Em artigo no jornal português SABADOJoão Pereira Coutinho observa:

“Eu já desconfiava: as “guerras culturais” que tomaram de assalto a discussão política cansam a maioria das pessoas e são um exclusivo dos extremos. Mas agora o think tank More in Common, no Reino Unido, realizou um estudo para dar números à minha intuição. Informa o The Guardian que, segundo o referido estudo, 12% dos eleitores do país representam 50% dos usuários das redes sociais. Isto, que já é revelador, é ainda mais revelador quando sabemos que esses 12% são seis vezes mais activos nas redes do que a população restante. E quem domina esses 12%? Duas tribos: “activistas progressistas” e “conservadores irredutíveis”. Verdade que o estudo só se aplica à realidade britânica. Mas suspeito que, replicado por aí, revelaria a mesma perplexidade: como foi que nos tornámos tão reféns de uma minoria vociferante, fanática e ridícula?”

A resposta à indagação de João Pereira Coutinho é relativamente simples e está contida no próprio texto: essa pequena minoria é 6 vezes mais ativa nas redes sociais, o novo território de formação da opinião pública.

Tal constatação dialoga de forma direta com artigo de Felipe Betim e Flávia Marreiro para o jornal El País sobre a recente visibilidade da extrema-esquerda no Brasil. Ali podemos ler:

“Para Helena Vieira há pontos de contato na narrativa entre Jones Manoel e a extrema direita representada pelo presidente Jair Bolsonaro e o ideólogo Olavo de Carvalho —apesar das óbvias diferenças ideológicas e de espaço que ocupam na opinião pública e no ecossistema digital, além do mundo real. Ela enxerga no historiador um “conservadorismo de esquerda” que reinterpreta a história sob a luz de suas crenças ideológicas, valendo-se de uma “utopia regressiva” para mobilizar seguidores e atacar nas redes seus adversários políticos, incluindo aqueles que fazem parte do mesmo campo ideológico.

Para a escritora, de um lado temos Bolsonaro apelando para a figura “do militar, do mito, do herói, da arma, tudo como tentativa de reconstruir uma masculinidade capaz de reordenar as coisas”. Do outro, essa esquerda mais radical “vai recolocar no centro o homem e as formas de autoritarismo, em busca de uma figura masculina para reordenar o espaço”. “São sujeitos que melancolicamente evocam o passado. Jogam o mesmo jogo segundo as mesmas regras, no tabuleiro dos mesmos afetos”, diz ela, que vê nos dois campos uma “profunda descrença institucional.”

(…) (para Norberto Bobbio) extremistas de esquerda e de direita “se tocam” não por causa das ideias professadas, mas pela defesa do método violento para colocá-las em prática. “Um extremismo de esquerda e um de direita têm em comum a antidemocracia (um ódio, senão um amor)”.

Pois bem. Como combate-los? Com civilidade e trabalho.

Você que não se identifica com tais extremos deve produzir e compartilhar conteúdos que busquem caminhos equilibrados, inclusivos, educados. Deve responder as agressões com argumentos, com lógica.

No artigo em que reproduzo e comento a publicação de Felipe Betim e Flávia Marreiro para o jornal El País termino dizendo:

“Todo esse discurso (como o discurso da extrema-direita), tem o mesmo inimigo real: a democracia, porque é justamente a democracia como valor fundamental que lhes é fatal.

Para sair da armadilha autoritária em que estamos é preciso tirarmos o foco dos polos autocráticos que disputam nossa atenção e transformarmos em assunto diário os diversos valores que estruturam a democracia. Não há outra saída. Democracia não pode ser imposta, precisa ser cultivada.”

Não é tarefa fácil, mas lembre-se: os extremistas não são maioria. Está faltando é trabalho.