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Há algum tempo afirmo que no debate entre a matemática e a ideologia, a primeira sempre demonstra ter razão. É uma simples questão de tempo. É inelutável.

A recente crise grega e a vitória do NÃO à austeridade no plebiscito de 5 de julho trouxeram uma onda de comemorações de integrantes do grupo que acredita que a matemática é apenas uma maldade inventada pelos capitalistas. Pensam estas bobagens e constroem teses instantâneas sem qualquer vergonha, sem qualquer senso de realidade. Mas as consequências de suas teses estão impregnadas no destino de todos que a abraçam.

No Brasil, alguns sites “de esquerda” só faltaram soltar rojões pela vitória do NÃO (os rojões reais, é claro, não os metafóricos, estes brotaram em grande quantidade). Era novamente Davi vencendo o gigante Golias, era o oprimido vencendo o opressor. Tudo fantasia. Tudo uma vontade de ver realizar-se o devir mítico da vitória do hedonismo coletivo sobre a dura e fria necessidade de gastar menos do que se arrecada, ou pelo menos não gastar mais.

Mas a comemoração durou pouco, como indica o artigo abaixo do portal O OBSERVADOR, de Portugal e que trata do choque de realidade que se seguiu à vitória do NÃO.

FUTURO DA GRÉCIA

A semana em que a Europa tirou a gravata

Por Rui Ramos para O Observador (Portugal).

O chefe do governo holandês ameaçou Tsipras de que se houver novo resgate à Grécia, ele também fará um referendo na Holanda. Ao mobilizar a rua grega, Tsipras despertou as outras ruas europeias.

Domingo passado, Tsipras convidou os gregos a recusarem a austeridade proposta pelos credores europeus; agora, em nome dos gregos, ele próprio propôs aos credores uma carga de austeridade muito maior, com cortes e aumentos de impostos no valor de 13 biliões de euros. É assim a democracia na versão de Tsipras: o povo vota num sentido, e o governo decide noutro. Tsipras submeteu a Grécia a uma das maiores fraudes plebiscitárias da história, ao persuadir os eleitores gregos, como em Janeiro, de que tinham uma margem de manobra que, de facto, não existia. Quanto tempo durará a democracia grega neste regime de demagogia golpista?

Entretanto, alguma coisa mudou na Europa. Se tivesse de fixar um momento para simbolizar essa viragem, escolheria os já célebres oito minutos de fúria oratória que Guy Verhofstadt, também sem gravata, dirigiu contra Tsipras no parlamento europeu, quarta-feira passada. Mais do que um discurso, foi o sinal de uma nova etapa da odisseia grega no Euro: o momento em que a oligarquia europeia, também ela, tirou a gravata, e começou a falar sem rodeios e a procurar aplausos na plateia. Durante meses, o espectáculo foi proporcionado exclusivamente pelo duo Tsipras e Varoufakis. Agora, Tsipras, subitamente calado, quase esmagado, já não é o único tipo cool e sem gravata.

Quando os investidores internacionais se assustaram em 2010, a UE tentou proteger a Grécia. Deu-lhe dinheiro, perdoou-lhe dívidas, mas esperou, como contrapartida, que os políticos gregos desmantelassem a máquina de fazer défices instalada no país à sombra do Euro. A ideia era proporcionar-lhes uma pressão externa que eles pudessem usar para fazerem passar reformas que, finalmente, desmamassem a Grécia do défice. Foi uma ilusão, porque a pressão externa não compensou a falta de apoio interno para as reformas. Por isso, os apertões da UE só serviram para ir destruindo os líderes gregos: primeiro Papandreou, depois Samaras. Foi assim que, por fim, a UE se viu diante de Tsipras. O caudilho do Syriza foi hábil. Aproveitou a pressão europeia, não para impor reformas, mas para pousar como o grande defensor da soberania nacional. Os gregos reagiram ambiguamente: por um lado, tiraram o dinheiro dos bancos; mas por outro, votaram em Tsipras. O referendo consagrou-o finalmente, esta semana, como uma espécie de Hugo Chávez do Mediterrâneo.

Só que a golpada do referendo teve um efeito inesperado. Até agora, a crise grega era um assunto de bastidores, de gabinetes, de cimeiras. Uma questão diplomática, para técnicos discretos. Tsipras trouxe-a para a rua. Mas ao mobilizar a rua grega, despertou as outras ruas europeias. Na cimeira de segunda-feira, segundo a edição em papel do El País, o chefe do governo holandês Mark Rutte, ameaçou Tsipras de que se houver um terceiro resgate à Grécia, fará ele também um referendo no seu país. O “nee” num referendo holandês acerca de outro empréstimo à Grécia seria provavelmente tão esmagador como o “oxi” no referendo grego. O demagogo grego deve ter percebido finalmente que o seu golpe plebiscitário abrira a caixa de Pandora. Entretanto, mais de 100 deputados da CDU-CSU, o partido da chanceler Merkel, já deram a entender que votariam contra um terceiro resgate. Mas houve pior: ontem, Jens Weideman, presidente do Bundesbank, exigiu que fossem “os políticos” – isto é, os governos e os parlamentos –, e não o BCE, a tomarem a responsabilidade pelas transferências de recursos para a Grécia. Durante meses, o BCE foi usado para viabilizar a fuga de capitais da Grécia. Como se a questão fosse apenas técnica. O banco central alemão quer que a suposta ajuda aos bancos gregos seja finalmente desvendada como uma questão política.

Há muito tempo que todos percebemos que a Grécia é um daqueles problemas que é possível adiar, mas já não é possível resolver. Este fim de semana, poderemos ter mais um adiamento. Mas os riscos são grandes. O que farão os gregos, quando descobrirem que foram convidados a recusar um acordo, apenas para aceitarem um acordo muito mais duro? E que farão os outros contribuintes europeus, quando perceberem que, mais uma vez, a oligarquia europeia vai obrigá-los a pagar a irreversibilidade do Euro? Por enquanto, o Euro sobe, as bolsas animam-se, o investimento em dívida italiana aumenta, os juros gregos baixam. Mas algo mudou. A Europa já não usa gravata.

Link para o artigo original: http://observador.pt/opiniao/autor/rlramos/

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