haddad-bolsonaro inimigos ou adversários

Quando Bolsonaro disse, em comício no Acre, “vamos metralhar a petralhada, vamos botar estes picaretas para correr” houve matérias, editoriais, discursos, protestos e até um processo do PT contra o destemperado candidato.

Agora foi a vez de Fernando Haddad dizer, duas vezes, em eventos diferentes, que “Jair Bolsonaro é o anti ser humano, ele representa tudo que deve ser varrido da face da Terra”.

Podemos, eu e você, dizer que ambos recorreram à figuras de linguagem, à metáforas para multidões e, sendo assim, não dar maior importância ao assunto.

Também podemos pensar o contrário: que ambos no fundo são autoritários que não vêm no outro um adversário a ser democraticamente superado, mas um inimigo a ser abatido, literalmente.

Podemos também seguir por outras conclusões.

O que não podemos é atribuir a um a mera figura de linguagem e ao outro o autoritarismo latente. Seja quem for o um e o outro. Quem faz isto, falsifica a lógica, fere a ética e contribui para a degradação do debate político.

Quem vocifera contra um e silencia ou aplaude o outro pratica a chamada indignação seletiva, ou duplo critério.

um exército de jornalistas, professores, instituições e publicações que agem assim. Dar ouvidos a eles é cair na armadilha da manipulação que corrói o pensamento crítico e coloca gasolina na fogueira do “nós contra eles”, algo que já se provou uma péssima alternativa para quem valoriza a democracia e o estado de direito.

Fuja desta gente. Precisamos reconstruir a política em seu sentido clássico, de alternativa à guerra.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

P.S – Um comentário de leitor provocou uma resposta que me pareceu necessária como complemento ao artigo acima. Segue o essencial.

A frase de Bolsonaro fala em metralhar, mas termina dizendo que vai colocar esta gente pra correr. Do ponto de vista da mera interpretação de texto, só é possível colocar para correr quem não foi literalmente metralhado.

Quando nos debruçamos sobre a frase do Haddad, a interpretação inicial tem o mesmo efeito.

No entanto, para quem conhece um pouco de História e sabe que Haddad é um especialista em Lênin e URSS, podemos lembrar um trecho da fala de Lênin no julgamento interno do partido promovido pelos rivais mencheviques:

“É errado escrever sobre companheiros de Partido numa linguagem que sistematicamente dissemine entre as massas trabalhadoras o ódio, a aversão e o desprezo àqueles que sustentam opiniões divergentes. Mas pode-se e deve-se escrever nesse tom sobre organizações dissidentes…” Quando se trata de responder aos inimigos, ensina Lênin, é dever do militante utilizar uma linguagem “calculada para despertar contra o oponente os piores pensamentos, as piores suspeitas; não para corrigir-lhe os erros, mas para destruí-lo, para varrer sua organização da face da Terra.” (Selected Works, Vol. III, pp. 486 ss.).

Como ficou explícito nos anos subsequentes, para Lênin e seus sucessores, “varrer os inimigos da face da terra” não era apenas força de expressão.