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Há um contingente grande de pessoas, principalmente jovens, que junta liberdade, democracia e marxismo em um mesmo discurso. Trata-se de um mistério mais complexo que a santíssima trindade, na medida em que a prática marxista exclui, para se realizar, a liberdade e a democracia.

Vou negar de saída a hipótese de que aqueles que têm fé nesta tríade impossível sejam idiotas, porque conheço vários que advogam esta tese e são bastante inteligentes. Restam então duas explicações mais prováveis. A primeira é que não sabem direito o conceito por trás destas três palavras, e as usam de forma “criativa” (e errada). A segunda é que foram pegos na rede Gramiciana de deformação conceitual que a esquerda brasileira vem tecendo dos anos 70 para cá.

Discutir o assunto com marxistas ortodoxos é fácil, pois eles rapidamente admitem o viés totalizante do marxismo e renegam a democracia “burguesa” (que é também a única que existe, da revolução industrial para cá). Em recente debate meu com a professora Maria Ribeiro do Valle (SABE COM QUEM VOCÊ ESTÁ FALANDO? DEBATE ENTRE A IDEOLOGIA MARXISTA E A LÓGICA LIBERAL.), ficou bastante claro que, para ela e os marxistas, é preferível a ditadura certa (a do proletariado) que a democracia errada.

A coisa é bem diferente com o que chamo de “marxistas difusos”. Estes devotos da tríade libertária (liberdade, democracia e marxismo) de fato conhecem muito pouco a base teórica do que defendem. São portadores, apenas, da fé em um “futuro melhor”. Como disse o professor Denis Lerrer Rosenfield (…) “Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.” (1)

O mesmo professor Rosenfield, em outro artigo, demonstra de forma ainda mais clara a falácia desta nova seita: “Marx já dizia que a verdade de uma ideia é a sua realização prática, sem o que teríamos utopias vazias e, pior, de concretização possível. Ora, só podemos julgar a validade do socialismo por sua realização na História. Se olharmos para a História, constataremos como realizações socialistas, “progressistas”, a aniquilação da liberdade de escolha como a maior de suas façanhas, passando por uma noção bizarra de cidadania que torna todos os indivíduos súditos do Estado. O interesse coletivo, do estatal, impõe-se, então, como forma de correção do “egoísmo”, levando, como se sabe, aos campos de reeducação – na verdade, campos de eliminação dos que se recusavam a essa política liberticida.(1)

(…) O capitalismo, que no dizer dos “progressistas” seria a fonte de todos os males, tornou-se, na História da humanidade, o regime que melhor soube recriar-se, emergindo sempre novo de suas crises. Nas palavras de Schumpeter, o capitalismo caracteriza-se pela “destruição criadora”. Poderíamos acrescentar: e o socialismo, pela “destruição aniquiladora”.

(…) no capitalismo foi erigido todo um conjunto de normas visando a assegurar a liberdade sindical e de organização partidária. Como ninguém encarna a verdade e o bem, não havendo partido que se diga, no exercício do poder, a personificação da virtude revolucionária, todos se devem acomodar a um jogo de pressão e contrapressão no nível sindical e, no nível político, em propostas que tenham como finalidade captar o voto dos cidadãos em nome de uma certa representação do bem comum.(1)

Retomando o início deste artigo, imagino que tenha ficado mais claro porque a tríade LIBERDADE, DEMOCRACIA E MARXISMO é um embuste teórico. Marxismo é um conceito que exclui, de per si, os conceitos de democracia e de liberdade (como compreendidos dentro de um estado democrático e de direito) e não há como conciliá-los. Quem diz o contrário o faz de maneira genérica, messiânica, sem explicar como se dá (ou dará) tal prática. Age mais ou menos como o alquimista que tenta vender a receita de transformar ferro em ouro. Há sempre interessados.

Artigo de Paulo Falcão.

PS – Para quem deseja se aprofundar no tema, sugiro dois artigos.

Este primeiro analisa o verbete DEMOCRACIA do “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2014/03/12/quando-a-patrulha-ideologica-compromete-a-logica/

O segundo faz um apanhado geral das principais divisões politico-ideológicas:

https://questoesrelevantes.wordpress.com/2013/12/12/esquerda-x-direita-a-teoria-das-gavetas-ou-como-nao-chamar-urubu-de-meu-loro/

 

(1) : Denis Lerrer Rosenfield em “O Globo” – http://oglobo.globo.com/opiniao/o-embuste-ideologico-11167368#ixzz2q33Vn9Xe

(2) Denis Lerrer Rosenfield em “O Estado de S.Paulo”  http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,quem-e-progressista,1117787,0.htm

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