Ciro Gomes manipulador

Ciro Gomes é um pistoleiro da palavra e uma versão bem mais ilustrada dos famigerados “coronéis” que ainda infelicitam a política nordestina.

Inteligente, autoritário e manipulador, tem a língua mais rápida do Brasil e nenhum pudor em inventar dados, mentir, distorcer fatos e enganar. Ao contrário: demonstra seguidamente que, para ele, os fins justificam os meios.

Seu hábito hiperbólico e farsante lembra a tática de Lula confessada neste vídeo famoso.

Nosso Príncipe do agreste, no entanto, vai além e incorpora métodos de Paulo Maluf nos anos 1980 e 90.

Reconheçamos: não é para qualquer um. Exige intelecto superior, conhecimento e, claro, enorme cara de pau para conseguir afogar o oponente em números e informações difíceis de serem contestadas de imediato.

Para completar, o faz com tal assertividade que parece encarnar a pura expressão da verdade.

Quem se der ao trabalho de pesquisar os números que Ciro despeja sobre a audiência, perceberá distorções claras. Há um artigo de Lucas Baqueiro para o site Amanlaga que, embora em linguagem um tanto tosca, analisa sua participação no programa RODA VIVA de 28 de maio de 2018 e demonstra diversos erros, equívocos, distorções e truques do presidenciável.

Para ficarmos em um exemplo concreto de manipulação, observe as pesadas críticas que faz à PEC do Teto de Gastos, afirmando, entre outras bobagens, que houve um congelamento dos gastos em saúde por 20 anos. Não houve, tanto que os gastos com saúde aumentaram em 2017. O que se congelou foi o volume total de gastos. Assim, é perfeitamente possível reduzir gastos com cartões corporativos e cargos de confiança para investir mais em educação e saúde. É possível fazer reformas que reduzam o peso morto do Estado para gastar melhor aonde de fato é necessário.

No entanto, penso que nem é necessário mergulhar no mar de números e manipulações que Ciro Gomes despeja para se compreender o perigo que representa para a democracia e para a economia.

Na política, sua personalidade autocrata se manifesta de forma clara no tom de voz e na agressividade com que trata aqueles que possam representar oposição real a seus planos.

Seu pendor autoritário e pouco apreço à democracia também emergem quando fala da Venezuela sem reconhecer a corrosão evidente da democracia e do estado de direito por Hugo Chávez (contra Maduro, tece críticas tênues).

Aliás, Ciro Gomes é ainda mais perigoso que Chávez porque é, no mínimo, tão autoritário quanto e certamente mais inteligente e preparado.

Ao despejar toda a culpa dos problemas da Venezuela nas costas da “oposição canalha e interesses imperialistas”, mimetiza o discurso da esquerda jurássica e deixa entrever que, uma vez eleito, pode levar o Brasil pelo mesmo caminho desastroso.

Aliás, seu alinhamento com a “esquerda jurássica” se evidencia nas próprias alianças eleitorais que já realizou, como o PCdoB e PSB.

Também revela uma má leitura da realidade ao atribuir a crise herdada por Temer a Joaquim Levy e sua breve passagem pelo Ministério da Fazenda, no início do segundo mandato de Dilma. Apenas os economistas adeptos do “realismo mágico” encampam esta tese. (A rigor, o próprio Ciro se contradiz, pois em alguns momentos reconhece que Dilma foi um erro desde sempre).

Observe, por exemplo, que nenhum dos economistas que fizeram parte da elaboração e implantação do Plano Real, que teve Ciro Gomes como um conturbado ministro da fazenda por 4 meses, o apoia ou concorda com sua leitura da economia. Nenhum. Ao contrário, Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco e Pedro Malan são críticos severos desta leitura equivocada dos fatos.

Isto é de importância fundamental porque a economia está no centro do futuro que o Brasil terá, inclusive para preservar a democracia.

Observe: a crise levou o brasileiro a uma posição de desdém pela política, sem a qual não há democracia. Muitos andam flertando com autoritarismos de esquerda e de direita. É terreno fértil para populistas e salvadores da pátria que, em geral, afundam ainda mais o país e destroem a democracia no processo.

É um péssimo caminho.

O caminho virtuoso, de resgate da democracia como valor, passa pela valorização da política, pela economia voltando à normalidade e o governo brasileiro aderindo de forma clara e inequívoca à responsabilidade fiscal.

Passa pela redução do tamanho do Estado e seus privilégios nas esferas federal, estadual e municipal.

Passa pela reforma tributária e da Previdência.

Passa por recuperar a capacidade das três esferas de governos investirem no que vem a ser sua real responsabilidade: educação, saúde, transporte e segurança pública, sem o que não é possível combater a desigualdade de oportunidades que assistimos.

As próximas eleições serão difíceis e o futuro pós eleições não será fácil, mas certamente alternativas como Ciro Gomes representam uma ampliação dos problemas, não uma solução.

A personalidade e as ideias de Ciro Gomes, sua identificação com práticas autoritárias reais, representam risco efetivo para a democracia e para a retomada econômica do Brasil.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

 

 

 

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