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O Brasil atravessa um período conturbado, principalmente na política e no judiciário aparelhado.

Há uma insatisfação clara com a impunidade de tantos larápios de colarinho branco.

No centro deste teatro do absurdo estão Lula e o PT, que construíram tijolo a tijolo a crise econômica que gerou o desemprego recorde, os esquemas de corrupção para deturpar a democracia e o aparelhamento cada vez mais evidente do STF.

Não são os únicos bandidos da história, mas são os personagens principais.

Em meio a esta tensão densa, que ameaça trazer para a cena até mesmo os militares (para sepultar a democracia que luta para sobreviver), não me arrisco a previsões, mas endosso o artigo abaixo de Augusto de Franco.

 

Introdução de Paulo Falcão.

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AS RUAS FALARAM E DEVEM CONTINUAR FALANDO POIS AGORA NÃO HÁ MAIS OUTRA SAÍDA: OU AS RUAS, OU AS RUAS

por Augusto de Franco04/04/2018, 11:47

Publiquei ontem (03/04) no Facebook, antes das manifestações de rua contra a impunidade (e pela prisão de Lula) em dezenas de cidades do Brasil, que:

Um tribunal não deve se vergar ao alarido da turbamulta. Do contrário a lei seria violada segundo os interesses de grupos mais mobilizados.

Mas se um tribunal afronta um sentimento generalizado de revolta com a impunidade, seus membros não poderão reclamar da consequente rejeição social de que serão vítimas.

A dinâmica da manifestação de hoje – tenha muita ou pouca gente – é uma espécie de termômetro da opinião pública. Se o caráter militante e industriado não prevalecer e sim a indignação das pessoas comuns, isso será um sinal de que a opinião pública não está mais disposta a aceitar os arranjos escusos para manter a situação atual, mesmo que sob o argumento de cumprimento da letra fria da lei.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. E quem tem juízo, pense bem no que está disposto a fazer. O casuísmo para soltar Lula e todos os condenados em segunda instância enterrará, na prática, os esforços dos últimos anos para acabar com a impunidade. Não será apenas o fim da Lava Jato, como proclama sua força-tarefa e sim um balde de água fria nas esperanças de milhões de brasileiros. Aumentará a polarização na sociedade e favorecerá os extremos à esquerda e à direita. Lula impune e com autorização do STF para fazer campanha eleitoral significará, objetivamente, um reforço à campanha de Bolsonaro. Os democratas serão engolidos pela radicalização que virá. Um tribunal que, diga-se o que se quiser dizer, julga sempre politicamente, não pode ser tão irresponsável. Depois não reclamem das consequências.

Pois bem. As manifestações aconteceram. As ruas falaram. Mas é preciso entender bem a expressão “as ruas”. Já tentei explicar no artigo O que são “as ruas”.

A parte fundamental da nota que publiquei ontem no Facebook é a seguinte:

A dinâmica da manifestação de hoje – tenha muita ou pouca gente – é uma espécie de termômetro da opinião pública. Se o caráter militante e industriado não prevalecer e sim a indignação das pessoas comuns, isso será um sinal de que a opinião pública não está mais disposta a aceitar os arranjos escusos para manter a situação atual, mesmo que sob o argumento de cumprimento da letra fria da lei.

A manifestação de ontem (3/4) não teve pouca gente. Foi, aliás, bastante expressiva, sobretudo depois de um período de calmaria social. A última grande manifestação ocorreu em 13 de março de 2016, pelo impeachment de Dilma. Ou seja, há dois anos. Depois disso prevaleceu a dinâmica de guerra entre grupos militantes, que não conseguiam juntar quase ninguém.

Essa conversa de que a manifestação de ontem foi mal-sucedida porque foi menor do que a última, não cola. Uma manifestação não pode ter a obrigação de ser maior do que a anterior para ser bem-sucedida. Do contrário todas as manifestações seriam mal-sucedidas depois do grande swarming de 30 de julho de 2013, que levou às ruas de todas as cidades do Egito mais de 20 milhões de pessoas (num país de 80 milhões de habitantes) e que foi decisiva para a deposição do jihadista eleito da Irmandade Muçulmana Mohamed Morsi. Qual a manifestação – em qualquer época ou lugar do mundo – que conseguirá levar uma pessoa de cada residência de um país? A coisa não funciona assim.

O mais notável de ontem (3/4) é que – ainda que tenha sido convocada por grupos organizados, com seus carros de som e toda a parafernália antiga (eles não aprendem) – nela não prevaleceu o caráter militante e industriado e sim a participação das pessoas comuns. Quem compareceu deve ter notado que a vibe era bem diferente daquela característica dos protestos de arrebanhados, acarreados (e, às vezes, alugados) por forças organizadas ditas de direita ou de esquerda.

A despeito disso tudo, as expectativas para a votação de hoje no STF (sobre o Habeas Corpus de Lula) não são favoráveis. A corte suprema (duas palavras inadequadas, de vez que vivemos numa democracia onde não deveriam caber mais ‘cortes’ e onde ‘suprema’ só pode ser a lei e não um colegiado de sacerdotes) é opaca à opinião pública. Tem sua própria lógica de casta e serve – a pretexto de interpretar as leis – sempre a interesses políticos bem definidos. A maior parte do STF é composta por petistas e progressistas pró-esquerdistas. Outra parte é composta por garantistas, legalistas e literalistas. Não sobra quase ninguém com coragem para afrontar o “consenso” formado pelo alto, a não ser um ou outro carreirista (via-de-regra também esquerdista, como Barroso). Ou seja, mesmo os que vão votar contra o Habeas Corpus de Lula, não são confiáveis, a começar da presidente da corte.

O pronunciamento de Carmen Lúcia anteontem, justamente na véspera do 3/4, foi inacreditável. Além das platitudes (ou seja, do blá-blá-blá que já a caracteriza como mente vazia) ela insinuou que estamos correndo perigo diante da radicalização. Mas por acaso alguém que apoiou as manifestações de ontem estava propondo a violência, a intolerância ideológica, o sectarismo? O momento foi pessimamente escolhido. Objetivamente, sua fala foi uma espécie de aviso contra a política praticada legitimamente pela sociedade. É como se dissesse: não façam onda porque isso é perigoso para as instituições. Fiquem em casa e acreditem em nós, que somos os legítimos operadores.

Se o STF fizer o que está anunciado para hoje, não restará às pessoas senão voltar às ruas. Depois de amanhã (no 5/4) ou em qualquer data próxima. Com muita ou pouca gente é a única alternativa dos que não querem o acordão da impunidade e a volta de Lula e do PT ao governo.

Agora não há mais outra saída: ou as ruas, ou as ruas.

 

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