we need education

Há um crescente desprezo pelos chamados intelectuais. Há quem diga que já não existem. Outros, que existem mas seriam nocivos, corromperiam os jovens, os valores, a sociedade.

De certa maneira é a materialização da frase de Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

Em 2015, trinta e cinco anos depois da morte de Nelson Rodrigues, Umberto Eco também se manifestou sobre o tema e disse: “As Redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”.

No período entre uma e outra declaração, a sociedade passou da “voz mediada” para a “voz direta”.

No período da “voz mediada” as opiniões dependiam dos jornais, rádios e TVs para serem emitidas, conhecidas e debatidas (o que dava enorme poder a quem controlava os chamados “meios de comunicação” – mas funcionava como um filtro racional).

Na era da “voz direta”, qualquer um pode dizer ou reproduzir o que quiser, instantaneamente, para milhares de pessoas.

Na época da “voz mediada”, havia preocupação com a qualidade da informação publicada, tanto no aspecto da forma quanto do conteúdo, o que incluía investigar previamente se a informação era verdadeira ou falsa. Os leitores também podiam se manifestar em uma seção destinada a comentários, um espaço físico limitado que, por isso mesmo, selecionava para publicação as melhores e mais bem escritas cartas recebidas.

Na Era da “voz direta”, a maioria das pessoas nem mais se dá ao trabalho de ler o que comenta. Frequentemente leem apenas o título e já saem emitindo fortes opiniões, quase sempre sem qualquer lastro ou embasamento real.

Não se trata de fenômeno brasileiro, nem restrito à direita ou à esquerda. A ocorrência atinge a maioria dos países em que o acesso ao conteúdo disponível na internet não sofre censura e onde a opinião de uma pessoa não a exponha ao poder discricionário do Estado.

 

O MEIO É A MENSAGEM

 

Curiosamente toda esta transformação já estava contida no famoso conceito “o meio é a mensagem”, desenvolvido pelo filósofo canadense Marshall McLuhan em 1964, como síntese das diferentes formas de impacto que a mídia impressa, falada e televisiva teriam sobre o público ao comunicarem um mesmo fato.

A “internet” não apenas tende a tornar obsoletos os antigos meios de comunicação de massa como altera substancialmente a forma como o público percebe e interage com a comunicação.

Mas que outros fatores contribuíram para este aparente “emburrecimento geral” ou à ascensão dos idiotas?

Eu não seria capaz de enumerar todos, mas me arrisco indicar duas frentes de reflexão.

A primeira foi sistematizada pelo economista, crítico social, filósofo político e autor liberal conservador norte-americano Thomas Sowell no livro Os intelectuais e a sociedade.

Alguns trechos deste livro talvez sintetizem bem o espírito do tempo em que vivemos, lembrando que o próprio Thomas Sowell é um intelectual. É importante lembrar que não critica o “ser intelectual”, mas a pretensão daquele tipo de intelectual para quem somente seu próprio saber, e de quem concorda com ele, é adequado:

“(…) Aqui, neste nosso caso, “intelectuais” será entendido como uma categoria ocupacional, composta por pessoas cujas ocupações profissionais operam fundamentalmente em função de ideias – falo de escritores, acadêmicos e afins. A maioria de nós não atribui o papel de intelectuais para neurocirurgiões e engenheiro, apesar do exigente treino mental que são obrigados a trilhar. Na prática, ninguém considera intelectual mesmo o mais brilhante e bem-sucedido gênio das finanças.”

(…) Embora o tipo especial de conhecimento associado aos intelectuais seja geralmente mais valorizado e receba mais prestígio social, não é certo, de forma alguma, que seja, necessariamente, mais significativo em seus efeitos no mundo real.

(…) “George Orwell chegou a dizer que algumas ideias são tão estúpidas que apenas um intelectual poderia acreditar nelas, já que o homem comum nunca se faz tão tolo. Neste sentido, o histórico dos intelectuais do século XX foi especialmente assombroso.”

Em outras palavras, os erros em série de intelectuais, no século XX e XXI, contribuíram para esta desconfiança que lhe dedica hoje o homem comum.

Mas não houve apenas erros. Houve acertos também. E o trabalho de pensar, de contrapor ideias, de expandir continuamente a compreensão sobre as grandes questões humanas é e continuará sendo fundamental. Abandonar este enorme trabalho, relega-lo ao esquecimento, é caminhar de volta à barbárie.

E aqui chegamos à outra frente de reflexão que citei: a interpretação simplista do que deveria ser uma reflexão sofisticada, algo que pode contribuir muito com a barbárie.

Analisemos, por exemplo, um dos maiores sucessos mundiais da banda Pink Floyd: “we don’t need no education” do disco The Wall. A grande maioria dos fãs que canta o refrão a plenos pulmões parece ignorar a ironia de que todos os integrantes da banda tiveram boa educação e se conheceram na universidade. A música, originalmente uma crítica à rígida educação inglesa (não necessariamente justa), tornou-se uma bandeira contra a educação em si, este instrumento de dominação canhestro que dá sustentação a uma sociedade autoritária e prisioneira do capitalismo. O último aposto é, ao mesmo tempo uma síntese do que pensam certos grupos (que influenciaram e influenciam a banda) e uma evidente ironia com as superestruturas que Marx destaca como responsáveis pela manutenção e reprodução do capitalismo.

A ironia reside no fato de que as sociedades que mais avançaram no binômio democracia liberal e capitalismo são aquelas em que a população como um todo, ao invés do “inevitável acirramento das contradições sociais”, experimentou as maiores conquistas em termos de renda, qualidade de vida, conquista de direitos civis, saúde e educação. É também nestas (e apenas nestas sociedades) que intelectuais, músicos e jornalistas puderam (e podem) se manifestar livremente, com ou sem razão, sem medo de serem presos ou mortos.

Mas voltemos ao anti-intelectualismo. Não tenha dúvida: tal postura é um erro. Não se combate ideias com ignorância, mas com ideias melhores. Aliás, os próprios filósofos gregos, a quem nossa cultura deve tanto, séculos antes de Cristo já diziam que a evolução do saber só ocorre pelo contraste, pelo choque de ideias, pela argumentação. É a origem do termo “dialética” que muita gente confunde com “comunismo”.

Não é preciso ser nenhum intelectual para entender que a evolução da chamada “civilização” se dá através da acumulação, produção, confrontação e transmissão de múltiplos saberes.  O enorme avanço que a humanidade experimentou no século XX e XXI se deve, em larga medida, justamente ao poder de acelerar a difusão de ideias e debates dos meios de comunicação de massa.

Seria trágico que na Era da Internet, em que tal capacidade atinge seu mais alto grau, ao invés da acumulação, produção, confrontação e transmissão de múltiplos saberes, optássemos pela difusão de múltiplas e orgulhosas ignorâncias.

 

Artigo de Paulo Falcão

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