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Cesar Benjamin é hoje secretário de educação do Rio de Janeiro (a cidade, não o estado) onde vem realizando um trabalho dedicado e competente.

É também um intelectual ativo, tradutor, editor e profundo conhecedor dos bastidores da política brasileira.

Já foi muito admirado por isto, mas, depois que resolveu fazer publicamente as críticas que fazia de forma privada, ganhou uma legião de críticos.

Republico abaixo um texto seu, de agosto de 2015, em que faz uma breve reflexão sobre sua relação com o governo Lula quando o Petrolão veio à luz no início da operação Lava-jato.

Embora certamente as questões Lula e PT sejam, para a maioria, os pontos mais salientes, para mim o que chamou a atenção foi este parágrafo:

“A reflexão de fundo, que todos devemos fazer, é sobre a relação entre a esquerda e a República. As instituições da República devem ser ocupadas para serem usadas, minadas e enfraquecidas em nome de uma missão histórica que a esquerda se atribui, ou elas devem ser fortalecidas? É possível ser socialista sem ser republicano?”

De certa maneira, é o tema central deste blog. Há diversos artigos em que a questão “ser de esquerda” é colocada e desenvolvida. Talvez o que sintetize melhor o tema, no sentido que enxergo aqui, é quando abordo o assunto a partir de uma definição de Deleuze.

Minha conclusão é que todo aquele que tem a democracia republicana como valor fundamental já não é de esquerda. Socialismo e Democracia, do ponto de vista conceitual, são mutuamente excludentes.

O parágrafo que destaquei também é um indício de que o bolivarianismo no governo Lula foi mais forte do que se imaginava e nele as instituições da República foram de fato ocupadas, usadas, minadas e enfraquecidas “em nome de uma missão histórica que a esquerda se atribui”.

Se hoje este debate parece um tanto supérfluo em meio ao mar de corrupção e aparelhamento em que o Brasil está mergulhado, tenha certeza que não é.

Trata-se de um ponto fundamental para quem não deseja ceder ao arbítrio, seja de esquerda ou de direita.

Fiquem com a publicação de Cesar Benjamin.

 

Introdução de Paulo Falcão.

P.S – Marcus Vinicius republicou este artigo e acrescentou uma contribuição que o complementa bem:

“Nada será como antes e não voltaremos a repetir os erros. Seguramente, voltaremos com um giro à esquerda para fazer as reformas que não fizemos na renda, riqueza, poder, a tributária, a bancária, a urbana e a política. Não se iludam vocês e os nossos. Não há caminho de volta. Quem rompeu o pacto que assuma as consequências.”
( José Dirceu )

Subestimar o que está em curso é se recusar a ver a gravidade do problema. É uma espécie de negação à empatia com os irmãos venezuelanos.

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Cesar Benjamin

5 de agosto de 2015

Vários amigos pedem minha opinião sobre os desdobramentos recentes da Operação Lava Jato. Tenho pouco a dizer. Divergi e critiquei Lula e José Dirceu – primeiro em reuniões, depois publicamente — quando eles estavam no auge de seu poder. Não me sinto inclinado a bater neles agora, quando estão caindo.

A reflexão de fundo, que todos devemos fazer, é sobre a relação entre a esquerda e a República. As instituições da República devem ser ocupadas para serem usadas, minadas e enfraquecidas em nome de uma missão histórica que a esquerda se atribui, ou elas devem ser fortalecidas? É possível ser socialista sem ser republicano?

Foi esse o pano de fundo do meu debate com o grupo de Lula e José Dirceu, ainda no PT, anos atrás. Eles venceram. O partido entendeu rapidamente qual era a nova orientação. Eu saí para preservar a minha história.

Cumpre-se, agora, a minha profecia de então: “O lulismo produzirá a maior derrota da esquerda brasileira em sua história.” Os que me conhecem pessoalmente já ouviram essa frase diversas vezes, mesmo quando Lula era um presidente excepcionalmente popular. Sempre afirmei que depois do ciclo de poder do lulismo teríamos uma sociedade muito mais conservadora.

Fui chamado de tudo, desde rancoroso até psicopata. Infelizmente, eu tinha razão.

Abraços. César Benjamin

 

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