Dom Quixote e os moinhos

O desprezo da mídia e dos formadores de opinião por Bolsonaro contribuiu para que fosse eleito. Tentaram fazer dele um Dom Quixote que, em sua loucura, enxerga monstros onde há apenas moinhos de vento.

Acontece que parte importante da população também enxergou os monstros.

Agora, a mesma mídia e os mesmos formadores de opinião repetem o erro, de forma ampliada: seriam Quixotes todos que falam em estratégia gramsciana e/ou advertem para o poder e os riscos do Foro de São Paulo, por exemplo.

Lutariam contra tais moinhos de vento não apenas o clã Bolsonaro, mas seu guru Olavo de Carvalho, o chanceler Ernesto Araújo, o ministro da educação Ricardo Velez Rodriguez, entre outros.

É fácil reconhecer este enfoque de forma quase hegemônica. Mesmo articulistas com quem costumo concordar caíram nessa armadilha, como é flagrante em artigo de Demétrio Magnoli chamado MEDO DA URSAL em que adota um tom bastante irônico.

Ali podemos ler provocações como estas:

“O Brasil já temeu a mula sem cabeça, o boitatá, a cuca, o corpo-seco, a iara e o curupira. Hoje, teme a Ursal. Os medos antigos assombravam o universo rural de caipiras e caboclos. O medo atual assombra o novo governo que, para dormir em paz, entregou dois ministérios estratégicos a apóstolos do Bruxo da Virgínia, um astrólogo repaginado como filósofo místico. Daqui em diante, a superstição norteará nossas políticas externa e educacional. Não adianta dizer que a Ursal não existe, pois ela existe na mente dos que nos governarão.

A Ursal, União das Repúblicas Socialistas da América Latina, ganhou popularidade pela voz do Cabo Daciolo. A evocação da sigla exprime a crença de que uma conspiração comunista internacional ameaça a pátria brasileira. O Bruxo da Virgínia e seus evangelistas compartilham o credo de Daciolo, mas o vestem em peças de estilistas. Na linguagem arcana que preferem, a conspiração é conduzida por uma liga constituída por “liberais globalistas” e “marxistas”. Armados com as teses de Antonio Gramsci, os maléficos conspiradores apropriam-se silenciosamente tanto das chaves do poder quanto das mentes dos indivíduos por meio de uma prolongada guerra cultural. É Ursal, em versão de butique.

De acordo com as superstições do Bruxo da Virgínia, a China lidera o tentáculo marxista da conspiração mundial. Ernesto Araújo, futuro ministro das Relações Exteriores, dá indícios de que submeterá as relações com a China ao “Deus de Trump”, engajando o Brasil na guerra comercial deflagrada pelos EUA. O medo da Ursal ameaça degradar uma de nossas principais parcerias econômicas, fonte de quase um terço do superávit brasileiro no comércio exterior e de vultosos investimentos externos diretos.

Segundo as crendices do Bruxo da Virgínia, a escola funciona como palco de uma doutrinação dos jovens destinada a destruir a família e a religião. Ricardo Vélez, futuro ministro da Educação, declara que enfrentará o perigo por meio do projeto de lei Escola Sem Partido — ou seja, pelo uso do poder público como polícia pedagógica destinada a perseguir professores “desviantes”. O medo da Ursal ameaça bloquear os caminhos para a reforma e qualificação da educação no Brasil. No lugar dessa tarefa inadiável, o Estado anuncia uma estratégia de “contrainsurgência cultural” nas escolas.

As teocracias medievais e os regimes totalitários do século passado imaginavam-se como representações de uma verdade suprema, oriunda de Deus, do Destino Nacional ou da História. A separação entre Estado e Igreja (isto é, a laicidade estatal) e a separação entre Estado e partido (isto é, o princípio do pluralismo político) formam dois pilares estruturais dos sistemas democráticos. Nas democracias, o Estado administra as coisas, não as mentes. Os dois ministérios ocupados por acólitos do Bruxo da Virgínia ambicionam administrar as mentes, libertando-as das forças alienígenas da Ursal. Há fortes doses de ridículo nisso, mas o assunto é sério: o misticismo está no poder.”

Considero um erro grave menosprezar Olavo de Carvalho. Ele pode ter muitos defeitos, mas é um pensador muito mais sofisticado do que o espantalho ridículo descrito por Magnoli.

Olavo tem alguns vídeos um tanto questionáveis, mas isto não traduz a essência de seu pensamento. A maioria dos seus artigos que já li são ponderados, analíticos e coerentes.

Menosprezar Ernesto Araújo e Ricardo Velez Rodriguez é erro semelhante (o mesmo vale para os ministros militares, de excelente formação).

Mas voltemos à tentativa de ridicularizar Bolsonaro e os demais através da URSAL.

A tal União das Repúblicas Socialistas da América Latina pode não existir, mas seu espírito existe dentro do Foro de São Paulo, que teve sua importância negada e ficou fora do radar da maior parte da imprensa por muito tempo.

Observe: em documento de julho de 1990, ano em que o FSP foi criado, já podemos ler:

“Manifestamos, portanto, nossa vontade comum de renovar o pensamento de esquerda e o socialismo, de reafirmar o seu caráter emancipador, corrigir concepções errôneas, superar toda expressão de burocratismo e toda ausência de uma verdadeira democracia social e de massas(…).

 

Rejeitamos toda pretensão de aproveitar a crise da Europa Oriental para encorajar a restauração capitalista, anular suas conquistas e direitos sociais ou alentar ilusões nas inexistentes bondades do liberalismo e do capitalismo (…)

 

Nós, organizações políticas reunidas em São Paulo, encontramos um grande alento – para reafirmar nossas concepções e objetivos socialistas, anti-imperialistas e populares – no surgimento e desenvolvimento de vastas forças sociais, democráticas e populares no Continente que se opõem aos mandados do imperialismo e do capitalismo neoliberal, e à sua sequela de sofrimento, miséria, atraso e opressão antidemocrática. Essa realidade confirma a esquerda e o socialismo como alternativas necessárias e emergentes.”

Doze anos depois, em 2012, com a imprensa ainda negando a relevância do Foro de São Paulo, Lula reconhecia que a entidade fora responsável pela vitória de partidos de oposição nas eleições em vários países do continente no início dos anos 2000.

Certamente há excessos e exageros na avaliação desta questão, mas o assunto não pertence à categoria da ficção, das crenças ou do folclore.

Insistir na estratégia de negar o que existe, está documentado e pode ser reconhecido no aparelhamento das mais diversas instâncias públicas e privadas é miopia, teimosia ou má fé, e não contribui em nada para a inteligência do debate necessário para o enfrentamento dos desafios que estão diante do Brasil.

 

Artigo de Paulo Falcão.