Lula e Lampião

Lula não é o primeiro bandido que conquista o coração do povo brasileiro. Lampião já trilhou este caminho e, no livro “O outro olho de Lampião”, de Arthur Aymoré, podemos ver o papel que a imprensa , principalmente em São Paulo e Rio, teve na construção da narrativa que transformava Lampião em um tipo de Robin Hood do sertão brasileiro.

Enquanto os jornais nordestinos trataram Lampião e seu bando como mais um grupo de bandidos do sertão, veículos do sudeste romantizavam, construíam uma narrativa de luta com viés social, uma revolta do sertanejo faminto e injustiçado frente à prepotência dos coronéis que dominavam a política nordestina.

Deste choque de narrativas, construiu-se o mito.

Se era verdade (ainda é?) que a política da região era dominada pelos “coronéis” de forma violenta e arbitrária, não eram menos verdadeiros os crimes de Lampião e seu bando.

Não é difícil observar as semelhanças com a cobertura que assistimos no caso Lula.

Parte importante dos formadores de opinião são simpáticos à esquerda e, mesmo atropelando os fatos, colaboram para a construção de Lula não como um “bom bandido”, o que já seria falso, mas como inocente e injustiçado.

Este desprezo pelos fatos e pela ética perpassa também grande parte dos intelectuais que ocupam as universidades brasileiras, contribuindo para espalhar a mitologia mundo afora.

Desde antes de sua prisão, há uma campanha incessante destes militantes das universidades em conjunto com o PT e seus satélites para transformá-lo em mártir, em herói do povo brasileiro.

Lula é, sem dúvida, um dos mais inteligentes e habilidosos políticos que o Brasil já conheceu. Quem o vê como semianalfabeto e preguiçoso para a leitura não o conhece e o subestima. Talvez seja verdade que não gosta de ler, algo de que  tenho dúvidas, mas em sua convivência com diversos intelectuais (que talvez tenham imaginado poder controla-lo), absorveu vasto conhecimento que alimenta sua capacidade de discorrer sobre diversos assuntos com desenvoltura e dizer exatamente o que os interlocutores desejam ouvir. Depois, faz o que queria e convence seus interlocutores de que foi melhor assim.

Este populista de rara habilidade transformou a si, seus amigos e familiares em milionários, ajudou a multiplicar os lucros de empresas como JBS, OAS e Odebrecht (para ficar nas mais evidentes), montou um mega esquema de corrupção para, como lembrou Cesar Benjamin, ocupar as instituições da República para usá-las, miná-las e enfraquecê-las em nome de uma missão histórica que a esquerda se atribui.

Em nome desta missão, tudo é perdoado, distorcido, manipulado.

Assim nasceram as narrativas do “Golpe de 2016”, da inocência de Lula e da superioridade moral da esquerda.

É a mentira como método.

 

Artigo de Paulo Falcão.