Guernica - Picasso

O tema tolerância/intolerância não é novo neste blog, mas continua oportuno.

Sidney Silveira faz uma breve e importante reflexão sobre a questão em artigo publicado no blog O Universitário.

De maneira sucinta, aborda o assunto de forma provocativa e encerra com uma citação crítica da famosa pichação de maio de 1968 na França, logo transformada em canção por Caetano Veloso: “É Proibido Proibir”.

Embora o lema tenha um inequívoco apelo libertário, sempre me pareceu equivocado.

Por outro lado, incorporado à canção e ao discurso furioso de Caetano, tornou-se sedutor e ocupa lugar de destaque em minha memória afetiva (sim, somos também nossas contradições).

Outra lembrança inevitável foi o paradoxo da tolerância, do filósofo Karl Popper em 1945, logo após a tragédia do nazismo: “tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.”

Certamente não é tema fácil, mas com certeza necessário na algaravia de ódios que parece nos cercar.

 

Introdução por Paulo Falcão.

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O CANIBALISMO MORAL DOS TOLERANTES

Abril 2, 2018  |  Por Bruno Mendes

Por Sidney Silveira

Canibalismo moral

Só se tolera o que não é bom, e isto circunstancialmente, seja para evitar um mal maior, seja em ordem a um bem mais valioso. Assim, por exemplo, podemos tolerar os defeitos de um amigo para manter a amizade, do cônjuge para não se desfazer o casamento e os nossos próprios para não enlouquecermos, por excesso de escrúpulos.

Tolerância não é algo que se ostente, pois além de tudo não é sequer princípio moral.

A tolerância será boa apenas quando estiver conformada pela virtude da prudência. Em todos os demais casos ela é falha grave ou gravíssima, razão por que tem comumente outros nomes: tolerar o vício é permissividade; tolerar a mentira, cumplicidade; tolerar a maldade, covardia; tolerar o erro, estupidez; tolerar a tirania, suicídio político; tolerar a louvação da mediocridade, assassinato civilizacional.

Apresentar-se como tolerante é velhacaria típica do caráter sucumbido ao espírito de rebanho. O balido dos tolerantes autoproclamados é, pois, o das ovelhas carnívoras prontas a canibalizar quem não adere ao seu grupo.

A intolerância, por sua vez, será boa sempre que representar a adesão a princípios inegociáveis: a verdade, o bem, a beleza moral…

O mundo que quer enfiar a tolerância goela abaixo de todos, como se ela fora dever moral, tem um nome: inferno. Esta é a mais terrível maneira de ser intolerante.

Onde é proibido proibir, impera o mal.

 

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