Marcelo Aleixo tem feito um trabalho primoroso em conscientizar quem sonha em ver no Brasil algo semelhante às socialdemocracias nórdicas. Infelizmente, como diz “Os brasileiros querem ter os benefícios do sistema nórdico, mas rejeitam a disciplina fiscal, rejeitam mais liberdade de mercado e a flexibilização do mercado de trabalho, a adequação da carga tributária e dos impostos, bem como a busca pela competitividade em uma aliança de toda sociedade.

Todos querem bem-estar “grátis”, mas isso só funciona no discurso populista.”

Uma imagem que talvez possamos usar aqui é um esforço para convencer Peter Pan a costurar-se a própria sombra. Um não existe sem o outro, mas há quem prefira a doce fantasia.

Reproduzo abaixo material que postou no grupo Ciências Sociais e Econômicas e que acredito contribua para costurar a realidade às fantasias do sucesso sem esforço.

“POLÍTICAS ECONÔMICAS NÓRDICAS NAS DÉCADAS DE 1980 E 1990”

Vemos muitas pessoas apontando para os países do norte europeu e, com isso, querendo adotar aqui as políticas que deram certo lá. Então, para ajudar, trago este paper do Lars Mjøset, professor da Universidade de Oslo (Noruega), que é um resumo das principais políticas econômicas nórdicas adotadas para darem soluções para suas crises naqueles anos, e que levaram estes países à sua atual condição de ricos e desenvolvidos.

A íntegra em inglês está aqui.

Algumas partes com tradução livre:

“Descobrimos que os modelos anteriores nos colocaram em apuros e crise de alta inflação. Esta experiência no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 levou a uma convergência para uma versão nórdica do neoliberalismo.” (pág.6);

“O surgimento de visões neoliberais deve ser entendido em um sentido mais amplo. A orientação dos tomadores de decisão foram mais para o mercado do que na década de 1970, mas não tão fortemente neoliberal como, por exemplo, dentro Inglaterra e Estados Unidos.” (pág.6);

“Consequências inesperadas, como inflação e vários déficits, levam ao período de neoliberalismo, enfatizando políticas de taxa de câmbio baseadas em normas (impedindo os formuladores de políticas da tentação de desvalorizar) e reformas para aumento de eficiência. A busca por laços mais estreitos com a UE pode ser vista como uma tentativa de consolidar esta abordagem.” (pág.7);

“O relato acima se encaixa melhor na Suécia … Em 1982 – o pior ano – o emprego estava em uma situação em que demandava políticas monetárias e fiscais restritivas. Não havia mais espaço para desvalorizações… Os orçamentos públicos tinham que ser fortemente apertados, e o trabalhismo não logrou êxito. Incapaz de enfrentar o desafio, o governo renunciou.” (pág.10);

“O surgimento de abordagens neoliberais e mais orientadas para o mercado nas políticas econômicas foi uma parte principal da resposta aos problemas traçados acima. A Figura 1 resume os fatores por trás da disseminação de atitudes neoliberais nas políticas econômicas nórdicas.” (pág.10);

“Todos os países nórdicos entraram em um caminho para longe do keynesianismo… A estrada para longe do keynesianismo tornou-se mais óbvia em meados da década de 1980.” (pág.12);

“Em todos os países nórdicos, exceto na Islândia, as empresas locais ficaram cada vez mais internacionalizadas.” (pág.23)

Para complementar, Marcelo Aleixo acrescenta:

“Os países escandinavos passaram por fortes crises nos anos 80 e 90, reorganizaram suas economias combinando rigorosa disciplina fiscal com liberdade de mercado, flexibilizando as leis de trabalho e promovendo o bem-estar social.

Se olharmos a carga tributária destes países, percebemos que foi crescente. Diferente de muitas alegações (falsas) de que eles são o que são por causa dos impostos, pura e simplesmente, vemos que na realidade a carga foi sendo elevada na medida que a geração de riquezas permitia mais welfare.

As sociedades dos países nórdicos, de forma quase homogênea, estabeleceram a construção de nações onde o estado e o indivíduo buscam transformar os ganhos de economias capitalistas em benefícios, sustentando uma ampla rede de segurança social. Mas isso só foi possível por conta das economias fortes destes países, muito competitivas, gerando receitas suficientes para o Estado de maneira a sustentar o sistema.

Os brasileiros querem ter os benefícios do sistema nórdico, mas rejeitam a disciplina fiscal, rejeitam mais liberdade de mercado e a flexibilização do mercado de trabalho, a adequação da carga tributária e dos impostos, bem como a busca pela competitividade em uma aliança de toda sociedade.

Todos querem bem-estar “grátis”, mas isso só funciona no discurso populista. Pode protestar, fazer revolução de redes sociais, pode fazer o que quiser, sem gerar riqueza não há bem-estar sustentável.

O Estado brasileiro já gasta como os nórdicos. Mais de 40% de toda renda nacional vai para os gastos públicos, mas, temos o que temos, nem preciso comentar sobre a falta de eficiência brazuca, que conta com um Estado paquidérmico…”

RETOMO PARA CONCLUIR

Esta militância pela racionalidade econômica em busca de uma sociedade mais justa ainda não conseguiu vencer as barreiras macunaímicas de nossa sociedade, os sonhos por soluções mágicas, mas já contribuiu para gerar uma Proposta de Governo em busca de candidatos que a apoiem em 2022.

Trata-se de proposta clara e sintética com forte capacidade de redirecionar os gastos públicos para os mais pobres e reduzir a desigualdade brasileira. Se quiser conhece-la, clique aqui.