FAKE NEWS2

Dia 13 de março publiquei um artigo sobre a necessidade de saber identificar e separar as mídias e analistas que têm opinião, mas são isentas, daquelas que demonstram clara falta de ética e manipulação da opinião pública, mudando os critérios de análise de acordo com a conveniência político-ideológica.

Propus separar o joio do trigo observando como trataram dois temas bastante emblemáticos: os impeachments de Collor e Dilma e as amantes de FHC e Lula.

Um novo episódio, no entanto, deve ser rapidamente acrescentado à esta lista, aumentando ainda mais a evidência de quem é ético e de quem é um picareta da comunicação: a tal “pesquisa da USP” com o ranking dos sites de notícias falsas.

A matéria abaixo, publicada na Folha, tem como autores Marcio Moretto e Pablo Ortellado, professores na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo e coordenadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital.

Nela, os autores esclarecem que um simples levantamento informal que fizeram, que se concentrou exclusivamente em publicações consideradas à direita no espectro político e que não tinham autoria identificada, foi transformado num ranking de notícias falsas, ao mesmo tempo que o grupo de pesquisa da USP, que era apenas a fonte de um levantamento preliminar, virou a instituição responsável pela pesquisa.

Não vou nem entrar no mérito dos pesquisadores terem monitorado apenas publicações “de direita”. Uma vez que tiveram o cuidado de esclarecer publicamente o embuste em que espertalhões transformaram o episódio, demonstraram um comportamento ético.

Voltemos às publicações. Repare que as mídias e os analistas que espalharam a falsa pesquisa com estardalhaço e sem qualquer checagem são as mesmas que agiram com duplo critério (e por tanto, sem ética) nos episódios dos impeachments e das amantes.

Como já disse no artigo anterior, quem usa duplo critério e falsifica a realidade deprecia a democracia e não merece ser levado a sério.

Felizmente, os três episódios acima acendem um grande luminoso sobre a cabeça daqueles que não têm qualquer preocupação em informar a opinião pública e pretendem apenas manipular seus leitores, ouvintes e espectadores.

Introdução de Paulo Falcão.

 

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ATÉ AUTORIDADES QUE FISCALIZAM DIFUSÃO DE FAKE NEWS ESTÃO SUJEITAS A SEREM ENGANADAS

Motor da difusão sobre notícia falsa de base de dados da USP foi a paixão política.

 

Por Marcio Moretto e Pablo Ortellado para a Folha de S.Paulo em 31 de março de 2018.

Fomos surpreendidos na última terça-feira (27) pela declaração do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de que havia aberto procedimento junto ao Ministério Público Eleitoral para que fosse “verificada a possível ocorrência de irregularidades apontadas nos estudos realizados pela FGV (Fundação Getulio Vargas) e pela USP (Universidade de São Paulo) sobre proliferação de notícias falsas na internet”.

Na condição dos pesquisadores responsáveis por essa suposta pesquisa da USP, gostaríamos de aproveitar a oportunidade para esclarecer que esse tão difundido estudo não passa de um grande mal-entendido que rapidamente se tornou uma espécie de “notícia falsa sobre notícias falsas”. Não existe um ranking dos maiores sites de notícias falsas feito pela USP ou com base em estudo da USP.

Mas explicar a origem do equívoco e o motivo de sua difusão é bastante esclarecedor sobre o fenômeno mais geral da difusão das notícias falsas.

Coordenamos em nosso grupo de pesquisa na USP o Monitor do Debate Político no Meio Digital, um projeto sobre a dinâmica de interação e compartilhamento de notícias políticas no Facebook. Coletamos todas as publicações de mais de 500 fontes que produzem todos os dias cerca de 5.000 notícias políticas.

Há pouco mais de um ano, a Aepps (Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo) fez um simples post no Facebook no qual selecionava, entre as fontes que listávamos, aquelas que escondiam quem eram os responsáveis, o que, na opinião deles, era indicativo de que contribuíam para a produção de notícias falsas.

Logo, um simples levantamento informal foi transformado num ranking. A falta de autoria ou de responsáveis, de indício, converteu-se em prova da produção de notícias falsas e o grupo de pesquisa da USP, que era apenas a fonte da qual os sites tinham sido recolhidos, virou a instituição responsável pela pesquisa.

Na mesma semana em que a associação fez o post, um site chamado Isso É Notícia repercutiu o suposto estudo, apresentando o ranking dos sites de notícias falsas que teriam sido identificados pela USP (depois modificado para “embasados por estudo da USP”) e a matéria recebeu milhares de compartilhamentos (são 139 mil até o momento).

A matéria é equivocada do começo ao fim. O levantamento não é baseado em estudo da USP, não é sobre notícias falsas, mas sobre sites que buscam esconder quem são os responsáveis e não diz que esses sites são os maiores, em qualquer sentido da palavra.

Depois disso, durante esse ano em que a notícia falsa vem circulando, muitos outros sites repercutiram a história (pelo menos outros seis, somando mais de 220 mil compartilhamentos).

Vale a pena entender por que essa “notícia falsa sobre notícias falsas” repercutiu tanto até chegar ao TSE. Seu mecanismo de propagação mostra de maneira didática como se difundem as notícias falsas.

O principal ponto é notar que o levantamento original (depois modificado pela associação) listava apenas sites de direita e a matéria equivocada que o repercutiu concluía que o principal difusor de notícias falsas era o MBL, movimento liberal que é antagonizado pela esquerda. Com isso, a matéria se tornou uma poderosa arma política na guerra de informação entre os dois campos polarizados. A mensagem subjacente era a de que a direita é desonesta e é a maior produtora de notícias falsas.

O Monitor fez inúmeras notas desmentindo o suposto estudo, assim como a Aepps. Apesar disso, durante todo esse período, centenas de perfis e páginas influentes de professores, jornalistas e políticos do Congresso difundiram a notícia. O motor da difusão, neste, como noutros casos, é a paixão política.
É porque as pessoas de esquerda já estão tão convictas de que a direita é desonesta que uma matéria completamente distorcida e falsa pode irrefletidamente ser tratada como se fosse verdadeira e passada adiante na dinâmica de combate das mídias sociais. Se o conteúdo do suposto ranking fosse misto com sites de esquerda e de direita, jamais teria tido o alcance que teve.

A difusão dessa notícia falsa nos traz outro ensinamento: ninguém está a salvo e até mesmo as autoridades encarregadas de fiscalizar a difusão de notícias falsas estão sujeitas a serem enganadas.

 

 

Marcio Moretto e Pablo Ortellado, professores na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, coordenam o Monitor do Debate Político no Meio Digital

 

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