Safatle - Bolsonaro

Safatle publicou na Folha de S. Paulo de 17 de maio o artigo IDIOTAS ÚTEIS que tem feroz simetria com outro texto publicado no mesmo dia por Bolsonaro em seu Whatsapp. Ambos partem de interpretações forçadas de fatos em si verdadeiros para deixarem no ar a ruptura institucional (leia-se: ditadura) como solução para a crise que o Brasil atravessa.

Evidentemente, seriam ditaduras com polos opostos, mas ainda assim ditaduras.

Diz Safatle: “Seu grupo (de Bolsonaro) sabe que há uma geração forjada no fogo das ruas que paulatinamente se constitui como sujeito coletivo de um processo possível de transformação radical. O desgoverno que hoje tomou de assalto o Planalto apareceu exatamente como a tentativa desesperada de impedir que tal emergência ocorra. Ela vai apenas acelerá-la.

(…) Quem esteve nas ruas entendeu que não há negociação alguma com este governo, que o sr. Bolsonaro não age como presidente, mas como chefe de gangue, com lógica e modos de chefe de gangue que procura surfar no ressentimento de seus recrutas.

O destino do Brasil era passar por uma polarização radical. Isso estava explícito desde as eleições de 2014. Um polo só havia se configurado. Agora, virá o segundo.”

Agora veja o texto endossado por Bolsonaro: “Bastaram 5 meses de um governo atípico, “sem jeito” com o congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.

(…) o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento.

(…) Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.

(…) Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.

(…) A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível.

 

Safatle continua o piromaníaco de sempre, com sua gasolina verbal e fósforos imaginários, sonhando incendiar o Brasil. Não está sozinho. Vocaliza sentimentos de um grupo menos numeroso do que gostaria, mas ainda assim influente.

Bolsonaro, não é muito diferente. Este texto que publicou remete tanto ao período Jânio Quadros e o Golpe de 64 (que sempre elogia) quanto à “democracia direta” implantada por Hugo Chávez na Venezuela, que na época recebeu apoio de nosso atual Presidente.

Os dois parecem apostar nos benefícios de um “quanto pior, melhor”. É uma ideia sádica e cínica, mas justificada pelas Utopias disruptivas que embalam seus sonhos autoritários.

O caso de Bolsonaro é muito mais grave, evidentemente. Um Presidente da República atacar frontalmente as instituições que estruturam o Estado de Direito que jurou defender é inadmissível.

De qualquer forma, como já disse em artigo publicado em março, “Bolsonaro estaria esperando o congresso inviabilizar o país para dar um novo golpe militar. Pode ser até que sonhe com isso, mas nesta equação falta um dado muito importante: está cada vez mais claro para os Generais que o Capitão não tem preparo para comandar o Brasil. Se houvesse um golpe, ele seria um dos primeiros a serem atingidos.

É melhor parar com estes delírios autoritários, fazer o máximo para não atrapalhar e respeitar da Democracia.”

Seguem os dois textos que flertam com o fim da democracia, na íntegra.

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IDIOTAS ÚTEIS

Por Vladimir Safatle

O fato será lembrado. A primeira grande ação nacional contra o governo do sr. Bolsonaro, envolvendo manifestações comparáveis ao que vimos em junho de 2013, foi feita pelos estudantes e universitários em ao menos 170 cidades.

Nada poderia ser mais explícito. Há uma juventude que, desde as ocupações de 2011 —passando por 2013, pelas ocupações dos secundaristas em 2016 e pelas várias mobilizações dois últimos dois anos—, aparece como o principal motor de revolta e descontentamento.

São anos de mobilizações constantes, de capacidade de articulação e de expressão clara de recusa às prioridades e à brutalidade do Estado brasileiro. Quando o sr. Bolsonaro evidenciou a face mais primária de sua violência, chamando-os de idiotas úteis, ele acabou por mostrar qual é o verdadeiro inimigo nº 1 de seu governo.

Seu grupo sabe que há uma geração forjada no fogo das ruas que paulatinamente se constitui como sujeito coletivo de um processo possível de transformação radical. O desgoverno que hoje tomou de assalto o Planalto apareceu exatamente como a tentativa desesperada de impedir que tal emergência ocorra. Ela vai apenas acelerá-la.

Contra a transformação, os velhos métodos estão de volta. Nos últimos dias, vimos a já previsível enxurrada de imagens fake de anarquia sexual e de balbúrdia nas escolas e universidades. Alguém deveria dar livros de Wilhelm Reich para esse pessoal ler.

Desde os anos 1930, sabemos que todo fascismo mobiliza o ressentimento daqueles que fazem de tudo para não serem afetados pela circulação da sexualidade. Como se a sexualidade livre fosse colocar o corpo social em estado de degenerescência e degradação.

Não por outra razão, os nazistas, além que criarem termos como o famoso bolchevismo cultural, criaram também o bolchevismo sexual —que este governo vai rapidamente ressuscitar. Podem apostar.

Mas, além do método afetivo via WhatsApp, há ainda o método racional. Ele consiste em baixar a voz e dizer: “Veja bem, números são números. Não há dinheiro, mas se a reforma da Previdência passar, tudo volta ao normal”.

É nessas horas que fica claro o que o governo quis dizer quando vira para a população e a chama de idiota. Porque é necessário uma certa limitação de raciocínio para acreditar em algo desta natureza.

Primeiro, ninguém mostrou número algum, cálculo algum para chegar no valor de 30% de corte nas universidades. Começou-se cortando 30% de três universidades que pretensamente estariam a produzir balbúrdia, mas quando ficou evidente que era uma pressão política contra certos reitores, o Ministério da Educação saiu-se com a generalização do corte. Como se vê, tudo com um profissionalismo impressionante.

Segundo, porque o conto de que o crescimento virá com a reforma da Previdência é tão seguro quanto aquela história de que basta o impeachment para reaquecer imediatamente a economia.

Ou de que, diminuindo impostos para empresários, eles voltariam a investir com seu espírito animal.

Você pauperiza a população, retira-lhe direitos e garantias, transfere renda para setores que preferirão o investimento seguro do rentismo, descapitaliza o Estado e depois não sabe por que a economia não cresce. Isso não funcionou em lugar algum do mundo e não funcionará aqui.

De toda forma, o jogo enfim começou. As manifestações não terminaram na 4ª feira. Elas apenas começaram, e com força.

Quem esteve nas ruas entendeu que não há negociação alguma com este governo, que o sr. Bolsonaro não age como presidente, mas como chefe de gangue, com lógica e modos de chefe de gangue que procura surfar no ressentimento de seus recrutas.

O destino do Brasil era passar por uma polarização radical. Isso estava explícito desde as eleições de 2014. Um polo só havia se configurado. Agora, virá o segundo.

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Íntegra do texto de autoria desconhecida compartilhado por Bolsonaro:

 Temos muito para agradecer a Bolsonaro.

Bastaram 5 meses de um governo atípico, “sem jeito” com o congresso e de comunicação amadora para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado de acordo com o interesse dos eleitores. Sejam eles de esquerda ou de direita.

Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal “presidencialismo de coalizão”, o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

Não só políticos, mas servidores-sindicalistas, sindicalistas de toga e grupos empresariais bem posicionados nas teias de poder. Os verdadeiros donos do orçamento. As lagostas do STF e os espumantes com quatro prêmios internacionais são só a face gourmet do nosso absolutismo orçamentário.

Todos nós sabíamos disso, mas queríamos acreditar que era só um efeito de determinado governo corrupto ou cooptado. Na próxima eleição, tudo poderia mudar. Infelizmente não era isso, não era pontual. Bolsonaro provou que o Brasil, fora desses conchavos, é ingovernável.

Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto.

Nem uma simples redução do número de ministérios pode ser feita. Corremos o risco de uma MP caducar e o Brasil ser OBRIGADO a ter 29 ministérios e voltar para a estrutura do Temer.

Isso é do interesse de quem? Qual é o propósito de o congresso ter que aprovar a estrutura do executivo, que é exclusivamente do interesse operacional deste último, além de ser promessa de campanha?

Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos. Historinha com mais de 500 anos por aqui.

Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no congresso e na justiça, apostaria que o presidente não serve para NADA, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa.

Se não negocia com o congresso, é amador e não sabe fazer política. Se negocia, sucumbiu à velha política. O que resta, se 100% dos caminhos estão errados na visão dos “ana(lfabe)listas políticos”?

A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo Bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios.

O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim.

Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas.

Era falso, FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos.

Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.

Na hipótese mais provável, o governo será desidratado até morrer de inanição, com vitória para as corporações. Que sempre venceram. Daremos adeus Moro, Mansueto e Guedes. Estão atrapalhando as corporações, não terão lugar por muito tempo.

Na pior hipótese ficamos ingovernáveis e os agentes econômicos, internos e externos, desistem do Brasil. Teremos um orçamento destruído, aumentando o desemprego, a inflação e com calotes generalizados. Perfeitamente plausível. Claramente possível.

A hipótese nuclear é uma ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível. É o Brasil sendo zerado, sem direito para ninguém e sem dinheiro para nada. Não se sabe como será reconstruído. Não é impossível, basta olhar para a Argentina e para a Venezuela. A economia destes países não é funcional. Podemos chegar lá, está longe de ser impossível.

Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem.

O Brasil está disfuncional. Como nunca antes. Bolsonaro não é culpado pela disfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou. Ele é só um óculos com grau certo, para vermos que o rei sempre esteve nu, e é horroroso.

Infelizmente o diagnóstico racional é claro: “Sell”.