bolsonaro fala muito

Há no cenário político atual algo bastante óbvio mas que parece passar desapercebido para muita gente: se persistir no “modus operandi” atual, Bolsonaro vai pavimentar a volta do PT ao poder, uma volta que, a julgar por seu programa de governo nas eleições 2018, será mais à esquerda do que conseguiu ser nos 13 anos de sua primeira passagem pela presidência da república.

Observe que não existe na política brasileira atual nenhuma liderança fora da polarização Bolsonaro X Lula (ou seus ungidos).

Se Bolsonaro fracassar, o poder cai no colo do PT novamente.

A única chance de evitar este retorno triunfal é Bolsonaro fazer um bom governo e conseguir fazer a população brasileira perceber os benefícios de sua gestão.

Não é tarefa fácil. Com o amadorismo que temos assistido, se torna dificílima.

Duas áreas são as mais críticas e com maior potencial de impacto na vida das pessoas, principalmente as mais pobres: segurança e economia.

Na área de segurança, embora as promessas sejam federais, a responsabilidade é descentralizada e fica a cargo dos diversos governos estaduais. Ainda é uma grande incógnita como se dará este trabalho conjunto e que propostas concretas serão implementadas.

Na área econômica, temos um desafio hercúleo, com reforma da previdência, reforma tributária, redução do tamanho do estado, privatizações e redução do déficit público para que o Brasil reencontre o equilíbrio fiscal e possa investir de forma sustentada em suas funções primordiais, que são saúde, educação e a já citada segurança pública, além de manter em funcionamento programas assistenciais como o Bolsa Família.

A dificuldade das tarefas e o amadorismo desencontrado destes primeiros dias deveriam funcionar como um eloquente alerta. É hora do Presidente encontrar um articulador interno que organize as diversas agendas, negocie prioridades e costure um discurso institucional republicano, sem fanfarronices ou vaidades. Falar menos e sem improvisos já seria uma medida altamente salutar.

Como disse em artigo recente, “a sequência de improvisos, declarações esdrúxulas, informações erradas, decisões desastrosas e nomeações inconvenientes é culpa exclusiva de Bolsonaro e sua equipe (sem falar na plantação de laranjas que o Queiroz e beneficiários ainda não explicaram).” Os críticos de seu governo apenas aproveitaram a munição fornecida.

É importante que Bolsonaro reconheça o mal começo e aprenda rapidamente com os erros. Os quase 14 milhões de desempregados que seu governo herdou e o Brasil dos 62 mil assassinatos por ano, não podem esperar.

O pior é que, se o governo Bolsonaro fracassar, o Brasil não terá perdido apenas 4 anos. Com a eventual volta do PT ao poder, há o risco real de abandono de qualquer compromisso com a austeridade fiscal, como a esquerda imagina que aconteceu em Portugal¹. Por lá, havia uma Angela Merkel para frear os arroubos gastadores da esquerda lusitana e impor disciplina fiscal.

Aqui, não há ninguém. O caminho mais razoável que se apresenta hoje é ajudar de todas as maneiras possíveis este governo amador a dar certo. E torcer para que surjam lideranças melhores.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

1 – Em Portugal o Partido Socialista voltou ao poder em 2015 prometendo o fim da austeridade, mas não o fez. Uma das razões foi a forte pressão da Alemanha, através de Angela Merkel, para que Portugal mantivesse a trajetória de redução de seu déficit público. A manutenção da política de austeridade, que já trouxera de volta o crescimento econômico em 2014, deslanchou. Sem a continuidade da austeridade, poderiam ter perdido todo o esforço que fizeram por três anos. Mais detalhes sobre a economia de Portugal estão aqui.