Detalhe de Os Operários - Tarsila do Amaral

Vivemos um momento difícil da democracia brasileira, seja pelo crescente número de pessoas que não reconhecem (ou não têm acesso a) seus benefícios, seja pela polarização eleitoral em torno de nomes que são ameaças claras ao estado democrático e de direito.

Uma coisa está ligada à outra, evidentemente.

Em dezembro de 2014 este blog já alertava para o fato de que gente como Jair Bolsonaro faz mal à democracia e ao bom-senso. Funcionava então como “garoto propaganda” da esquerda brasileira, no sentido de um espantalho político que desempenha o papel de “paradigma da direita”, algo absolutamente falso.

A estratégia da esquerda funcionou parcialmente, ao criar uma polarização entre dois campos que desprezam a democracia, trabalho facilitado por uma classe política divorciada da população e suas necessidades.

A tragédia está desenhada. Hoje, não temos nomes do campo democrático com viabilidade eleitoral.

Não sei se ainda há tempo para reverter o desastre anunciado, mas é fundamental começarmos já a discutir o assunto, como faz Demétrio Magnoli no artigo que reproduzo abaixo.

Chamo a atenção para dois trechos emblemáticos:

(…) “O coração dos empresários oscila da esquerda à direita, sem nunca sair realmente do lugar. Na “era Lula”, enfeitiçava-os o canto de sereia do capitalismo de estado. Numa hipotética “era Bolsonaro”, a miragem ultraliberal produz efeito narcótico semelhante. A religião do dinheiro fácil, aqui e agora, tolda o julgamento, implode a razão estratégica.”

(…)  “A confiança, ativo intangível que propicia o investimento e a difusão dos intercâmbios, nasce na esfera do contrato político. A economia de mercado só floresce sob a estufa de instituições que garantem os direitos individuais e sociais. O jogo da liberdade econômica precisa de regras estáveis e árbitros independentes. As mágicas dos populistas geralmente produzem lucros imediatos, contratando catástrofes futuras.”

Como já escrevi em outro artigo sobre o tema, “de um lado, estão os que cultivam o fim da democracia e a superação do capitalismo; do outro, os que são estúpidos ao ponto de sonhar com um golpe militar e algum tipo de fascismo.

Entre um e outro estão aqueles que reconhecem a democracia e o estado de direito como valores fundamentais (poucos) e aqueles que não entendem nada disso mas desejam ter emprego, fazer um churrasquinho no final de semana e pagar as contas em dia (muitos).”

São estes muitos que farão a diferença.

O único caminho para escapar dos representantes do campo autocrático e populista é o debate, o esforço de entendimento e a capacidade de despertar o interesse da maioria silenciosa para os candidatos que pertençam ao campo da democracia.

Para que não haja dúvida: Ciro Gomes, Marina Silva, Boulos e Bolsonaro desprezam a democracia. São candidatos autocráticos e populistas.

 

Introdução de Paulo Falcão.

* A ilustração do artigo é um detalhe do quadro “Os operários” de Tarsila do Amaral.

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A RELIGIÃO DOS EMPRESÁRIOS

Demétrio Magnoli, O Globo (18/06/2018)

O jogo da liberdade econômica precisa de regras estáveis e árbitros independentes. As mágicas dos populistas produzem lucros imediatos, contratando catástrofes futuras

O“caso de amor” entre a elite empresarial dos EUA e Donald Trump foi manchete de capa da revista “The Economist”, em maio. No Brasil, uma longa série de indícios e algumas sondagens de opinião sugerem que Jair Bolsonaro é o presidente dos sonhos de significativa parcela do empresariado. Bolsonaro venera Trump, mas é um equívoco cravar explicações ideológicas para os “casos de amor” paralelos: afinal, poucos anos atrás, nossos empresários ajoelhavam-se no altar da devoção ao lulismo. A solução para o enigma situa-se no campo dos interesses — ou, mais precisamente, numa percepção rudimentar, quase infantil, sobre os interesses de negócios.

“Os executivos americanos estão apostando que o presidente é bom para os negócios”, escreveu a “Economist” no seu editorial. Na “era Trump”, as instituições estatais debilitam-se, os EUA conhecem inédito isolamento internacional, e o déficit fiscal tende a explodir. Contudo, os dirigentes das empresas preferem olhar para outra direção: os cortes de impostos corporativos, as iniciativas de desregulamentação econômica e as tarifas comerciais protecionistas prometem ampliar as margens de lucro – no horizonte de curto prazo. O futuro é amanhã: o cálculo político subordina-se aos tempos curtos e ritmos alucinantes da Bolsa.

Um fenômeno similar conduziu o núcleo do empresariado brasileiro ao pátio de folguedos do lulismo. O “caso de amor” não começou no primeiro mandato de Lula, caracterizado pela manutenção do tripé macroeconômico ortodoxo de FHC, mas no segundo, junto com a expansão das políticas de financiamento subsidiado às empresas, a ossificação do protecionismo alfandegário e a explosão dos estímulos ao consumo. A desastrosa “nova matriz macroeconômica” de Dilma Rousseff, uma teorização das políticas implantadas desde o mandato derradeiro de Lula, não afastou o empresariado. De fato, a ruptura só se deu às vésperas das eleições de 2014, quando o colapso econômico tornou-se evidente. “Os ricos nunca ganharam tanto como no meu governo” — o lulismo empresarial encontra explicação na frase célebre — e verdadeira! — de Lula.

No início, a maioria do empresariado rejeitava Bolsonaro. No final de 2017, sob o patrocínio de Meyer Nigri, da Tecnisa, uma campanha de banquetes aproximou o candidato de grupos pequenos de empresários. A onda cresceu exponencialmente. Em fevereiro, num evento para CEOs promovido pelo BTG Pactual no hotel Hyatt, em São Paulo, o candidato foi ovacionado, de pé, por 2,5 mil participantes. Depois, em maio, três dias foram suficientes para esgotar os ingressos para um almoço organizado pela Associação Comercial do Rio. À frente do locaute das grandes transportadoras que deflagrou o movimento dos caminhoneiros estiveram alguns empresários bolsonaristas, notadamente Emílio Dalçóquio, proprietário de 600 caminhões. As bases da candidatura de Bolsonaro estendem-se a amplos setores do agronegócio, especialmente no Centro-Oeste.

A constelação de motivos declarados por empresários lança alguma luz sobre a opção. Nigri apoia “quem seja contra a esquerda”, pois o Brasil teria se tornado “um país socialista, impossível para os empresários”. Nos eventos do agronegócio, aplaude-se a promessa de “armamento do povo” contra invasores de terras e criminosos. Em Roraima, ovações acompanham as ideias de exploração econômica das terras indígenas e de implantação de campos de refugiados venezuelanos. Bolsonaro descobriu que ganha adesões entusiásticas quando, sob a “inspiração” de Trump, fala em “radicais” medidas de redução de impostos e privatizações. A sedução do empresariado passa pela figura de Paulo Guedes, guru econômico do candidato.

O coração dos empresários oscila da esquerda à direita, sem nunca sair realmente do lugar. Na “era Lula”, enfeitiçava-os o canto de sereia do capitalismo de estado. Numa hipotética “era Bolsonaro”, a miragem ultraliberal produz efeito narcótico semelhante. A religião do dinheiro fácil, aqui e agora, tolda o julgamento, implode a razão estratégica. Tanto quanto nos EUA, os dirigentes das empresas querem um “Estado máximo”, quando se trata de protegê-los da concorrência externa, provocar bolhas de consumo ou subsidiar os combustíveis, e um “Estado mínimo”, quando se trata de preservar bens e serviços públicos. No passo trôpego do embriagado, eles transitam de Arno Augustin, o arauto da “nova matriz macroeconômica” lulista, a Paulo Guedes, o teórico bolsonarista do capitalismo de faroeste.

Os donos do dinheiro nada aprenderam — nos livros ou na experiência histórica. A confiança, ativo intangível que propicia o investimento e a difusão dos intercâmbios, nasce na esfera do contrato político. A economia de mercado só floresce sob a estufa de instituições que garantem os direitos individuais e sociais. O jogo da liberdade econômica precisa de regras estáveis e árbitros independentes. As mágicas dos populistas geralmente produzem lucros imediatos, contratando catástrofes futuras. Os empresários apaixonados por Bolsonaro, um Trump vira-lata dos trópicos, sabotam a si mesmos, enquanto sabotam o Brasil.

 

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