Por-que-do-privilégio

Um país melhor e mais racional passa pelas urnas e pela capacidade de cada um de nós para discutir de forma clara o país que desejamos construir.

Passa também por estabelecer objetivos factíveis e o tempo necessário para alcança-los.

O artigo abaixo, do candidato à presidência do Partido Novo, João Amoedo, traz alguns objetivos com os quais concordo, que acredito factíveis, mas omite o tempo necessário para ver acontecer o que prega.

Algumas medidas seriam mais simples, como a redução dos gastos da presidência da república. Dependeriam basicamente do próprio presidente.

As demais esbarram em direitos adquiridos e um emaranhado jurídico e corporativo que demandaria muitos anos para se realizarem.

Ok, o importante é dar o primeiro passo e continuar caminhando na direção dos objetivos, mas se não estiver claro que, na melhor das hipóteses, se tudo correr bem, durante duas ou três décadas ainda conviveremos com uma casta de funcionários públicos privilegiados, o apoio da população à quem empunhou esta bandeira vai declinar, abrindo novamente as portas para aqueles que desejam deixar tudo como está.

Independente dele ser um candidato viável ou não (evidentemente não é), trata de pontos que deveriam ser seriamente discutidos pelos eleitores e os demais candidatos.

Fique com o artigo de João Amoedo para O Globo.

 

Introdução de Paulo Falcão.

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PAÍS DOS PRIVILÉGIOS

Brasil tira dos mais pobres para dar aos mais ricos

 

POR JOÃO DIONÍSIO AMOEDO

10/03/2018 0:00

 

Faz sentido o Brasil gastar com a Presidência da República R$ 564 milhões por ano, 60% a mais do que o Reino Unido desembolsa com a monarquia? Certamente não, e o problema não para por aí. O Congresso custa hoje, incluindo todos os assessores, as verbas de gabinete e os diversos auxílios, R$ 29 milhões por dia.

Na magistratura, 71% dos juízes recebem acima do teto constitucional de R$ 33 mil. Dos mais de 16 mil juízes e desembargadores dos Tribunais de Justiça, 11,6 mil ultrapassaram o teto. A remuneração média desse grupo foi de R$ 42,5 mil.

O Brasil não aguenta mais arcar com esse Estado de bem-estar para uma minoria privilegiada, enquanto o restante da população trabalha 153 dias para sustentá-lo. É auxílio para quem menos precisa, privilégios para quem menos merece e impostos para quem mais trabalha.

O Estado brasileiro virou um Robin Hood às avessas: tira dos mais pobres para dar aos mais ricos. Faz isso quando remunera mal o FGTS do trabalhador e empresta a taxas baixas para grandes empresas, quando provê uma aposentadoria média de R$ 1.200 para o empregado do setor privado enquanto o do setor público recebe R$ 7.500 e quando retira recursos da saúde e da educação para emprestar para partidos políticos fazerem propaganda eleitoral.

Abriu-se um abismo entre a classe privilegiada e a classe desacreditada. O último Índice de Confiança na Justiça produzido pela Fundação Getulio Vargas em 2017 mostrou queda de confiança em todas as instituições públicas. Na lanterna da credibilidade ficaram o Poder Executivo, com 7% de confiança, os partidos políticos (7%) e o Congresso Nacional (6%). Até o Poder Judiciário caiu dez pontos nos últimos quatro anos, passando dos 34%, em 2013, para 24%, em 2017.

O povo está correto em desconfiar da classe política. Afinal, os discursos que ouvem estão desconectados da prática que enxergam. Ninguém aguenta mais ver a máquina pública e o dinheiro dos nossos impostos sendo utilizados para oferecer tratamento VIP à classe governante.

A responsabilidade da mudança está em nossas mãos. A única forma, democrática e republicana, que temos para reverter este quadro é renovar a classe política. E a ferramenta para a mudança é o nosso voto.

Aqueles que de fato querem o bem da nação, que colocam o bem público à frente do interesse particular, devem começar dando exemplo. A próxima geração de parlamentares deve se comprometer a cortar suas verbas pela metade, aprovar o fim do foro privilegiado e, se indicados a um cargo no Executivo, renunciar ao próprio mandato. O próximo presidente da República deve enxugar ministérios e secretarias e cortar pela metade os gastos da Presidência.

Não vamos derrotar as benesses sem uma ampla renovação política. Precisamos fazer escolhas não só pelos discursos, mas pelas práticas e pelo respeito ao dinheiro do pagador de impostos. Precisamos lembrar que elegeremos funcionários públicos, e não uma casta de privilegiados.

 

João Dionísio Amoedo é pré-candidato à Presidência pelo Partido Novo

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