SARAMAGO

Certas reflexões parecem ter uma superioridade moral evidente, uma clarividência capaz de iluminar os caminhos da humanidade.

A frase abaixo, de Saramago, é um bom exemplo.

Pinçada de seu Cadernos de Lanzerote, uma espécie de diário de reflexões escrito entre 1993 e 1998, frequentemente volta a circular quase como como uma prece por um mundo melhor:

A nossa escolha não tem por que ser feita entre socialismos que foram pervertidos e capitalismos perversos de origem, mas entre a humanidade que o socialismo pode ser e a inumanidade que o capitalismo sempre foi.”

Observe que a frase concentra críticas tanto ao indefensável socialismo real como ao capitalismo malvadão, ao mesmo tempo em que acena com o resgate de velhas Utopias.

É um pacote poderoso para quem prefere ignorar os fatos e sonhar com a adorável Terra no Nunca.

Em primeiro lugar, o socialismo padece de defeito congênito e só pode existir em ditaduras. O próprio Marx reconhece isto em carta a Joseph Weydemeyer, em 1852, onde vemos que, ao lado do seu pragmático realismo, a Utopia redentora resiste (como em Saramago):

“Muito antes de mim, historiadores burgueses haviam descrito o desenvolvimento histórico dessa luta entre as classes. Minha própria contribuição foi mostrar que a existência das classes está simplesmente ligada a determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção; que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; que esta ditadura, em si, não constitui mais que uma transição para a abolição de todas as classes e a uma sociedade sem classes”.

Para quem acredita que toda forma de governo é a ditadura de uma classe sobre a outra, a constatação acima se justifica, embora revele desconhecimento do que seja ao menos uma forma de governo: a democracia.

Para quem reconhece o poder transformador da democracia, mesmo ocorrendo de forma assimétrica, a frese de Marx soa hoje como perversão.

Em segundo lugar, e talvez ainda mais importante, ao contrário do que diz Saramago e outros devotos de São Marx da Mais Valia,  o capitalismo, em consórcio com a democracia (liberal) permitiu uma redução da extrema pobreza como nunca visto na história da humanidade: em 1820 nada menos do que 94,4% da população mundial vivia em extrema pobreza; em 2015 esta porcentagem havia sido reduzida para 9,6%.

World population living in extreme poverty

Mais um dado importante sobre os números de 2015: segundo o Banco Mundial, os aproximadamente 702 milhões de pessoas (9,6% da população mundial) que ainda estavam abaixo da linha da pobreza se concentravam majoritariamente na África Subsaariana e na Ásia.

Ou seja, se é para fazermos generalizações, uma que faz muito mais sentido que a de Saramago é: quanto menos capitalismo, mais miséria.

Aqui é importante lembrar que o capitalismo pode ocorrer e reduzir pobreza mesmo em ditaduras, como demonstrou o Chile de Pinochet e demonstra hoje a China.

No entanto, é na simbiose com as democracias liberais que ocorre a maximização de seus efeitos. Foi sob este binômio que assistimos a ocorrência das maiores conquistas humanas em termos de qualidade de vida e direitos civis.

Prefiro acreditar que Saramago e outros intelectuais de esquerda enxerguem tragédia onde os números revelam virtudes por ignorar fatos que deveriam dominar.

As duas outras explicações que fazem sentido são a manipulação deliberada de seus interlocutores e a cegueira ideológica.

Assim, sempre que alguém falar contra o binômio democracia & capitalismo, tenha certeza de estar diante de uma destas três alternativas.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

P.S. – Leia os romances de Saramago. São ótimos. Mas desconfie de suas opiniões sobre teoria política e econômica.