A DITADURA VENEZUELANA PRODUZ ESCACEZ

Há um grupo de pessoas nos corpos discentes e docentes de universidades brasileiras que são impermeáveis aos fatos. Se pudessem, transformavam o Brasil em uma Venezuela.

Não é força de expressão. Igor Fuser, da Universidade Federal do ABC, já declarou literalmente isto e foi apludido.

Mesmo diante de tantas evidências, preferem aquela visão mítica criada por Eduardo Galeano em “As Veias Abertas da América Latina”, onde a culpa pelas mazelas que enfrentamos é sempre de imperialistas e exploradores externos, nunca das próprias escolhas equivocadas.

Para este grupo, a Venezuela é vítima de uma guerra econômica, monetária, cambial e midiática promovida pelos EUA, de olho no petróleo farto e em interesses militares estratégicos.  Fariam isto em conluio com oligarcas venezuelanos que perderam privilégios e buscam a qualquer custo recuperá-los.

Quando confrontados com a corrosão da democracia no país, surge o velho argumento de que a democracia não se resume à democracia representativa. Para eles, Cuba, por exemplo, é um outro tipo de democracia, como já afirmou Guilherme Boulos algumas vezes.

Evidentemente, para estas pessoas é mais cômodo atribuir a culpa do desastre Venezuelano a fatores externos do que reconhecer que, mais uma vez, o viés socialista produziu um desastre econômico.

É mais cômodo ignorar que a divergência entre receitas e despesas da Venezuela começou muito antes do colapso do preço do petróleo em 2014. Quando os preços atingiram uma alta histórica, em julho de 2008, 40 por cento da recita do governo vinha diretamente do petróleo, mas já estava diminuindo porque a capacidade de produção apresentava queda: caiu de 3,3 milhões de barris por dia em 2006 para 2,7 milhões em 2011 e seguiu assim até 2014, segundo estudo da BP Statistical Review of World Energy (a gestão que o governo Chávez realizou na Petróleos de Venezuela (PVDSA), a partir do ano 2000, corroeu a eficiência da companhia).

É mais cômodo ignorar que a gestão temerária de Chávez o levou a desvalorizar a moeda venezuelana em 2005 e novamente em janeiro de 2010.

É mais cômodo ignorar que já em 2010 a Venezuela teve inflação de 40% e uma das recessões mais severas do mundo. Foi neste ano que, após perseguir e sucatear o setor de supermercados (como se eles fossem os responsáveis pela escassez), Chávez criou a PDVAL, estatal alimentícia, subsidiária da estatal petrolífera PDVSA, para distribuir alimentos no país. Não resolveu e ficou famoso o episódio das toneladas de carne apodrecendo no porto pela ineficiência da estatal.

É mais cômodo ignorar que, com o desestímulo aos produtores rurais “burgueses”, cerca de 90% dos alimentos consumidos no país em 2010 já eram importados.

É mais cômodo ignorar que em 2008 José Miguel Vivanco, diretor da Human Rights Watch para as Américas, declarou que “Durante anos, o Presidente Chávez e os seus seguidores tem construído um sistema no qual o governo pode intimidar e punir venezuelanos que interferem com a sua agenda política. Hoje esse sistema está firmemente enraizado, e os riscos para juízes, jornalistas e defensores dos direitos humanos são maiores do que nunca.”
Logo depois, foi expulso do país.

É mais cômodo ignorar o venezuelano Andres Schafer, que acompanhou de perto a primeira campanha de Hugo Chávez e sua metódica sabotagem da democracia naquele país, quando diz: “(…) lembro de quando Chávez era hegemônico e imbatível, quando ele e seus subordinados declararam que precisavam de uma oposição que fizesse justiça ao nome, não a oposição desleal e antipatriótica que havia na Venezuela, como se tivessem o direito de escolher uma personalizada. Até agora, a oposição venezuelana vinha sendo tolerada por não ter chances de vitória nas eleições nacionais. Nas raras ocasiões em que o Chavismo foi derrotado nas eleições locais, teve grande dificuldade de aceitar os fatos: reagiu criando instituições paralelas, ou retirando o direito de participação política dos eleitos, ou simplesmente colocando alguns na cadeia. Com a vitória arrasadora da oposição nas eleições parlamentares de 2015, a coisa ficou feia.

Nosso país está agora mais uma vez passando por uma de suas ondas de violência e repressão ao término de uma sequência de decadência em câmera lenta. Muito provavelmente será a última. A estratégia definitivamente tem sido esvaziar a representação democrática: o presidente Nicolás Maduro começou a governar por decreto, os atos e decisões da Assembleia Nacional foram declarados nulos, e o Conselho Nacional Eleitoral tirou do povo o direito constitucional de votar em um referendo para destituir (ou não) o presidente. Quando a Corte Constitucional da Venezuela transferiu atribuições legislativas a Maduro, o entendimento foi de que houve um golpe, e isso desencadeou a instabilidade que causou mais de uma centena de mortes desde abril deste ano e pôs a nação à beira de uma guerra civil. (…)

(…) O “Socialismo do Século XXI” venezuelano vem deixando cair a máscara da democracia e do republicanismo. O que vemos agora é a careta do projeto original, que Chávez tentou empurrar com sua reforma constitucional em 2007 e não conseguiu por ter fracassado nas urnas pela primeira e única vez. (…)”

É mais cômodo ignorar que apenas ditaduras e protoditaduras reconheceram como legítima a reeleição de Maduro e sua inflação de 14.000%.

Eu poderia continuar, mas é desnecessário. Os fatos destroem este misto de fantasia e fanatismo que permeia quem não consegue enxergar o óbvio mesmo quando ele geme de agonia diante de seus olhos.

Lembre-se disso nas próximas eleições.

 

Artigo de Paulo Falcão.

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