que se mantém democrático e não visa o fim da propriedade privada dos meios de produção.

A verdade é que nenhuma socialdemocracia conhecida é de esquerda no sentido marxista do termo. Todas são democracias representativas inseridas no capitalismo global (as tensões internas deste modelo encontram um histórico didático aqui).

Voltamos assim à minha tese: quem tem a democracia liberal como valor fundamental não é de esquerda. Querer uma sociedade mais justa e com menos desigualdade, desejar o fim da pobreza, lutar por educação e saúde de qualidade para todos não significa ser de esquerda. Significa ser humanista, o que é uma formulação dos filósofos iluministas, representantes da burguesia.

Observe que toda esta reflexão propositalmente deixou de fora qualquer menção a partidos políticos e seus candidatos. Neste Brasil irracional em que vivemos, movido a Fake News, onde a democracia é diariamente atacada e demonizada como um modelo que deu errado, é preciso evitar as armadilhas do desencanto. Deixar a política partidária de lado possibilita dar maior relevância a dois fatos lógicos fundamentais:

1) A alternativa à democracia é algum tipo de arbítrio, de ditadura. E o que acontece se você não gostar da tal ditadura? Lembre-se: é muito mais difícil livrar-se de um mal governante em ditaduras do que na democracia.

2) Existem vários exemplos virtuosos de democracias liberais a serem estudados e copiados, mas não existe nenhum modelo virtuoso de ditadura.

Ou seja: lutar contra a democracia e eleger quem não a reconhece como valor fundamental é um retrocesso civilizacional.

 

Artigo de Paulo Falcão.

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