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Temos mais uma oportunidade bem didática para se compreender o que venho afirmando nesse espaço desde que o veneno do “nós contra eles” virou uma pandemia iliberal: sem aprender a reconhecer o que é e o que não é democrático, nossa tragédia eleitoral não serve nem como recurso educativo.

Nessa altura dos acontecimentos já não há dúvida de que Bolsonaro trafega entre a psicopatia, a ignorância orgulhosa e sonhos autoritários. Só não deu o bote porque o sistema de pesos e contrapesos de nossa democracia vem funcionando, o que inclui a imprensa livre e as pressões da sociedade civil organizada.

No entanto, seguimos com muita gente sem compreender ou reconhecer o risco iliberal que o PT representa. Exemplos dessa dificuldade cognitiva não faltam.

Recentemente, dia 11 de julho, o jornal O Globo publicou um panfleto eleitoral em forma de artigo assinado pelo colunista Ascânio Seleme com o título ‘É hora de perdoar o PT’. O argumento central é que “O ódio dirigido ao partido não faz mais sentido e precisa ser reconsiderado se o país quiser mesmo seguir o seu destino de nação soberana, democrática e tolerante”.

Seus argumentos não diferem em essência de artigo pulicado na Folha, dia 24 de Abril, assinado por nomes importantes das universidades brasileiras.

Nos dois casos, querem usar o desastre Bolsonaro para lavar os pecados do PT.

É a velha tática de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. É o que querem que você acredite, como acreditou o carneirinho no meio do rio quando os jacarés espantaram as piranhas.

Sejamos claros uma vez mais: democracia é liberal ou não é democracia. Quem sabota a democracia liberal e cultiva ditadores, sejam de direita ou de esquerda, representa risco real às liberdades e direitos individuais que estão no cerne do liberalismo e da democracia.

O projeto de poder do PT é exatamente isso: corroer por dentro a democracia liberal até mudar sua natureza.

Isso estava claro no Programa de Governo apresentado pelo PT nas últimas eleições, esteve claro em diversas ações e omissões do partido e suas lideranças durante o período que ocuparam a presidência e está novamente claro na carta de Lula celebrando os 30 anos do Foro de São Paulo.

Reproduzo abaixo a introdução que recebeu do Instituto Lula e a íntegra da carta:

 

“Em carta enviada ao Foro de São Paulo por ocasião da comemoração dos 30 anos de fundação da organização política latino-americana, o ex-presidente Lula lembrou o cenário político da América Latina trinta anos atrás e as mudanças ocorridas nessas últimas três décadas.

O ex-presidente lembrou da importante participação do já falecido Marco Aurélio Garcia na construção do Foro. “O sucesso do Foro de São Paulo deve-se à dedicação de muitas companheiras e companheiros, mas gostaria de prestar uma homenagem especial ao companheiro Marco Aurélio Garcia que, não está mais entre nós. MAG foi um importante formulador político da esquerda latino-americana, além de ter sido secretário de relações internacionais do PT e Secretário Executivo do Foro, função que conduziu com muita competência e dinamismo”, escreveu.

No documento, Lula também faz um alerta sobre o crescimento da extrema direita, a ameaça da pandemia do coronavírus e a radicalização dos ajustes neoliberais da economia e das políticas sociais no continente.

Leia abaixo a íntegra da carta:

Queridas companheiras e queridos companheiros.

Trinta anos atrás, a América Latina estava dando os últimos passos para sair das ditaduras militares que oprimiram nossos países por décadas ao mesmo tempo em que assistíamos a uma grande transformação do sistema mundial. Por um lado, o fim do socialismo real na União Soviética e no Leste Europeu e por outro a ascensão de uma nova doutrina econômica de acumulação de capital, o neoliberalismo.

Vínhamos também de alguns reveses políticos como nas eleições presidenciais na Nicarágua e no Brasil. Neste último, apesar do bom resultado alcançado pelo Partido dos Trabalhadores, o vitorioso foi um defensor do neoliberalismo.

Numa conversa que tive com Fidel na época, coincidimos que seria importante analisar esta nova conjuntura e seus impactos para a América Latina e o Caribe e decidimos que o PT poderia convocar um encontro de partidos e de movimentos políticos de nossa região para discutir este tema e as iniciativas que deveríamos adotar. Para nós, foi muito oportuno, pois o PT acabara de sair de seu 7° Encontro Nacional onde formulou sua posição sobre o modelo de socialismo que defenderíamos e que seria radicalmente democrático, pois do contrário não seria socialista.

Porém, não imaginávamos inicialmente que esse encontro de partidos e movimentos chegasse onde chegou, tornando-se um foro permanente e até uma referência para partidos de esquerda e progressista de todo o mundo, além de sua contribuição para promover mudanças de governos e políticas no continente a partir de 1998.

O sucesso do Foro de São Paulo deve-se à dedicação de muitas companheiras e companheiros, mas gostaria de prestar uma homenagem especial ao companheiro Marco Aurélio Garcia que, não está mais entre nós. MAG foi um importante formulador político da esquerda latino-americana, além de ter sido secretário de relações internacionais do PT e Secretário Executivo do Foro, função que conduziu com muita competência e dinamismo.

Após trinta anos de existência, o Foro enfrenta novos desafios diante do crescimento da extrema direita no continente, da pandemia do Corona Vírus e do abandono em que nosso povo se encontra devido à radicalização dos ajustes neoliberais da economia e das políticas sociais. Mais do que nunca é o momento de defendermos e recuperarmos a democracia em nossos países, bem como reivindicar o papel do Estado na defesa das pessoas e não do mercado como está ocorrendo. Este debate estratégico cabe ao Foro de São Paulo implementar com muito empenho.

Companheiras e companheiros, parabéns pelo trigésimo aniversário e viva o Foro de São Paulo e seus membros.

Luiz Inácio Lula da Silva

 

RETOMO PARA CONCLUIR

 

O PT e seus articulistas são hábeis em vender gato por lebre, ou em chamar semáforo de liquidificador como se fizesse sentido.

Na carta, Lula festeja o fim das ditaduras militares no continente ao mesmo tempo em que lamenta o revés da esquerda na ditadura militar da Nicarágua e celebra a criação do Foro de São Paulo ao lado de outro ditador militar, Fidel Castro.

Ou seja, o problema não é ser ditadura ou ser militar. O problema, para Lula, o PT e seus satélites, é ser de direita.

Assim, quando diz que o PT decidiu defender um “modelo de socialismo radicalmente democrático, pois do contrário não seria socialista”, estamos diante de um jogo de palavras que se excluem mutuamente.

Democracia sem pluripartidarismo, sem eleições periódicas e livres, sem poderes independentes atuando no sistema de pesos e contrapesos, sem liberdade individual, (inclusive para empreender ou disputar o poder), sem direitos civis e sem imprensa livre pode ser radicalmente socialista, mas jamais radicalmente democrática.

A carta vai além e reconhece que o Foro de São Paulo não é apenas um clube de amigos que se reúne para celebrar utopias. O papel no jogo de poder latino-americano fica inegável quando diz que contribuiu parapromover mudanças de governos e políticas no continente a partir de 1998”.

Assim, ao fazer eco a seus militantes na academia e imprensa para “defender e recuperar a democracia”, estamos diante de mais uma prestidigitação semântica e intelectual. Observe que não há na carta ou em sua introdução, qualquer crítica às ditaduras na Venezuela, Nicarágua e Cuba. Aliás, esses parceiros naturais do PT no Foro de São Paulo sabem perfeitamente que a palavra “democracia”, para eles, sempre que possível, é sinônimo de hegemonia e partido único.

Quer sair desse labirinto iliberal em que estamos? Eu também.

O primeiro passo é aprender que nem Bolsonaro nem Lula e seus fiéis representam alternativas democráticas.

Temos que construir essa alternativa.