China desmente Piketty

Os 70 anos da revolução comunista na China são uma excelente oportunidade para desfazer mitos. Vamos tratar aqui de três.

O primeiro mito desfeito é o da superioridade da economia planificada (o estado patrão decide o que produzir, em que quantidade e por que preço vender) versus a economia capitalista (em que múltiplos agentes econômicos decidem o que produzir, em que quantidade e qual o preço de venda baseados na famosa lei da oferta e procura).

Enquanto insistiu na Economia Planificada, a China permaneceu miserável, com mais de 90% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. Este processo foi interrompido em 1978 quando morre Mao Tsé Tung  e assume Deng Xiaoping.

Quando começou a permitir a iniciativa privada (ainda que vigiada e controlada pelo estado), a produção de riqueza se expandiu e foi possível, em 37 anos, reduzir de mais de 90% para menos de 2% a população que vivia abaixo da linha da pobreza.

O segundo mito é que o inimigo do socialismo seria o capitalismo. Como a China vem demonstrando, o capitalismo pode se dar muito bem no socialismo, com sua ausência de legislação ambiental e de direitos trabalhistas, salários controlados pelo estado, ausência de sindicatos e/ou direito de greve (tanto que o PT, via BNDES, tentou implantar uma “China Tropical” em Cuba, em torno do Porto de Mariel, com apoio da FIESP).

O verdadeiro inimigo do socialismo é a democracia liberal, com seus poderes independentes, multipartidarismo, eleições livres e periódicas, alternância de poder, direitos civis e individuais, liberdade de imprensa etc.

A China, com seu socialismo capitalista, transformou-se em uma grande potência econômica, mas segue sendo uma ditadura, bastante rigorosa por sinal.

O terceiro grande mito que cai por terra é aquele que estrutura a obra de Thomas Piketty: a desigualdade de renda como o mal encarnado.

Já apontei este fato em outros artigos, mas a China nos dá, com seus dois sistemas econômicos distintos que ocorreram sob um mesmo sistema político, um modelo empírico difícil de ser negado.

Ali podemos observar que (de forma semelhante ao que ocorreu nas demais experiências capitalistas em todo o mundo) houve um expressivo aumento de renda para a base da pirâmide social, simultaneamente ao aumento da desigualdade entre o topo e a base da pirâmide.

Ao remover da equação a expressiva melhora de renda da base da pirâmide social e focar no aumento da desigualdade, Thomas Piketty usa de um truque semântico e estatístico (que o instituto OXFAM também adota) para atacar o modelo que gerou riqueza e espalhou benefícios reais nas áreas em que foi prevalente, o que dá renovada razão à Margaret Thatcher em sua famosa resposta a um deputado no parlamento britânico: “a esquerda prefere que todos fiquem mais pobres, se a desigualdade diminuir, do que ver todos ficarem mais ricos se a desigualdade de renda aumentar”.

A desigualdade que deve ser combatida é a de oportunidades, o que se faz concentrando os esforços do Estado em educação de qualidade acessível a todos, saneamento básico, saúde e segurança alimentar. Os governos que melhor fazem isto são os socialdemocratas (que são todos democracias liberais). Podemos dizer que a socialdemocracia é, simultaneamente, o grau máximo de distribuição dos benefícios do capitalismo (o que inclui a liberdade individual) e o limite entre a democracia e o autoritarismo.

Mas voltemos à China e seu socialismo capitalista.

É provável que este país venha a ser a maior potência econômica e militar do mundo nos próximos 30 anos, em função da união entre um governo ditatorial, a adoção de modelos capitalistas de produção e uma grande miopia das democracias ocidentais que aceitaram como cordeiros transferir empregos e renda para lá.

Para mim, não parece uma boa perspectiva. De qualquer modo demonstra de forma didática o erro sistêmico de Piketty.

 

P.S: Não devemos esquecer também algumas consequências humanitárias da ditadura Chinesa.

O chamado “Grande Salto Adiante” (1958-62), que interviu na economia agrária do país  provocou uma escassez de alimentos que levou à morte ao menos 10 milhões de pessoas (outras fontes falam em até 45 milhões de mortos). Sob o véu do autoritarismo, estes números nunca puderam ser auditados.

Depois foi a Revolução Cultural (1966-76) que levou a milhões de mortos e paralisou a economia nacional, quando Mao inicia uma nova onda de perseguição a todos suspeitos de serem partidários do “capitalismo”.

Hoje a China segue como um estado policial e ganhou muita eficiência ao espalhar uma rede sem precedentes de câmaras interligadas a sistemas de reconhecimento facial. É a realização do pesadelo do Big Brother, com garras afiadas.