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OS YAHOOS, A RESPONSABILIDADE FISCAL E OS PROGRESSISTAS.

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A dificuldade das pessoas em geral e da esquerda em particular para compreender o conceito de Responsabilidade Fiscal e sua importância é público e notório.

Ninguém é obrigado a entender deste assunto, mas é o mínimo que se espera de quem resolve discuti-lo na mídia.

Como tenho afirmado em outros artigos, sempre que a ideologia briga com a matemática, mais cedo ou mais tarde a matemática se impõe. Isto deveria contribuir para que os ideólogos do realismo mágico entendessem que tal abordagem só funciona bem em literatura de ficção. Na vida real, nunca.

Agora, frente ao descalabro nas contas públicas do governo do PT (que começou em 2008, quando Lula, na metade do segundo mandato abandonou as práticas herdadas de FHC e passou a apostar na criação de uma “nova matriz econômica”), temos novamente uma divisão clara.

De um lado, representantes da “mídia golpista”, que é como são chamadas as mídias e os profissionais que defendem a responsabilidade fiscal e apontam a irresponsabilidade do governo Dilma.

De outro, as “mídias progressistas”, que é como se auto intitulam os publicadores de press release (devidamente remunerados com dinheiro público) e vários outros que o fazem realmente por convicção, o que chega a ser mais grave.

Quem de fato acredita que Responsabilidade Fiscal é uma bobagem e que é possível gastar irresponsavelmente para “resgatar dívidas sociais” me lembra membros da tribo Yahoos, personagens de um conto de Jorge Luis Borges chamado “O informe de Brodie”.

Para esta tribo primitiva e fictícia não existia o conceito de paternidade. Eles não conseguiam compreender que um ato ocorrido há 9 meses resultasse no nascimento de uma criança agora.

Os defensores da “irresponsabilidade fiscal” padecem desta incapacidade de reconhecer a relação de causa e efeito entre a gastança e a crise.

Qualquer pessoa que pague as próprias contas sabe que gastar mais do que se ganha leva ao endividamento. Sabe também que o endividamento acaba obrigando a cortar despesas onde for possível, e isto sempre envolve sacrifícios.

Logo, o melhor é não se endividar e planejar os gastos de maneira que caibam no orçamento, uma vez que não é possível expandir as recitas indefinidamente. É básico. É primário. Mas diariamente vemos políticos, economistas e jornalistas “progressistas” criticando qualquer tentativa de cortar despesas para ajustar as contas públicas. Para eles, sempre dá para aumentar mais e mais os impostos sobre “o dinheiro dos outros”. Nunca ouviram falar na Curva de Lafer.

São legítimos Yahoos.

A seguir, reproduzo um artigo de Irineu Evangelista de Carvalho que traz mais um exemplo concreto das soluções mágicas que nascem nas cabeças “progressistas”. E mais uma vez, suas ideias não correspondem aos fatos.

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Por que o governo não pode cobrir rombo com reserva cambial?

Artigo de Irineu Evangelista de Carvalho, do site Por Quê? para a revista Exame.

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Quase todo problema difícil tem uma solução fácil, mas errada.

Não é diferente com nosso problema fiscal. O déficit primário programado de 30 bilhões de reais para 2016 pesou para o rebaixamento de nossa nota de crédito.

Por isso o governo anunciou algumas medidas de aumento de receita e cortes de despesas: para reverter esse déficit.

Algumas almas criativas, entretanto, sugerem: aumentar impostos e cortar gastos não são necessários. Afinal, o Brasil tem em reservas cambiais o equivalente a 1,4 trilhões de reais.

Veja só esta imagem que tem circulado pelas redes sociais, por exemplo:

absurdo

Essa saída é totalmente equivocada. Primeiro, as reservas são um estoque e o déficit é um fluxo. Ou seja, se o buraco de 30 bilhões de reais em 2016 não for corrigido, outro buraco haverá em 2017, 2018, 2019… 2021… 2037 e por aí vai.

Mas a alma bem-intencionada, caridosa e transbordante de ideias pode dizer:

– Mas 30 bilhões de reais são um grão de areia perto de 1,4 trilhões!

E é aí que mora um erro mais importante. As reservas são um ativo do Banco Central (BC). Mas a capacidade do BC de socorrer o orçamento – abstraindo da legalidade da operação – não é dada por seus ativos, mas por seu patrimônio líquido.

Deixe-me explicar melhor:

Digamos que o João tomou emprestado 1 milhão de reais para comprar dólares. Isso significa que ele pode dispor de 1 milhão para financiar seu consumo acima de sua renda?

Certamente, não. Ele ainda tem que repagar sua dívida. João pode dispor apenas de seu patrimônio líquido – em outras palavras, a diferença entre seus ativos e dívidas – para financiar consumo acima da renda.

Pois bem. O último balanço do BC apontava patrimônio líquido de 46 bilhões de reais – isso seria suficiente para somente perto de um ano e meio de buraco fiscal…

A necessidade de ajuste continua!

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Link para o artigo original na Exame

Link para a explicação da Curva de Lafer

Link para outros artigos que abordam o conflito da Ideologia com a Matemática:
IDEOLOGIA NÃO PAGA AS CONTAS

A IGNORÂNCIA NÃO É UMA BENÇÃO.

A GRÉCIA, A MATEMÁTICA E O DESTINO INELUTÁVEL.

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4 comentários em “OS YAHOOS, A RESPONSABILIDADE FISCAL E OS PROGRESSISTAS.

  1. César Luque
    09/29/2015

    A comparação com os Yahoos é precisa e comprovável diariamente.

    André Singer, ex-porta-voz de Lula e Petista de alta patente, disse ao Estadão estar preocupado com o estrago que Dilma estaria causando ao “legado lulista”.

    Para ele, a presidente cometeu o erro de fazer “um movimento para recuperar a confiança da burguesia brasileira e do capital internacional” e, “como resultado, estamos na maior recessão dos últimos 20 anos: o custo social é imenso”.

    Quer dizer, o País está em crise não porque Dilma foi perdulária e incompetente no primeiro mandato, mas porque chamou Levy para o ministério da Fazenda quando já não dava mais para negar o desastre.

    E não foi só ele: a Fundação Perseu Abramo, criada e mantida pelo PT, bate na mesma tecla com um populismo de palanque que visa nos livrar das “garras do capitalismo”.

    Seria cômico se não estivéssemos todos vivendo esta tragédia.

    • Questões Relevantes
      09/29/2015

      É bem isso. Obrigado.

  2. Afonso Pelegrino
    09/26/2015

    Esta comparação com os Yahoos foi cruel, mas merecida.

    • Questões Relevantes
      09/26/2015

      Nem acho tão cruel. Ou melhor, já que se trata de um conto de Borges, penso que é cruel como um espelho.

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