rompimento da barragem de brumadinho

No 18 Brumário de Luis Bonaparte, logo na abertura do Capítulo 1, Marx escreve: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

No Brasil, a farsa promovida por uma justiça lenta e falha permite que a História se repita como tragédia mesmo.

O rompimento da barragem de Brumadinho é um exemplo lamentável e exige algumas reflexões.

Quando houve o rompimento da barragem em Mariana, escrevi: “Neste blog, desde o início, insisto na importância de chamar as coisas pelo nome que elas têm, sem eufemismos, sem truques. Não dá para ser diferente na tragédia desencadeada pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana. O que aconteceu ali está sendo chamado, majoritariamente, de acidente, mas não foi acidente, foi crime.

(…) um laudo técnico elaborado a pedido do Ministério Público de Minas Gerais, em 2013, que alertou sobre os riscos de rompimento da barragem (…) foi ignorado pela Samarco e pelos órgãos governamentais.

(…) Qualquer multa é pequena diante do crime cometido. O mínimo que o ministério público e todos nós deveríamos cobrar é a indenização substancial de todas as vítimas diretas e a recuperação real do rio e de todo o bioma atingido. É preciso cobrar a logística reversa, com recolhimento da lama tóxica e filtragem da água. É preciso identificar e contratar as melhores tecnologias e equipes nacionais e internacionais na despoluição e recuperação do bioma.

Mas isto não basta. É preciso identificar as pessoas que escolheram ignorar os laudos e responsabilizá-las civil e criminalmente. Estas pessoas estão na Samarco e nos órgãos governamentais. Todos que escolheram ignorar o laudo do Instituto Prístino devem ser processados.

Estas medidas, além de serem a melhor resposta possível à tragédia, seriam altamente educativas. Sinalizariam claramente que o “jeitinho”, a economia porca, a corrupção, podem custar muito caro.”

 

RETOMO PARA CONCLUIR

Não tenho elementos para afirmar que o rompimento da barragem de Brumadinho tenha sido resultado do mesmo modus operandi que assistimos em Mariana, mas posso fazer as seguintes indagações que me parecem necessárias:

1) Se as pessoas da Samarco e do Governo que escolheram ignorar os laudos tivessem sido condenadas civil e criminalmente, de forma rápida e exemplar, teria ou não funcionado como estímulo a maiores cuidados e investimentos na segurança das barragens?

2) Se as empresas tivessem sido rapidamente condenadas a arcar com os custos de indenização dos atingidos e recuperação do bioma, teriam aumentado ou não os cuidados e investimentos na segurança das barragens?

As respostas, nos dois casos, me parecem óbvias.

Mas como somos o país do jeitinho e da impunidade, a tragédia volta a nos assombrar.

 

Artigo de Paulo Falcão.