Edifício Wilton Paes de Almeida google

Por coincidência, passei a pé pelo Edifício Wilton Paes de Almeida na tarde que antecedeu seu incêndio e desabamento.

No térreo, na calçada, havia adultos e crianças em situação precaríssima. Comentei com quem me acompanhava sobre o absurdo que era deixar pessoas (principalmente crianças) viverem em situação tão degradante e uma legislação que permite um imóvel ficar abandonado sem que haja penalização por isto.

Não sabia até ali que o imóvel pertencia à União. Sabendo, penso que o abandono é ainda mais grave, já que não está envolvido em litígios que muitas vezes impedem (absurdamente e estupidamente) qualquer uso do imóvel.

Um imóvel abandonado é um câncer no tecido urbano, que degrada todo o entorno e o investimento urbanístico.

É também um desperdício de espaço diante de tanta gente precisando de moradia ou de lugar para legalizar atividades comerciais.

O incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida também revelou, além da incompetência e descaso das autoridades, a crueldade humana em estado bruto.

Ficamos sabendo, de maneira insofismável, que lideranças de movimentos por moradia transformam invasões em um excelente negócio ao cobrarem aluguel de seus “liderados”, sem oferecer absolutamente nada em troca. Criaram um negócio em que não investem nada, não correm qualquer risco e quanto mais tempo durar a ocupação, quanto mais demorar uma solução efetiva, mais lucram. Pelas informações dos sobreviventes, estima-se que os líderes arrecadavam cerca de R$ 60.000,00 por mês e expulsavam sumariamente quem não pagasse.

Definitivamente, o velho hábito brasileiro de empurrar os problemas com a barriga não é uma virtude.

Reproduzo abaixo matéria de Raul Juste Lores para a Veja São Paulo, que traz uma boa radiografia dos bastidores desta tragédia humana e administrativa.

 

Introdução de Paulo Falcão.

 

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Prédio que desabou teve anos de abandono e projetos engavetados

A tragédia no Paissandu pede um debate maior sobre a estratégia dos movimentos de moradia

Por Raul Juste Lores

 

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Edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou na madrugada desta terça (1°), foi projetado em 1961 (Veja SP/Veja SP)

 

O prédio no Largo do Paissandu que desabou nesta madrugada estava vazio desde 2001. Por vinte anos, a partir dos anos 70, seus 24 andares foram utilizados pela Polícia Federal. Uma agência do INSS ocupou apenas o térreo até 2009.

O governo federal teve dezessete anos para arranjar um destino para o edifício de 14 000 metros quadrados de área construída. Houve fartura de dinheiro nesse mesmo período para estádios da Copa, Olimpíada, submarino nuclear, estaleiros, hidrelétricas na Amazônia, refinaria para petróleo venezuelano, obras na África e para os sempre distantes conjuntos habitacionais do Minha casa, minha vida (quase todas essas iniciativas favorecendo as mesmas empreiteiras de sempre).

Antiga sede da Companhia Brasileira de Vidro, o edifício Wilton Paes de Almeida foi projetado em 1961 pelo grande arquiteto sírio-brasileiro Roger Zmekhol (1928-1976). A família escapou da perseguição aos cristãos na Síria e o pequeno Roger nasceu em Paris. Ainda criança, vieram para o Brasil. Ele se formou na primeira turma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Sua obra mais famosa, pioneira no uso da pele de vidro e aclamada pela modernidade então, virou vítima do jogo de empurra burocrático nesses anos de abandono.

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(Reprodução/Veja SP)

 

Surgiram projetos fracassados para transferi-lo ao Sesc, a uma ONG francesa, à prefeitura, a uma universidade. Tudo naquela velocidade vertiginosa da administração pública. Invasões e despejos se seguiram. A arrastada transferência para a prefeitura estava quase sacramentada.

Governos federal, estadual e municipal são donos de milhares de imóveis. Não têm vontade ou expertise para saber o que fazer com eles. As burocracias responsáveis por esse patrimônio parecem não ter muita pressa ou vontade de lhes dar novo uso _e perder, assim, o poder que têm ao mandar _ e dormir em cima _ dessas fortunas.

Porém, o prédio que caiu até foi a leilão no final de 2015, por determinação do então ministro Nelson Barbosa, ainda na gestão Dilma. O governo pedia 21,5 milhões de reais por ele. Não apareceu nenhum interessado. A reforma do prédio deteriorado custaria o dobro desse valor, elevando o valor do investimento para mais de 60 milhões. Ou mais? Uma construção nova custaria menos.

Por que o governo, então, pediu um valor tão alto? Quando escrevi sobre o assunto, fontes na administração federal me confidenciaram que “quem avalia o imóvel para leilão não quer ser processado no futuro por ter subavaliado um bem federal”. Com medo de algum processo futuro, colocaram o preço nas alturas. E, assim, o edifício envidraçado continuou no abandono.

A tragédia no Paissandu, com número de vítimas ainda a ser calculado, também pede um debate maior sobre a estratégia dos movimentos de moradia, que ocuparam por anos o tal prédio sinistrado. A pressão que os movimentos exercem nos governos jamais deve preceder a segurança dos integrantes dos mesmos. Há diversos prédios ocupados que, basta checar a olho nu, têm fiação irregular, botijões de gás espalhados, ausências de rotas de fuga e extintores. As ocupações de caráter temporário têm se tornado permanentes. Outras tragédias assim podem acontecer. Falar que a “culpa é do governo” não vai salvar essas vidas.