STF na mira

 

Nos últimos dias causou polêmica um vídeo onde Flávio Bolsonaro, em palestra para universitários, diz em tom de chacota que para fechar o STF não precisaria mandar nem um Jipe, bastaria um cabo e um soldado. É importante assistir o vídeo.

Sem dúvida nenhuma o comentário foi prá lá de infeliz. É o tipo de gracejo que não se faz, mesmo como resposta a uma hipotética ação do STF para impedir Jair Bolsonaro de tomar posse caso vencesse a eleição.

Toda repulsa a esta declaração é legítima, como é legítima a nota do decano do Supremo, o ministro Celso de Mello, em que afirma: “Essa declaração, além de inconsequente e golpista, mostra bem o tipo (irresponsável) de parlamentar, cuja atuação no Congresso Nacional, mantida essa inaceitável visão autoritária, só comprometerá a integridade da ordem democrática e o respeito indeclinável que se deve ter pela supremacia da Constituição da República”.

O que devemos estranhar, no entanto, é o tom muito mais brando da imprensa, OAB e das Universidades para as declarações de José Dirceu falando em enquadrar não só o STF mas o ministério público e o legislativo. E ele não estava fazendo um gracejo.

Devemos estranhar que tais ameaças estejam formalizadas no Programa do PT e não tenham causado indignação aos que se sentiram ofendidos pro Flávio Bolsonaro.

Devemos estranhar que as mesmas pessoas que agora gritam contra o Brucutu JR silenciaram quando, em abril de 2018, o deputado petista e ex-presidente da OAB do Rio, Wadih Damous, disse a sério: “Temos que redesenhar o papel do Poder Judiciário, o papel do Supremo Tribunal Federal. Tem que fechar o Supremo Tribunal Federal. Temos que criar uma corte constitucional, de guarda exclusiva da Constituição, com seus membros detentores de mandato”.

A indignação com Flávio Bolsonaro e o silêncio obsequioso diante das ameaças de José Dirceu, do Programa do PT e de Wadih Damous revelam um mal que chamo de duplo critério. Como já disse, duplo critério é não agir por princípio e sim por conveniência. É condenar no adversário o que permite aos aliados. É condenar no anônimo o que perdoa nos amigos.

A prática de duplo critério é evidente nas reações que pudemos ver na imprensa brasileira e internacional, na OAB e nas Universidades por ocasião das quatro ameaças distintas ao STF.

Foi exatamente este hábito do duplo critério nas redações, entidades de classe e na academia que ajudou a estratégia do PT do “nós contra eles” e contribuiu para construir a alternativa Bolsonaro. Era a estratégia do PT desde 2014: matar as alternativas do campo democrático e polarizar com Bolsonaro, apostando na repulsa ao fantasma de um golpe/governo militar ou de um governo alinhado com os militares.

A estratégia trouxe o PT ao segundo turno, mas o partido parece ter avaliado mal a repulsa aos militares.

De qualquer maneira, repito o alerta que já fiz algumas vezes: não confie em ninguém que pratique duplo critério. Evita muita histeria e identifica os lobos em pele de cordeiro.

 

 

Artigo de Paulo Falcão.