de olho no capitalismo

Quando o Manifesto Comunista foi publicado pela primeira vez, em 21 de fevereiro de 1848, aproximadamente 92,5% da população mundial vivia em extrema pobreza. E isto já era melhor do que 28 anos antes, com 94,4%.

Foi neste cenário que Marx e Engels viveram, pensaram, escreveram.

Suas ideias encontraram milhares de adeptos à época, algo totalmente justificável diante daquelas circunstâncias.

Aquele cenário, no entanto, já não existe. O mundo mudou. Muito.

No entanto, adeptos daquelas ideias continuam produzindo mistificações.

Thomas Piketty, por exemplo, construiu sua obra substituído a questão da pobreza pela desigualdade de renda, uma estratégia inteligente, mas um tanto vigarista.

Por quê vigarista? Porque fala do aumento da desigualdade como se fosse uma novidade e, principalmente, como se a base da pirâmide social estivesse mais pobre, o que é simplesmente mentira.

Em seu livro Capitalismo, de 1966, Ayn Rand já observava o que muitos pesquisadores, economistas e historiadores preferem ignorar: “O capitalismo não criou pobreza – herdou-a. Em comparação com os séculos de fome pré-capitalista, as condições de vida dos pobres nos primeiros anos do capitalismo foram a primeira chance que tiveram para sobreviver – como prova o enorme crescimento da população europeia durante o século XIX, um crescimento de mais de 300%, em comparação com o crescimento anterior de algo como 3% por século.”

Agora some a isto as informações abaixo, que mostram a brutal redução da extrema pobreza em 195 anos de prevalência do capitalismo: em 1820 nada menos do que 94,4% da população mundial vivia em extrema pobreza; em 2015 esta porcentagem havia sido reduzida para 9,6%.

World population living in extreme poverty

Outro dado importante sobre os números de 2015: segundo o Banco Mundial, os aproximadamente 702 milhões de pessoas (9,6% da população mundial) que ainda estavam abaixo da linha da pobreza se concentravam majoritariamente na África Subsaariana e na Ásia.

Ou seja, diante dos números e da história, é razoável concluir que quanto menos capitalismo, mais miséria.

Aqui é importante lembrar que o capitalismo encontra sua melhor forma na simbiose com as democracias liberais. Foi sob este binômio que assistimos a ocorrência das maiores conquistas humanas também em termos de qualidade de vida e direitos civis.

Mas é preciso reconhecer que o capitalismo pode ocorrer e reduzir pobreza mesmo em ditaduras, como demonstra de forma impressionante a China.

Até a morte de Mao Tse-Tung em 1976, perto de 90% da população vivia abaixo da linha da pobreza.

Foi na gestão de Deng Xiaoping que a China iniciou experiências de “capitalismo de estado” ou, mais precisamente, “capitalismo misto”, em que, ainda sob forte ditadura, começa a desenvolver parcerias público-privadas tanto internas, na área rural, como abertas ao ocidente, atraindo investimentos e tecnologia, mas com o estado como sócio poderoso.

O resultado da redução da pobreza extrema do Capitalismo na China foi igualmente notável: de 88,32% em 1981 para 1,85% em 2013.

China population living in extreme poverty

Mas voltemos para o novo foco dos críticos do binômio capitalismo & democracia: a desigualdade de renda.

Embora concorde que seja possível trabalhar para reduzí-la, principalmente com oportunidades básicas de qualidade acessíveis a todos na infância, lembro mais uma vez que ela não é um mal em si.

Observe que a redução vertiginosa da pobreza extrema e o evidente surgimento de uma numerosa classe média ocorreu simultaneamente ao “denunciado” aumento da desigualdade de renda.

Não há contradição entre tais fatos, como demonstrei em outro artigo. É perfeitamente possível ter uma melhoria geral de renda entre a população ao mesmo tempo em que aumenta a desigualdade.

Por exemplo, digamos que a base da pirâmide social de uma população qualquer tivesse renda de U$ 2,00 ao dia e o topo de U$ 60,00 (30 vezes mais). Passado algum tempo, vemos que a mesma base agora ganha U$ 3,00 e o topo U$ 600,00 (200 vezes mais).

É óbvio que a desigualdade de renda aumentou, mas ainda assim a base da pirâmide recebe um valor 50% maior que antes.

Observe o que realmente importa: a base da pirâmide viu sua renda aumentar 50% apesar do aumento da desigualdade.

Evidentemente isto não quer dizer que chegamos ao Fim da História ou que não existam motivos para críticas e reinvindicações.

Quer dizer apenas que a maior parte dos críticos da simbiose entre democracia & capitalismo mente ou ignora fatos que deveria conhecer.

Quer dizer que a fixação na desigualdade é um erro.

Quer dizer que o binômio democracia & capitalismo oferece o conjunto de ferramentas necessário para um processo de melhoria contínua, de luta e conquista de direitos.

Trata-se, sem dúvida, de um conjunto de valores que precisa ser melhor compreendido, estudado e preservado. Não há na História humana nada tão eficaz na criação de riqueza e bem-estar geral,  na solução pacífica de conflitos e gestão de sociedades complexas.