orgulho da própria ignorância

A estupidez e a incultura encontram no Presidente Bolsonaro um representante difícil de ser superado. Nem o exótico e folclórico Paes de Andrade, o “Presidente Mombaça”, lhe faz sombra. Seu desprezo pela arte, pela cultura, pela civilização (esta última no sentido do construto social erigido em torno da democracia liberal) é continuamente reafirmado. Lhe falta até mesmo aquele mínimo de bons modos que os pais deveriam transmitir aos filhos.

Diante da morte de João Gilberto, saiu-se com a inacreditável frase: “Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos aos familiares, tá ok?”

Se não viu nada de errado nesta manifestação, sinto muito. Por você e por todos que convivem com você.

Reproduzo abaixo artigo de Nelson Motta sobre a morte de João Gilberto e a ignorância orgulhosa de Bolsonaro e seus seguidores. Minha única discordância com o que escreveu é a inclusão de Anitta em uma lista em que o critério deveria ser qualidade, mas isto já é outra discussão.

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PESSOA CONHECIDA É O QUEIROZ, TÁ OK?

Poucos brasileiros fizeram mais pelo Brasil do que João Gilberto

Por Nelson Motta

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Por que eles odeiam tanto a arte e os artistas brasileiros?

Não, não pode ser só porque os artistas, maciçamente, disseram “ele não” na campanha eleitoral. Numa democracia, a expressão e o voto são livres, e o presidente governa para todos.

A nossa música popular é das melhores do mundo, nosso cinema acaba de ser premiado no Festival de Cannes, Chico Buarque ganhou o Prêmio Camões, o maior da literatura em língua portuguesa, Anitta é um espetacular sucesso internacional, apesar de terem dito não a ele, enquanto nossos governantes nos envergonham no mundo civilizado, com gafes grosseiras e ignorância provinciana.

Se pudessem, e estão tentando, extinguiriam a arte no Brasil, que fantasiam como um bando de vagabundos, viados e piranhas que vivem às custas do Estado. É difícil mesmo fazer um juízo crítico sobre o que não se compreende. É como um jumento diante de um Picasso.

No fundo do ódio irracional há muita inveja, rancor e ressentimento dos pouco dotados de inteligência, talento e sensibilidade contra cidadãos que são amados e admirados pela população na televisão, no cinema, no teatro, nos shows, nas galerias, nos livros, que alegram e emocionam o país, que contam nossas histórias de miséria e glória, que informam e ensinam muito mais do que o Estado.

Sim, tanto nas artes como em quase tudo no mundo moderno, há muita empulhação e picaretagem, mas é nesse caldo de luxo e lixo que nasce a verdadeira arte, que existe, como disse Ferreira Gullar, “porque a vida não basta”.

Poucos brasileiros, em qualquer tempo, fizeram mais pelo Brasil do que João Gilberto, com a qualidade e originalidade de sua arte. Aos brasileiros, deu o orgulho de uma música que se espalhou pelo mundo como a imagem de um Brasil feliz, moderno e amoroso, o avesso do que vivemos hoje. Sua música nunca teve um país à sua altura.

“Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos aos familiares, tá ok?”, reagiu o presidente Jair sobre sua morte.

Conhecido é o Queiroz, tá ok? Nossos sentimentos aos familiares.

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CONVITE

Se você não teve o prazer de ouvir João Gilberto ou se ouviu mas não gostou, assista os 4 pequenos vídeos disponíveis no link abaixo. Se já conhece e gosta, assista também.

Arthur Nestrovski, compositor, violonista, crítico literário e musical, diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo nos dá uma amorosa e emocionante aula sobre a alma musical deste revolucionário delicado.

Por que João Gilberto é João Gilberto