Há um texto famoso de Lenin, chamado Democracia Burguesa e Democracia Proletária, publicado em 1918, que frequentemente é citado de forma direta ou indireta sempre que o debate sobre a importância da democracia vem à tona.

Vários pensadores, como Alexander Görlach, já explicaram que democracia é liberal ou não é democracia. Lenin ataca justamente esse entendimento em um confronto bastante duro contra Karl Johann Kautsky, filósofo tcheco-austríaco, jornalista, teórico marxista e um dos fundadores da ideologia socialdemocrata.

O texto escrito por Lenin no calor dos acontecimentos revolucionários na Rússia reflete a tensão que existia na época entre a corrente que defendia a “democracia de uma só classe, a proletária” (e consequente eliminação de seus antagonistas) e os que defendiam uma “democracia pura”, que Lenin chamou de “democracia burguesa”. A primeira segue ocupando o imaginário do que chamo de “a turma do farol”: pessoas que sonham orientar a plebe rude no mar do cotidiano, indicando o caminho para o nirvana, que nunca chega.

Se a virulência de Lenin contra Kautsky embasou e segue embasando os sonhos autoritários dos defensores das ideias conhecidas por marxismo-leninismo, acredito necessário colocarmos aqui alguma perspectiva histórica.

Comecemos por Leôncio Martins Rodrigues, Professor de Ciência Política na USP/UNICAMP em “Lenin: o partido, o Estado e a burocracia”:

“(…) Muita gente julga que a palavra de ordem “todo o poder aos sovietes” correspondeu a uma prática efetiva. Na realidade, o poder sempre esteve em mãos do partido bolchevique. O Comitê Central Executivo Pan Russo dos Sovietes – o V.Ts.LK, na sigla russa – que teoricamente deveria constituir o órgão supremo de poder, emanado dos sovietes, não se reuniu uma única vez entre o dia 14 de julho de 1918 e o dia 1 de fevereiro de 1920, embora seus decretos continuassem a ser publicados. Todas as decisões importantes foram discutidas e adotadas no Comitê Central do Partido bolchevique (Tratado de Paz de Brest-Litovsky, proibição do funcionamento dos demais partidos, instauração da NEP, etc.). A conquista do poder mediante uma sublevação apoiada na organização militar logo faria com que o regime bolchevique se transformasse na ditadura de uma minoria, de uma pequena minoria, como diria Lenin, apoiada em organizações militares: a Guarda Vermelha, o Comitê Militar Revolucionário e, em seguida, a Tcheka (polícia política dotada de amplos poderes e criada logo em 7 de dezembro de 1917) e o Exército Vermelho.”

Se você se lembrou de Bolsonaro e seus generais sonhando em trocar a democracia por uma ditadura com sinal ideológico trocado (em relação a Lenin), não é coincidência. Estamos em um período em que a democracia liberal é atacada pela esquerda e pela extrema direita (já vimos isso na primeira metade do século XX, com resultados bem conhecidos na Alemanha, Espanha, Itália e Portugal, para citarmos países que viviam sob democracias, ainda que incipientes).

Mas o ponto central do que chamei de perspectiva histórica deve ser, a meu ver, a evolução prática que tiveram as ideias de Lenin e Kautsky. Nesse sentido, fica claro que o tempo deu razão a Kautsky.

De um lado podemos comprovar que  100% dos governos resultantes das ideias de Lenin, ou do marxismo-leninismo, foram ou são ditaduras, com o povo submetido a rigoroso controle das liberdades individuais e a um estado patrão contra o qual não possuem voz, com notória desigualdade entre o povo e as lideranças, mas que encontraram nessa fórmula mecanismos para assegurar maior igualdade no acesso à educação e saúde, e, em alguns casos, no desenvolvimento tecnológico, com destaque para a própria URSS e China.

Por outro lado, podemos observar as ideias de Kautsky resultando em países que demonstram, na prática, o grau máximo de distribuição dos benefícios do capitalismo (o que inclui a liberdade individual) e o limite entre a democracia e o autoritarismo, como Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Alemanha e Canadá, todos democracias liberais com grande liberdade econômica.

Assim, se o texto de Lenin que reproduzo abaixo, no calor dos acontecimentos lhe deu poder e razão, hoje, frente à evolução prática de ambas as teses, soa panfletário, uma defesa contundente e equivocada de um autoritarismo que se mostrou menos eficiente e muito mais cruel do que a alternativa da “democracia pura”.

No entanto, basta uma rápida pesquisa no Google com o título Democracia Burguesa e Democracia Proletária para perceber que, apesar de superado pela história, segue influenciando fortemente pessoas e partidos que sonham com a superação da democracia. Sei que é estranho e anacrônico, mas infelizmente é assim. Muito poucas pessoas reconhecem o real valor da democracia liberal.

Segue o texto de Lenin. Volto no final para concluir.

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Democracia Burguesa e Democracia Proletária (V. I. Lenin)

 A questão tão descaradamente confundida por Kautsky apresenta-se na realidade assim.

A não ser para zombar do senso comum e da história, é claro que não se pode falar de “democracia pura” enquanto existirem classes diferentes, pode-se falar apenas de democracia de classe. (Digamos entre parênteses que “democracia pura” é não só uma frase de ignorante, que revela a incompreensão tanto da luta de classes como da essência do Estado, mas também uma frase triplamente vazia, pois na sociedade comunista a democracia, modificando-se e tornando-se um hábito, extinguir-se-á, mas nunca será democracia “pura”.)

A “democracia pura” é uma frase mentirosa de liberal que procura enganar os operários. A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa.

Se Kautsky consagra até dezenas de páginas para “demonstrar” a verdade de que a democracia burguesa é progressiva em comparação com a Idade Média e de que o proletariado deve obrigatoriamente utilizá-la na sua luta contra a burguesia, isto é precisamente charlatanice de liberal, destinada a enganar os operários. Trata-se de um clichê não só na culta Alemanha como também na Rússia inculta. Kautsky atira simplesmente areia “sábia” aos olhos dos operários, falando-lhes com ar importante tanto de Weitling, como dos jesuítas no Paraguai e de muitas outras coisas para eludir a essência burguesa da democracia contemporânea, isto é, capitalista.

Kautsky toma do marxismo aquilo que é aceitável para os liberais, para a burguesia (a crítica da Idade Média, o papel histórico progressista do capitalismo em geral e da democracia capitalista em particular) e rejeita, silencia e suaviza no marxismo aquilo que é inaceitável para a burguesia (a violência revolucionária do proletariado contra a burguesia para a suprimir). Eis porque, por força da sua posição objetiva, e seja qual for a sua convicção subjetiva, Kautsky se revela inevitavelmente um lacaio da burguesia.

A democracia burguesa, sendo um grande progresso histórico em comparação com a Idade Média, continua a ser sempre — e não pode deixar de continuar a ser sob o capitalismo — estreita, amputada, falsa, hipócrita, paraíso para os ricos, uma armadilha e um engano para os explorados, para os pobres. É esta verdade, que constitui uma parte integrante essencial da doutrina marxista, que o “marxista” Kautsky não compreendeu. Nesta questão — fundamental — Kautsky oferece “amabilidades” à burguesia, em vez de uma crítica científica das condições que fazem de qualquer democracia burguesa uma democracia para os ricos.

Comecemos por recordar ao doutíssimo senhor Kautsky as declarações teóricas de Marx e Engels que o nosso letrado vergonhosamente “esqueceu” (para agradar à burguesia), e depois explicaremos as coisas de maneira mais popular.

Não só o Estado antigo e feudal, mas também “o moderno Estado representativo é um instrumento de exploração do trabalho assalariado pelo capital” (Engels, na sua obra sobre o Estado)1. “Ora, como o Estado é, de fato, apenas uma instituição transitória, da qual a gente se serve na luta, na revolução para reprimir pela força os adversários, é puro absurdo falar de um Estado popular livre: enquanto o proletariado ainda usa o Estado, usa-o não no interesse da liberdade, mas da repressão dos seus adversários, e logo que se pode falar de liberdade o Estado deixa de existir como tal” (Engels na carta a Bebel de 28.03.1875)2. “O Estado não é mais do que uma máquina para a opressão de uma classe por outra e de modo nenhum menos na república democrática do que na monarquia” (Engels no prefácio à Guerra Civil de Marx)3. O sufrágio universal é “o barômetro da maturidade da classe operária. Mas não pode ser nem será nunca, no Estado de hoje” (Engels na sua obra sobre o Estado)4. O senhor Kautsky mastiga da forma mais enfadonha a primeira parte desta tese, aceitável para a burguesia. Mas o renegado Kautsky passa em silêncio a segunda, que sublinhamos e que não é aceitável para a burguesia!).

“A Comuna devia ser não um corpo parlamentar, mas um corpo de trabalho, executivo e legislativo ao mesmo tempo… Em vez de decidir de três em três anos ou de seis em seis que membro da classe dominante havia de representar e reprimir (ver- und zertreten) o povo no Parlamento, o sufrágio universal devia servir ao povo constituído em Comunas como o voto individual serve a todos os outros patrões para escolherem operários, capatazes e contabilistas no seu negócio (Marx na obra sobre a Comuna de Paris, A Guerra Civil em França)5

Cada uma destas teses, que o doutíssimo senhor Kautsky conhece perfeitamente, é para ele uma bofetada e descobre toda a sua traição. Em toda a brochura de Kautsky não há a mínima compreensão destas verdades. Todo o conteúdo da sua brochura é um escárnio do marxismo!

Tomai as leis fundamentais dos Estados contemporâneos, tomai a sua administração, tomai a liberdade de reunião ou de imprensa, tomai a “igualdade dos cidadãos perante a lei” e vereis a cada passo a hipocrisia da democracia burguesa, bem conhecida de qualquer operário honesto e consciente. Não há Estado, nem mesmo o mais democrático, onde não haja escapatórias ou reservas nas constituições que assegurem à burguesia a possibilidade de lançar as tropas contra os operários, declarar o estado de guerra etc., “em caso de violação da ordem“, de fato em caso de “violação” pela classe explorada da sua situação de escrava e de tentativas de não se comportar como escrava. Kautsky embeleza desavergonhadamente a democracia burguesa, nada dizendo, por exemplo, daquilo que fazem os burgueses mais democráticos e republicanos na América ou na Suíça contra os operários em greve.

Oh! O sábio e douto Kautsky silencia isto! Ele não compreende, este douto político, que silenciar isto é uma infâmia. Prefere contar aos operários contos para crianças, como por exemplo o de que a democracia significa “proteção da minoria”. É incrível, mas é assim! No ano de 1918 do nascimento de Cristo, no quinto ano da carnificina imperialista mundial e de estrangulamento das minorias internacionalistas (isto é, daquelas que não atraiçoaram vilmente o socialismo, como o fizeram os Renaudel e os Longuet, os Scheidemann e os Kautsky, os Henderson e os Webb etc.), em todas as “democracias” do mundo, o douto senhor Kautsky canta com uma voz doce, muito doce, a “proteção da minoria”. Quem o desejar, pode lê-lo na página 15 da brochura de Kautsky. E na página 16, esse douto… indivíduo irá falar dos whigs e dos tories6 do século 18 na Inglaterra!

Oh, sapiência! Oh, refinado servilismo perante a burguesia! Oh, maneira civilizada de rastejar perante os capitalistas e de lhes lamber as botas! Se eu fosse Krupp ou Scheidemann ou Clemenceau ou Renaudel, pagaria milhões ao senhor Kautsky, compensá-lo-ia com beijos de Judas, elogiá-lo-ia perante os operários, recomendaria a “unidade do socialismo” com pessoas tão “respeitáveis” como Kautsky. Escrever brochuras contra a ditadura do proletariado, falar dos whigs e dos tones do século18 na Inglaterra, afirmar que democracia significa “proteção da minoria” e silenciar os programas contra os internacionalistas na “democrática” república da América, não são serviços de lacaio à burguesia?

O douto senhor Kautsky “esqueceu” — provavelmente esqueceu por acaso — uma “ninharia”, a saber: o partido dominante de uma democracia burguesa só garante a proteção da minoria a outro partido burguês, enquanto o proletariado, em qualquer questão séria, profunda e fundamental, em vez de “proteção da minoria” apenas recebe o estado de guerra ou os pogrons. Quanto mais desenvolvida é a democracia tanto mais próxima se encontra do pogrom ou da guerra civil em qualquer caso de profunda divergência política perigosa para a burguesia. O douto senhor Kautsky podia ter observado esta “lei” da democracia burguesa no caso Dreyfus7 na França republicana, no linchamento de negros e de internacionalistas na democrática república da América, no exemplo da Irlanda e do Ulster na democrática Inglaterra8, na perseguição dos bolcheviques e na organização de pogrons contra eles em abril de 1917 na democrática república da Rússia. Cito intencionalmente exemplos não só do tempo da guerra, mas também do tempo de antes da guerra, do tempo de paz. O doce senhor Kautsky prefere fechar os olhos perante estes fatos do século 20 e contar aos operários em vez disso coisas espantosamente novas, notavelmente interessantes, inusitadamente instrutivas e incrivelmente importantes sobre os whigs e os tories no século 18.

Tomai o parlamento burguês. Será possível admitir que o douto Kautsky nunca tenha ouvido dizer que os parlamentos burgueses estão tanto mais submetidos à Bolsa e aos banqueiros quanto mais desenvolvida está a democracia? Daqui não decorre que não se deva utilizar o parlamentarismo burguês (e os bolcheviques utilizaram-no talvez com maior êxito que qualquer outro partido no mundo, pois em 1912-1914 conquistamos toda a cúria operária da quarta Duma9). Mas disto decorre que só um liberal pode esquecer, como Kautsky esquece, o caráter historicamente limitado e relativo do parlamentarismo burguês. No mais democrático Estado burguês, as massas oprimidas deparam a cada passo com a contradição flagrante entre a igualdade formal, que a “democracia” dos capitalistas proclama, e os milhares de limitações e subterfúgios reais que fazem dos proletários escravos assalariados. É precisamente esta contradição que abre os olhos às massas para a podridão, a falsidade e a hipocrisia do capitalismo. É precisamente esta contradição que os agitadores e propagandistas do socialismo denunciam constantemente perante as massas a fim de as preparar para a revolução! E quando começou a era das revoluções, Kautsky voltou-lhe as costas e pôs-se a celebrar os encantos da democracia burguesa moribunda.

A democracia proletária, de que o Poder Soviético é uma das formas, desenvolveu e alargou como nunca no mundo a democracia precisamente para a gigantesca maioria da população, para os explorados e os trabalhadores. Escrever todo um livro sobre a democracia, como fez Kautsky, falando em duas paginazinhas de ditadura e em dezenas de páginas de “democracia pura” e não notar, isto é deturpar por completo as coisas como um liberal. Tomai a política externa. Em nenhum país burguês, nem mesmo o mais democrático, ela é feita abertamente. Em toda a parte se engana as massas, e nas democráticas França, Suíça, América, Inglaterra cem vezes mais ampla e refinadamente que nos outros países. O Poder Soviético arrancou revolucionariamente o véu de segredo que encobria a política externa. Kautsky não o notou, silencia isto, se bem que numa época de guerras de rapina e de tratados secretos sobre a “partilha das esferas de influência” (isto é, a partilha do mundo pelos bandidos capitalistas) isto tenha uma importância capital, porque disto depende a questão da paz, a questão da vida ou da morte de dezenas de milhões de pessoas.

Tomai a estrutura do Estado. Kautsky agarra-se às “ninharias”, mesmo ao fato de que as eleições são “indirectas” (na Constituição soviética), mas não vê o fundo do problema. Não nota a essência de classe do aparelho de Estado, da máquina de Estado. Na democracia burguesa, servindo-se de mil estratagemas — tanto mais engenhosos e eficazes quanto mais desenvolvida está a democracia “pura” —, os capitalistas afastam as massas da administração, da liberdade de reunião e de imprensa etc. O Poder Soviético é o primeiro no mundo (falando rigorosamente, o segundo, porque a Comuna de Paris começou a fazer o mesmo) que chama as massas, precisamente as massas exploradas, à administração. Mil barreiras fecham às massas trabalhadoras a participação no parlamento burguês (que nunca resolve as questões mais importantes na democracia burguesa: estas são resolvidas pela Bolsa e pelos bancos), e os operários sabem e sentem, vêem e percebem perfeitamente que o parlamento burguês é uma instituição alheia, um instrumento de opressão dos proletários pela burguesia, uma instituição de uma classe hostil, da minoria exploradora.

Os Sovietes são a organização direta das próprias massas trabalhadoras e exploradas, às quais facilita a possibilidade de organizarem elas próprias o Estado e de o administrarem de todas as maneiras possíveis. Precisamente a vanguarda dos trabalhadores e dos explorados, o proletariado das cidades, tem neste sentido a vantagem de ser o mais unido pelas grandes empresas; para eles é mais fácil que a quaisquer outros eleger e controlar os eleitos. A organização soviética facilita automaticamente a unificação de todos os trabalhadores e explorados em torno da sua vanguarda, o proletariado. O velho aparelho burguês — o funcionalismo, os privilégios da riqueza, da instrução burguesa, das relações etc., estes privilégios de fato são tanto mais variados quanto mais desenvolvida está a democracia burguesa — tudo isso desaparece com a organização soviética. A liberdade de imprensa deixa de ser uma hipocrisia, pois se expropriam à burguesia as tipografias e o papel. O mesmo acontece com os melhores edifícios, os palácios, palacetes, casas senhoriais etc. O Poder Soviético retirou imediatamente aos exploradores milhares e milhares destes melhores edifícios, tornando assim um milhão de vezes mais “democrático” o direito de reunião para as massas, esse direito de reunião sem o qual a democracia é um engano. As eleições indiretas dos Sovietes não locais facilitam os congressos dos Sovietes, tornam todo o aparelho mais barato, mais ágil, mais acessível aos operários e aos camponeses num período em que a vida ferve e é necessário poder atuar com especial rapidez para revogar o seu deputado local ou enviá-lo ao congresso geral dos Sovietes.

A democracia proletária é um milhão de vezes mais democrática que qualquer democracia burguesa. O Poder Soviético é um milhão de vezes mais democrático que a mais democrática república burguesa.

Para não notar isto é preciso ser um servidor consciente da burguesia ou um homem totalmente morto politicamente, que não vê a vida viva por trás dos poeirentos livros burgueses, impregnado até à medula de preconceitos democrático-burgueses, pelo que se tornou objetivamente um servidor da burguesia.

Para não perceber isto é preciso ser um homem incapaz de colocar a questão do ponto de vista das classes oprimidas: existe algum país no mundo, entre os países burgueses mais democráticos, onde o operário médio, da massa, o assalariado agrícola médio, da massa, ou semi-proletário do campo em geral (isto é, o representante da massa oprimida, da imensa maioria da população) goze, mesmo aproximadamente, da liberdade de realizar as suas reuniões nos melhores edifícios, da liberdade de ter as maiores tipografias e as melhores reservas de papel para expressar as suas ideias e para defender os seus interesses, da liberdade de enviar precisamente homens da sua classe para governar e “organizar” o Estado, como acontece na Rússia Soviética?

Seria ridículo supor que o senhor Kautsky encontre em qualquer país um em mil operários ou assalariados agrícolas informados que duvidasse da resposta a esta pergunta. Instintivamente, ouvindo fragmentos de admissões da verdade através dos jornais burgueses, os operários de todo o mundo simpatizam com a República Soviética porque veem nela a democracia proletária, a democracia para os pobres, e não uma democracia para os ricos, como na realidade é toda a democracia burguesa, mesmo a melhor.

Somos governados (e o nosso Estado é “organizado”) por funcionários burgueses, parlamentares burgueses, juízes burgueses. Esta é uma verdade simples, evidente, indiscutível, conhecida por experiência própria, sentida e percebida diariamente por dezenas e centenas de milhões de homens das classes oprimidas de todos os países burgueses, incluindo os mais democráticos.

Mas na Rússia quebramos completamente o aparelho burocrático, não deixamos dele pedra sobre pedra, afastamos todos os velhos juízes, dissolvemos o parlamento burguês e demos precisamente aos operários e aos camponeses uma representação muito mais acessível, os seus Sovietes substituíram os funcionários, ou os seus Sovietes foram colocados acima dos funcionários, os seus Sovietes tornaram eletivos os juízes. Este simples fato basta para que todas as classes oprimidas reconheçam que o Poder Soviético, isto é, esta forma da ditadura do proletariado, é um milhão de vezes mais democrática que a mais democrática república burguesa.

Kautsky não compreende esta verdade, compreensível e evidente para qualquer operário, porque “esqueceu”, “desacostumou-se” de colocar a questão: democracia para que classe? Ele raciocina do ponto de vista da democracia “pura” (isto é, sem classes? ou acima das classes?). Argumenta como Shylock10: “uma libra de carne” e nada mais. Igualdade de todos os cidadãos — senão não há democracia.

Devemos perguntar ao douto Kautsky, ao “marxista” e “socialista” Kautsky: pode haver igualdade entre o explorado e o explorador?

É monstruoso, é inacreditável que tenhamos de fazer esta pergunta ao discutir um livro do chefe ideológico da Segunda Internacional. Mas, “atrelado ao carro, não te queixes da carga“. Nos propusemos a escrever sobre Kautsky — é preciso explicar a este douto homem por que não pode haver igualdade entre o explorador e o explorado.

Retirado de “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky”, escrito em novembro de 1918.

Fonte: marxists.org

Notas:

1Ver Friedrich Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. In Karl Marx/Friedrich Engels, Werke, Bd. 21, S. 167.

2 Karl Marx/Friedrich Engels, Werke, Bd. 34, S. 129.

3 Karl Marx/Friedrich Engels, Werke, Bd. 17, S. 625.

4 Karl Marx/Friedrich Engels, Werke, Bd. 21, S. 168.

5 Karl Marx/Friedrich Engels, Werke, Bd. 17, S. 339, 340.

6 Whigs Tories: partidos políticos de Inglaterra, constituídos nos anos 1870-1880, no século 17. O partido dos whigs exprimia os interesses dos meios financeiros e da burguesia mercantil, assim como de uma parte da aristocracia aburguesada. Os whigs originaram o partido liberal. Os tories representavam os grandes proprietários rurais e o alto clero anglicano; defendiam as tradições do passado feudal e lutavam contra as reivindicações liberais e progressistas. Mais tarde os tories deram origem ao partido conservador. Os whigs e os tories sucediam-se no poder.

7 Lenin faz alusão ao processo provocatório organizado em 1894 pelos círculos monárquicos reacionários da clique militar francesa contra o judeu Dreyfus, oficial do Estado-Maior General francês, falsamente acusado de espionagem e alta traição. O tribunal militar condenou Dreyfus à prisão perpétua. A condenação de Dreyfus foi aproveitada pelos círculos reacionários da França para fomentar o antissemitismo e desencadear uma ofensiva contra o regime republicano e as liberdades democráticas. O caso Dreyfus adquiriu um carácter nitidamente político e cindiu o país em dois campos: republicanos e democratas, por um lado, e o bloco de monárquicos, clericais, antissemitas e nacionalistas, por outro. Em 1899, sob a pressão da opinião pública, Dreyfus foi indultado e em 1906 completamente reabilitado e reintegrado no exército.

8 Trata-se da repressão sangrenta pelos ingleses da insurreição irlandesa de 1916, que tinha por objetivo a libertação do país da dominação britânica. Ulster: parte norte-oriental da Irlanda, cuja população é maioritariamente inglesa. Tropas do Ulster participaram juntamente com tropas inglesas na repressão da insurreição do povo irlandês.

9Duma de Estado: instituição representativa que o governo czarista se viu obrigado a convocar em consequência dos acontecimentos revolucionários de 1905. Formalmente, a Duma de Estado era um órgão legislativo, mas de fato não tinha poder efetivo algum. As eleições para a Duma de Estado não eram nem diretas, nem iguais, nem gerais. Os direitos eleitorais das classes trabalhadoras, bem como das nacionalidades não russas que habitavam na Rússia, eram consideravelmente restringidos. Uma grande parte dos operários e camponeses era totalmente privada de direitos eleitorais. A primeira Duma de Estado (Abril – Julho de 1906) e a segunda Duma do Estado (Fevereiro—Junho de 1907) foram dissolvidas pelo governo tsarista. Depois de efetuar em 3 de Junho de 1907 um golpe de Estado, o governo tsarista promulgou uma nova lei eleitoral que limitava ainda mais os direitos dos operários, dos camponeses e da pequena burguesia urbana, assegurando o domínio total da aliança reacionária dos latifundiários e dos grandes capitalistas na terceira (1907-1912) e na quarta (1912-1917) Dumas de Estado.

10 Shylock: personagem da comédia de Willian Shakespeare em O Mercador de Veneza. Insensível e cruel usurário que exigia implacavelmente, de acordo com as condições da letra de câmbio, que se cortasse ao seu devedor insolvente uma libra de carne.

RETOMO PARA CONCLUIR.

Já disse acima que os argumentos de Lenin foram superados pelo tempo e pela história. Se há verdade nos fatos que narra sobre o capitalismo, suas previsões sobre o socialismo soviético (e demais experiências do socialismo real) se mostraram equivocadas, para dizer o mínimo.

O “caldo de cultura” que emerge do texto de Lenin me fez recordar da segunda parte de um artigo publicado nesse Blog no início de 2014, que faz uma boa síntese do que tratamos aqui:

“Uma desculpa recorrente da esquerda é que a democracia capitalista tem participes privilegiados da ordem social com acesso privilegiado ao exercício do poder, sujeitando a maioria às suas decisões, o que distorce e inviabiliza a democracia.

Isto é apenas o insidioso autoritarismo colocando seus ovos.

A ideia de que não temos uma verdadeira democracia porque temos injustiças e “participes privilegiados da ordem social” é uma armadilha retórica que traz subjacente a conclusão que não temos uma democracia, mas sim uma ditadura, o que nos leva de volta ao velho papo da esquerda de que minha ditadura é melhor que a sua.

A democracia é, por definição, uma obra em constante processo de inclusão de demandas, inclusive demandas sociais de origem socialista. Isto ocorre porque é da essência da democracia ser plural no que tange a seus atores, mesmo que de forma assimétrica. Até neste período relativamente curto da democracia brasileira, pós ditadura militar, é inegável que houve avanços na conquista de direitos por maiorias e minorias. Isto não quer dizer que está bom. Quer dizer apenas que a democracia, do ponto de vista legal e prático, traz nela o direito de reivindicar, de protestar, de exigir mudanças, de alternância de poder – tudo isto sem ruptura institucional e com a maioria vencedora tendo que respeitar os direitos das minorias derrotadas.

É preciso melhorar? Evidentemente. Temos uma verdadeira democracia? Por enquanto, sim. Mas se a realidade comprovável da democracia é alguma injustiça, a realidade comprovável de governos do socialismo real é a ausência de liberdade e injustiça bem distribuída.

No socialismo não existe pluralidade. Não existe direito de minorias. Não existe sequer direito. Onde ocorreu, vigora a restrição de liberdade em suas diversas formas, do direito de opinião ao direito de ir e vir.

Democracia é, na prática, sinônimo de democracia liberal, pois é a única que existe, que pode ser estudada, criticada, melhorada. É a baliza, a referência pela qual podemos estabelecer parâmetros de avaliação.

Já a “democracia socialista” é uma espécie de saci Pererê da ciência política: simpática, cultuada, tem muitos fãs, mas não passa de folclore”.