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A ciência política é rica em teses que moldam a realidade a seus parâmetros, o que é ao mesmo tempo uma crítica ao que é produzido na área e a constatação da grande dificuldade que seus autores (ou qualquer um) têm em conseguir apreender de forma sistêmica o conjunto de fatos e gatilhos que desencadeiam movimentos de massa e suas mudanças de direção.

Neste blog mesmo há tentativas interessantes. Uma delas, de fevereiro de 2017, se chama DEMOCRACIA DESACREDITADA: O PERIGOSO FLERTE COM O AUTORITARISMO  e alertava para o risco Bolsonaro quando ainda havia tempo para construir uma alternativa democrática. Outro, de março de 2019, chamado O PÊNDULO E O OBSCURANTISMO, busca no passado fatos que trazem esperança para o futuro.

Ainda que o título acima permita a interpretação de que a democracia é indefensável, como gostam de afirmar alguns de seus antagonistas, ficará claro que o sentido é o oposto: a democracia precisa ser defendida de seus algozes.

O artigo que reproduzo abaixo tem a costura do sempre interessante Augusto de Franco sob texto de Dani Rodrik,  professor de economia política internacional da Faculdade de Governo John F. Kennedy, da Universidade de Harvard. O foco não está no Brasil, mas em como o Brasil se insere neste movimento internacional.

É um tema essencial para quem compreende o valor da democracia liberal, aquela mesma democracia à qual Slavoj Zizek, um de seus críticos mais ativos, em entrevista recente parece capitular: “As democracias são homogêneas e funcionam muito bem; todas as lutas se dão compartilhando um pano de fundo de valores e procedimentos.  (…) “continuamos oferecendo ao mundo aquele que talvez seja o grande modelo de bem-estar relativo, um único modelo que combina bem-estar e liberdade, o melhor até agora na história mundial (…) O fantástico da nossa tradição democrática é que a imperfeição está dentro do sistema, faz parte da capacidade da nossa democracia de ser crítica consigo mesma. É um sistema único, que inclui a autocrítica.”

Mas a democracia também tem fraquezas, a principal delas é permitir que grupos legitimamente eleitos a ataquem por dentro, enfraquecendo ou destruindo seus fundamentos, pelos mais variados motivos, à direita e à esquerda.

O artigo abaixo  vem somar-se ao esforço de seus defensores em compreender o fenômeno e contribuir na luta contra as autocracias disfarçadas de democracias.

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SOBRE AS CAUSAS DA ASCENSÃO DO POPULISMO-AUTORITÁRIO

por Augusto de Franco15/07/2019

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O que apavorou e açulou os reacionários não foi a democracia como modo político de administração do Estado e sim a possibilidade da democracia se instalar na base da sociedade, como modo de vida e convivência social, em virtude da emergência de uma sociedade em rede.

 

Leiam o artigo de Dani Rodrik, publicado no Valor Econômico da última sexta-feira. Não acho que as explicações para a ascensão do populismo possam ser divididas em causas culturais e econômicas, nem em uma combinação de ambas – ainda que ambas compareçam como variáveis importantes para analisar o fenômeno. A “causa” (sistêmica, se se pode falar assim) é uma reação da sociedade hierárquica à emergência de uma sociedade-em-rede. Depois volto com um comentário.

 

O QUE IMPULSIONA O POPULISMO?

Dani Rodrik, Valor Econômico (12/07/2019)

Em última instância, a análise precisa das causas que estão por trás da ascensão do populismo autoritário pode ser menos importante do que as lições de política pública a serem extraídas dela. Há pouca discussão nessa esfera

Será a cultura ou a economia? Essa pergunta molda boa parte da discussão sobre o populismo contemporâneo. Será que a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas, o Brexit e a ascensão dos partidos políticos nativistas de direita na Europa continental são consequência do aprofundamento da fissura de valores entre conservadores sociais e os liberais sociais, com a canalização, pelos primeiros, de seu apoio a políticos xenófobos, etnonacionalistas, autoritários? Ou será que esses desdobramentos são reflexo da angústia e da insegurança econômica de muitos eleitores, alimentadas pelas crises financeiras, a austeridade e a globalização?

Muita coisa depende da resposta. Se o populismo autoritário tiver suas raízes na economia, a solução adequada é um populismo de outro gênero – voltado para a injustiça econômica e para a inclusão, mas pluralista em sua política e não necessariamente prejudicial à democracia. Se suas causas estiverem na cultura e nos valores, no entanto, o número de alternativas será menor. A democracia liberal pode estar condenada por sua própria dinâmica e contradições internas.

Algumas versões do argumento cultural podem ser descartadas de saída. Por exemplo, muitos comentaristas dos Estados Unidos se concentraram nos apelos de Trump ao racismo. Mas o racismo, de uma forma ou de outra, é característica antiga da sociedade americana e não pode nos revelar, por si só, por que seu manejo por Trump teve tamanho sucesso. Uma constante não consegue explicar uma variação.

Outras explicações são mais sofisticadas. A versão mais perfeita e ambiciosa do argumento da reação adversa cultural foi apresentada por Pippa Norris, minha colega na Escola de Governo John F. Kennedy de Harvard, e por Ronald Inglehart, da Universidade de Michigan. Em livro recente, eles argumentam que o populismo autoritário é consequência de uma guinada geracional de valores de longo prazo.

Na medida em que as gerações mais jovens ficaram mais ricas, mais escolarizadas e mais seguras, adotaram valores “pós-materialistas” que enfatizam o secularismo, a autonomia pessoal e a diversidade, em detrimento da religiosidade, das estruturas familiares tradicionais e da conformidade. As gerações mais velhas foram isoladas – tornando-se, na prática, “estrangeiros em seu próprio país”.

Will Wilkinson, do instituto de análise e pesquisa Niskanen Center, recentemente defendeu argumento semelhante, concentrando-se no papel da urbanização em especial. Wilkinson argumenta que a urbanização é um processo de triagem espacial que divide a sociedade com base não apenas no sucesso econômico como também em valores culturais. Ela cria áreas prósperas, multiculturais, de alta densidade onde predominam os valores socialmente liberais. E deixa para trás áreas rurais e centros urbanos de menor porte que são cada vez mais homogêneos em termos de conservadorismo social e de aversão à diversidade.

Do outro lado da discussão, economistas geraram uma série de estudos que vinculam o apoio político dos populistas aos choques econômicos. No que talvez se constitua na mais famosa entre essas análises, David Autor, David Dorn, Gordon Hanson e Kaveh Majlesi – do MIT, Universidade de Zurique, Universidade da Califórnia, campus de San Diego e Universidade Lund, respectivamente – mostraram que os votos em favor de Trump na eleição presidencial de 2016 mantiveram forte correlação com a magnitude dos choques comerciais adversos com a China.

Na verdade, de acordo com Dorn, Hanson e Majlesi, o choque comercial com a China pode ter sido responsável pela vitória eleitoral de Trump em 2016. Se a penetração dos produtos importados tivesse sido 50% menor do que a taxa efetiva no período 2002-2014, um candidato presidencial democrata teria vencido nos Estados decisivos de Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, levando Hillary Clinton à vitória nas eleições.

Detectou-se que a maior penetração dos produtos importados da China teve influência sobre o apoio ao Brexit e sobre a ascensão dos partidos de extrema direita na Europa continental.

Os argumentos cultural e econômico podem parecer estar em tensão – se não em contradição pura e simples – entre si. Mas, lendo nas entrelinhas, pode-se discernir um tipo de convergência. Pelo fato de as tendências culturais – como o pós-materialismo e os valores promovidos pela urbanização – desenvolverem-se no longo prazo -, não respondem totalmente pelo momento em que ocorreu a reação adversa populista. (Norris e Inglehart postulam um ponto de virada em que grupos socialmente conservadores se tornaram uma minoria mas ainda tinham poder politico desproporcional.) E os que defendem a primazia das explicações culturais não descartam, na verdade, o papel dos choques econômicos. Esses choques, sustentam eles, agravaram e exacerbaram as divisões culturais, dando aos populistas autoritários o impulso a mais de que precisavam.

Norris e Inglehart argumentam que “as condições econômicas de médio prazo e o crescimento da diversidade social” aceleraram a reação adversa cultural, e demonstram que fatores econômicos tiveram um papel no apoio aos partidos populistas. No mesmo sentido, Wilkinson enfatiza que a “angústia racial” e a “angústia econômica” não são hipóteses excludentes, porque os choques econômicos intensificaram grandemente a triagem cultural comandada pela urbanização. Por sua vez, os deterministas econômicos deveriam reconhecer que fatores como o choque comercial com a China não ocorre em um vácuo, e sim no contexto de divisões pré-existentes da sociedade.

Em última instância, a análise precisa das causas que estão por trás da ascensão do populismo autoritário pode ser menos importante do que as lições de política pública a serem extraídas dela. Há pouca discussão nessa esfera. As medidas corretivas econômicas da desigualdade e da insegurança são primordiais.

(Tradução de Rachel Warszawski)

Dani Rodrik, professor de economia política internacional da Faculdade de Governo John F. Kennedy, da Universidade de Harvard, é autor de “Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy”.

 

MEU COMENTÁRIO (de Augusto de Franco)

O Estado-nação se debate (naquilo que tem de hierárquico e autocrático, não de distribuído e democrático) para não ser desabilitado como principal forma (e modo) de governança. E essa tentativa de se prorrogar se manifesta por meio dos setores da sociedade que resistem à desconstituição de padrões de organização e de modos de regulação aos quais se acostumaram, que os constituem como tais e dão sentido às suas vidas.

Tais setores não são apenas (nem principalmente) os chamados conservadores e sim os reacionários, os que querem voltar para algum lugar do passado onde – atenção aqui! – a conectividade era menos horizontal, a interatividade era menor e, portanto, não havia a possibilidade da democracia se exercer como modo de vida e convivência social (além de modo político de administração do Estado). Sim, eles (os populistas-autoritários) não querem conservar as instituições da democracia representativa ou o Estado democrático de direito. Eles querem mudar essas instituições. Eles querem fazer uma revolução para trás (e por isso não são propriamente conservadores e sim reacionários). Se pudessem, gostariam de voltar não para o século passado e sim para o século 17, antes que os parlamentares ingleses tivessem a ideia de proclamar seus Bill of Rights (reinventando a democracia).

Portanto, a chave interpretativa não pode ser encontrada somente na cultura, nem apenas na economia, mas deve ser buscada na política. A recessão democrática – um fenômeno político – começou há mais de uma década e isso não pode ser ignorado nas análises de supostas causas para o que está acontecendo hoje no mundo.

Os analistas culturalistas (na verdade, em grande parte, historicistas) e economicistas querem sempre encontrar uma causa para um fenômeno político que não está na política. É como se achassem que a política é um epifenômeno, que não subsiste por si mesmo, não tem estatuto próprio e, assim, não passa de um reflexo do que estaria acontecendo em outro lugar. Isso ocorre, a meu ver, porque não descobriram ainda que existe um condicionamento recíproco entre padrões de organização (sociais) e modos de regulação (políticos). A política é um tipo de interação e não a consequência de interações de outro tipo, extra-políticas.

 

Legenda da colagem de fotos:

Alguns dos principais líderes populistas-autoritários, na Europa (incluindo a Turquia) e nas Américas (em ordem alfabética): Anders Vistisen, Andrej Babis, Donald Trump, Geert Wilders, Gyöngyösi Márton, Heinz-Christian Strache, Jaroslaw Kaczynski, Jair Bolsonaro, Jörg Meuthen, Marine Le Pen, Matteo Salvini, Nigel Farage, Olavo de Carvalho, Olli Kotro, Recep Erdogan, Santiago Abascal, Steve Bannon, Tomio Okamura, Viktor Orbán, Vlaams Belang. (Não estão incluídos aqui os euro-asiáticos como Vladimir Putin e os asiáticos, como Rodrigo Duterte).

Para saber mais: http://democracia.org.br