BC

O PT sempre foi um crítico do Plano Real. Para mim, pessoalmente, este foi o momento de ruptura com o partido. Quando percebi que não conseguiam enxergar a complexidade e os benefícios daquele conjunto de medidas, ficou claro que tinham dificuldades sérias para compreender o funcionamento da economia.

A “Carta aos Brasileiros” foi um gesto político (e talvez um pedido de desculpas com 8 anos de atraso), mas é fundamental lembrar que parte significativa dos “economistas” do PT nunca se conformou com isto.

Como já disse em outro artigo, é conveniente recordar que “quando o Plano Real foi implantado, para vencer a hiperinflação, algumas ações complementares fundamentais e menos badaladas foram realizadas, como a proibição de bancos municipais ou estaduais financiarem seus próprios governos, a renegociação das dívidas de estados e municípios e a introdução da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Naquele momento, as administrações estaduais e municipais apostavam no contínuo aumento da dívida e gastavam como se não houvesse amanhã. Era, literalmente, uma insanidade. Muitos estados já estavam tecnicamente quebrados.

O chamado Plano Real foi, assim, um grande esforço para criar parâmetros de racionalidade no uso do dinheiro público, que é finito e não é (ou não deveria ser) de quem chegar primeiro, nem de quem gritar mais alto ou de quem pagar a maior comissão.

Os resultados foram excelentes, apesar dos protestos dos personagens de sempre.

Além de conseguir acabar com o “confisco inflacionário” (que chegou a 48% ao mês), algo perverso, que empobrece o trabalhador, ainda permitiu iniciar uma valorização do salário mínimo, algo de imenso impacto na economia Brasileira.

Nos oito anos de governo FHC o salário mínimo teve valorização real (descontada a inflação, pelo IPCA), de 85,04%. Para efeito de comparação, nos mesmos oito anos de Lula o aumento foi de 98,32%, conta 17,54% nos 5 anos de Dilma.

Visto em perspectiva, foi o Plano Real, como seu conjunto de ações voltadas para a redução dos gastos públicos e para a responsabilidade fiscal que criou as bases de várias políticas públicas importantes, como a universalização da educação básica, a elevação do salário mínimo, o controle da inflação e as políticas de bolsas unificadas posteriormente no Bolsa Família.

Esta racionalidade foi razoavelmente mantida no primeiro mandato de Lula, que fez um bom governo até 2008, quando entrou em cena a contabilidade criativa e o abandono sistemático da transparência das contas públicas, do controle da inflação e da dívida pública.

Esta mesma insanidade acometeu governos estaduais e municipais dos mais diversos partidos. Ao invés de compreender a importância da Lei de Responsabilidade Fiscal, buscou-se formas de driblá-la.

Neste ponto é preciso reconhecer: na grande maioria dos estados e municípios brasileiros não existem muitas tensões ideológicas, não existe uma disputa ou confronto do tipo direita X esquerda. Existe um exercício predatório e irresponsável do poder.”

Mas se Lula manteve o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit fiscal primário em seu primeiro mandato, em 2008, com a crise global, aqueles que sempre viram este tripé como desnecessário convenceram Lula a abandoná-lo. Foi onde o desastre começou a ser gestado.

Se as políticas anticíclicas de inspiração keynesiana podem trazer benefícios, é preciso lembrar que precisam ser por tempo limitado e não podem levar a um desequilíbrio fiscal ou econômico.

Como nos lembra Amilton Aquino, os incentivos do governo a setores específicos da economia geram um crescimento artificialmente acelerado no início, mas aos poucos as distorções aparecem, como tão bem descreve a teoria dos ciclos econômicos da Escola Austríaca.

“Assim os ganhos de curto prazo são substituídos por graves consequências de longo prazo que roubam o potencial de crescimento do futuro e jogam os países que mergulham em tais experiências na combinação fatídica de estagflação – recessão com inflação, dois fenômenos que deveriam ser contraditórios, mas que o keynesianismo tornou possível, conforme previu Hayek ainda nos anos 60”.

A meu ver, Hayek procura compreender como a economia funciona e alerta para os riscos das interferências, mesmo as bem-intencionadas.

Já os keynesianos parecem imaginar que podem idealizar o funcionamento da economia e mudar sua natureza. Em alguns casos, como podemos observar na posição de Sraffa no artigo reproduzido abaixo, há um sotaque inconfundível de militante marxista. Para quem já acompanhou de perto a gestão financeira de uma empresa, não será difícil observar a terra do nunca que norteia suas ideias.

O duelo entre as teses de Hayek e de Keynes teve um palco interessante no Brasil.

Os resultados do keynesianismo podem ser observados de perto e de forma dramática nos três últimos anos do governo Dilma, com inflação crescente, recessão persistente e desemprego de 12 milhões de pessoas no momento em que sofreu o impeachment –  exatamente como previa Hayek.

Hoje, seguindo um modelo mais ortodoxo, mais próximo da Escola Austríaca, vemos inflação na menor taxa dos últimos 20 anos e economia voltando a crescer.

Milagre? Não. Inclusive a recuperação poderia ter sido pilotada por Dilma.

Em 2014, uma semana após sua reeleição, escrevi:

“Se Dilma abandonar a cartilha do PT e colocar gente que o mercado reconheça como competente à frente da economia, tudo vai se acalmar. Se insistir nos imodestos companheiros e neste script para o desastre, a vida dos brasileiros será cada vez mais um inferno. O demônio da economia não aceita desaforos por muito tempo.”

A então Presidente até ensaiou fazer o certo ao nomear Joaquim Levy para a Fazenda, mas qualquer benefício desta nomeação se perdeu quando a Presidente e o PT passaram a boicotar abertamente as propostas de Levy para tirar a economia do atoleiro.

A importância desta reflexão é entender que a crise no Brasil foi resultado de má-gestão e má compreensão dos limites de políticas anticíclicas. Mesmo que fossem todos honestíssimos, o desastre seria semelhante.

Não compreender isto é permitir que se repita.

 

Introdução por Paulo Falcão.

PS – Na área de comentários do blog Cidadania & Cultura, há uma troca de mensagens entre Fernando Nogueira da Costa  e eu que julguei necessária ser acrescida aqui. Apesar de Fernando Nogueira da Costa iniciar um tanto fora do tom, o debate se tornou mais técnico e interessante.

 

  1. Questões Relevantes

02/03/2018 às 21:23

A meu ver, Hayek procura compreender como a economia funciona e alerta para os riscos das interferências, mesmo as bem-intencionadas.

Já os keynesianos parecem imaginar que podem idealizar o funcionamento da economia e mudar sua natureza. Em alguns casos, como se pode observar na posição de Sraffa, há um sotaque inconfundível de militante marxista. Para quem já acompanhou de perto a gestão financeira de uma empresa, não é difícil observar a terra do nunca que norteia suas ideias.

 

2. Fernando Nogueira da Costa

04/03/2018 às 17:44

Prezado Paulo Falcão,
minha opinião é contrária à sua. A idealização da ordem espontânea de um equilíbrio para a economia de mercado não tem nenhum fundamento empírico.

A história revela que o Estado é necessário para regular e reorientar a economia de mercado quando ela entra em depressão. Os gastos públicos têm de substituir os gastos privados quando estes se retraem.

Quem já trabalhou em gestão financeira de empresas não pode se equivocar com o individualismo metodológico sob o risco de cair em sofisma de composição. O que é verdade para as partes não se confirma necessariamente no nível do sistema econômico.

A visão macroeconômica holística que distingue o conhecimento de economista bem formado em relação à visão microeconômica dos empresários.
att.

PS: quanto ao seu comentário sobre o “sotaque inconfundível de militante marxista”, além de ser equivocado, demonstra o sotaque inconfundível de militante direitista intolerante com ideias alheias…

 

3. Questões Relevantes

04/03/2018 às 22:16

Prezado Fernando, Hayek não se opõe à existência ou necessidade do estado, mas é contra um estado com poder discricionário que privilegie setores, gerando desequilíbrios.

Quanto ao sotaque de militante marxista de Sraffa, observe, por exemplo, quando diz que “Uma classe, por um tempo, roubou outra classe de parte de suas rendas; e poupou o saque. Quando o roubo chega ao fim, fica claro que a vítima não pode, de forma alguma, consumir o capital que agora está bem fora de seu alcance.”
Isto, antes de ser uma má leitura da economia (que foi desmentida pelos fatos), é uma leitura grosseira do conceito da Luta de Classes.

Depois, quando Sraffa diz que, durante o período em que capital adicional não sustentado por poupança estivesse disponível, “os fabricantes ganhariam bastante para pôr dinheiro de lado para pagar o juro sobre o capital adicional quando sua reserva chegasse ao fim”, revela que não tem a menor noção de como operam as empresas e tem uma mentalidade de controle estatal da economia. Na prática, as empresas privadas que aumentaram seus lucros em um período favorável, ao menor sinal de crise fazem todos os cortes e ajustes necessários para manterem-se lucrativas, algo que também ficou bastante claro na crise fabricada pela dupla Lula & Dilma.

Espero que tenha ficado claro.

 

4. Fernando Nogueira da Costa

05/03/2018 às 19:57

Já estava claro que se tratava da visão direitista equivocada de sempre…

Crise fabricada pela dupla Lula & Dilma?! Não se engane! Não brigue contra os fatos e os números! Senão não há nenhuma base para um diálogo frutífero!

O que não consigo entender é a razão desse discurso de ódio contra os governos que tiveram os melhores resultados socioeconômicos. Por que?

Não necessita me responder porque deve ser algo da esfera privada. Talvez seja algum problema psicológico e emocional, de natureza pessoal, sob a aparência de ser apenas ideológico.

 

5. Questões Relevantes

05/03/2018 às 20:09

Apenas para constar: considero a gestão de Lula muito boa até 2008, quando abandona os fundamentos do Plano Real e embarca na aventura keynesiana para muito além do razoável. Quando Dilma assumiu, levou esta política ao paroxismo, com doses de intervenções discricionárias.

Esta é a origem da crise atual. Negar isto é como negar a relação entre o sexo e o parto.

 

6. Fernando Nogueira da Costa

06/03/2018 às 8:56

Prezado Paulo Falcão,
fui testemunho ocular até meados de 2007. Na montagem da base governista para o segundo mandato do Lula, por causa do “mensalão”, o PT se aliou com o “emedebismo”. Aí, danou. Por exemplo, Moreira Franco, Geddel e Fábio Cleto, entre outros da mesma laia, entraram no CD da Caixa. Obviamente, eu não combinaria com esse tipo de gente. Saí para dar lugar a pessoas com reputação duvidosa.

Discordo de sua análise, pois contém um erro de pensamento: quanto mais pessoas acham uma ideia correta, mais correta essa ideia será — o que, naturalmente, é absurdo. Essa narrativa histórica é falseada pela mudança de contexto que fica fora da sua análise.

Falar de 2008 sem citar a crise mundial é uma visão muito parcial. E a economia brasileira foi uma das que se saíram melhor até a explosão da bolha de commodities em setembro de 2011. Depois, a partir de meados de 2012, veio também um período de 5 anos de seca e inflação de alimentos.

No ano fatídico de 2013, a “revolta dos 20 centavos” explodiu o armário onde tinha se colocado a direita no Brasil, desde a vergonhosa ditadura militar, ou seja, por quase trinta anos. As manifestações, em ano pré-eleitoral, assustaram a Presidenta e ela abriu mão da coordenação que exigia antes entre a política fiscal e a política monetária. Esta disparou novamente a alta desenfreada dos juros.

Essas acidentalidades ou “choques exógenos” têm de entrar na análise senão se incorre em outro erro de pensamento: organizar o caos de acidentes eventuais, em nosso passado recente, como fosse uma história com fio-condutor causal em função dos Presidentes da República. Queremos que nossa vida plena de casualidades forme uma sequência causal para que possamos a entender e seguir.

Outro erro é dizer “eu sempre soube disso”: do ponto de vista retrospectivo, tudo parece ter uma clara consequência necessária. Falácia do historiador é julgar o processo a partir do resultado, fazendo “profecia reversa”.
att.

 

7. Questões Relevantes

06/03/2018 às 11:47

Governos são complexos, mas algumas coisas são básicas, como o equilíbrio fiscal.

É possível carregar desequilíbrios por uma curva de tempo proporcional à confiança que o “mercado” deposita naquele governo específico.

Quando Lula começou sua política keynesiana, era razoável que o fizesse por 6 meses ou até um ano. A partir daí começaram a surgir os alertas. Dilma chutou o balde de vez e ainda desregulou o setor elétrico e inviabilizou o pró Álcool com o congelamento do preço da gasolina, que também prejudicou muito a Petrobrás.

Os desequilíbrios foram aumentando, com muita gente avisando sobre os problemas que estavam por vir.

Minha análise tem coerência tanto com a história quanto com postulados da boa gestão pública.

Aliás, caminhei estritamente sobre esta questão: a gestão econômica.

Evitei e continuo evitando qualquer análise sobre corrupção, aparelhamento, mensalão, petrolão etc.

Meu objetivo é a crítica racional de modelos que podem sim conviver, mas sem perder de vista o tripé macroeconômico metas de inflação, câmbio flutuante e superávit fiscal primário.

 

8. Fernando Nogueira da Costa

07/03/2018 às 12:49

Prezado Paulo Falcão,
em Economia não há princípios inalteráveis tipo um tripé macroeconômico eterno. Aprende-se que quando muda a conjuntura, altera-se a política econômica. Se há quatro instrumentos, uma análise combinatória demonstra que há pelo menos dezesseis possibilidades coerentes do uso deles de acordo com cada contexto.

Muitas vezes, o líder tem de fazer escolhas entre alternativas que têm custo de oportunidade, p.ex., controle de preços administrados para compensar alta da inflação de alimentos devido à seca. A Dilma e equipe econômica fizeram escolhas difíceis que na época foram louvadas até por O Mercado. Agora são endemoniadas com a fácil sabedoria ex-post.

Visto a posteriori, percebe-se a dificuldade reativa às mudanças. Políticas que foram acertadas em um momento deixam de ser logo depois.

Em post recente pesquisei dados de componentes da inflação para uma reflexão mais profunda sobre o período: LINK

att.

 

9. Questões Relevantes

10/03/2018 às 15:52

Fernando, particularmente me alinho com aqueles que foram críticos da orientação econômica do governo Lula a partir de 2008 e de Dilma desde sempre.

Minhas críticas não foram ex-post. Ao contrário. Aconteceram em tempo real.

Por exemplo, em 2014, uma semana após sua reeleição, escrevi um artigo que terminava assim:

“Se Dilma abandonar a cartilha do PT e colocar gente que o mercado reconheça como competente à frente da economia, tudo vai se acalmar. Se insistir nos imodestos companheiros e neste script para o desastre, a vida dos brasileiros será cada vez mais um inferno. O demônio da economia não aceita desaforos por muito tempo.”

Quanto à questão da inflação como desculpa para intervenções em preços administrados, veja que a intervenção de Dilma produziu estagflação. Já a política mais ortodoxa de Temer (algo que Levy havia proposto), reverteu a recessão e trouxe a inflação para o menor patamar em quase duas décadas.

Penso que a responsabilidade fiscal como valor republicano é algo que precisa ser cultivado no Brasil. No fim, é a responsabilidade fiscal quem garante a sustentabilidade das políticas sociais e da capacidade do governo atuar de forma mais efetiva nas áreas que são sua vocação natural: educação, saúde e segurança pública.

 

10. Fernando Nogueira da Costa

13/03/2018 às 8:55

Prezado Paulo,
não adianta mostrar dados para mudar sua opinião de que “a política mais ortodoxa de Temer (algo que Levy havia proposto), reverteu a recessão e trouxe a inflação para o menor patamar em quase duas décadas”.

“Reverteu a recessão” com crescimento da Agropecuária em 13%, Indústria 0% e Serviços 0,3%?!

“Trouxe a inflação para o menor patamar em quase duas décadas” porque a taxa de inflação de alimentos foi 4,65% em 2013, 3,35% em 2014, 3,50% em 2015, 4,65% em 2016, 0,24% em 2017?!

Ora, papai-do-céu mandou chuva e as safras foram boas… Provou que a overdose de juros foi um erro não neutro, para combater “quebra de oferta de alimentos”, pois levou a 14 milhões de desempregados e à maior concentração de riqueza financeira.

Sugiro não cultivar mitos em defesa da danosa política econômica de um governo que o povo odeia!
att.

 

11. Questões Relevantes

13/03/2018 às 10:42

Como disse, estou discutindo conceitos, não popularidade ou partido político.

Se houve uma regressão no preço dos alimentos, houve um forte aumento no preço dos combustíveis, o que afeta todos os custos de logística.

A explicação para a queda expressiva da inflação certamente não é a safra recorde, da mesma maneira que a alta da inflação pode ter sido influenciada pelos preços dos alimentos, mas contou com um conjunto de outros fatores que contribuiu para isso.

Existem algumas correntes de economistas que inclusive defendem que uma inflação mais alta pode ser benéfica para o crescimento da economia. Esta tese sempre termina em desastre, mas há quem a veja com bons olhos.

Quanto aos 14 milhões de desempregados, são herança do governo Dilma. Eram 12 e o número chegou a 14 enquanto se tentava reverter o quadro de estagflação.

Embora você tenha razão quanto ao impacto positivo do agronegócio na reversão da recessão, a indústria também começou a demonstrar alguma recuperação.

No setor de equipamentos para supermercados, por exemplo, até julho as encomendas tinham prazo médio de 45 dias. Em setembro este prazo já havia saltado para 60 a 75 dias.

O cenário ainda é de crise, mas os indicadores sinalizam que o pior já passou.

 

12. Fernando Nogueira da Costa

14/03/2018 às 12:02

Uma problema insolúvel neste debate é o argumento de que “14 milhões de desempregados são herança do governo Dilma”.

Na verdade, eu vejo a Era Social-Desenvolvimentista encerrada em 2014, quando a taxa de desemprego era de 6,5% na PNAD contínua. Na antiga PNAD era de 4,5%, a menor da história.

Para mim, a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015 foi um estelionato eleitoral, pois não se implementou o programa vitorioso nas urnas. Joaquim Levy foi uma imposição da casta dos mercadores equivocadamente aceita para evitar o golpismo. Foi em vão — e um desastre.

Não há mais a debater se vai brigar contra os números oficiais: Agropecuária em 13% + Indústria 0% + Serviços 0,3% = crescimento de 1% do PIB.

Veja na ponderação dos componentes do IPCA o peso da inflação de alimentos: 4,65% em 2013, 3,35% em 2014, 3,50% em 2015, 4,65% em 2016, 0,24% em 2017.

Está eufórico por o afogado ter batido no fundo e está subindo 1%?!

 

13. Questões Relevantes

14/03/2018 às 15:39

O link ( http://datasebrae.com.br/pib/ ) leva a dados comparativos do Sebrae no período 2014 a 2017. Não encontrei dados comparativos disponíveis no site do IBGE.

Montei uma tabela em um formato que a área de comentários aceita, tomando como base o setor que você aponta como o mais crítico (e concordo, é o mais crítico), que é a indústria.

No período de 2014 a 2017 temos os seguintes resultados, em que é possível enxergar a paternidade/maternidade dos 14 milhões de desempregados.

INDÚSTRIA:

PRIMEIRO TRIMESTRE (2014: 0,3%) – (2015: -1,8 %) – (2016: -0,2%) – (2017: 1,9%)

SEGUNDO TRIMESTRE (2014: – 2,9%) – (2015: -3,3%) – (2016: 0,3%) – (2017: -0,7%)

TERCEIRO TRIMESTRE (2014: – 0,4%) – (2015: -1,7%) – (2016: -1,3 %) – (2017: 1%)

QUARTO TRIMESTRE (2014: 0,7%) – (2015: 1,7%) – (2016: -1,8%) – (2017: 0,5%)

O que me preocupa na negação desta responsabilidade é a certeza de que, em um eventual novo governo, os mesmos erros voltem a ser cometidos.

Quanto à participação de Joaquim Levy nesta crise, é próxima a ZERO. As propostas que ele fez foram boicotadas pelo governo e não tiveram execução.

 

14. Fernando Nogueira da Costa

14/03/2018 às 16:10

“Quanto à participação de Joaquim Levy nesta crise, é próxima a ZERO”?!

Em economia há uma dependência de trajetória caótica que se afasta das condições iniciais, mas quais são essas “condições iniciais” é um arbítrio do analista. Se você está defendendo que o segundo mandato da Dilma foi um desastre, estou de acordo. Se está imputando todos os problemas à gestão anterior ao ano de 2015, estou em desacordo.

Releia o que aconteceu em 2015 em:
https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2018/03/05/politica-monetaria-desnecessaria-ilimitada/
https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2018/03/07/ainda-sobre-inflacao-de-alimentos-e-precos-administrados/

Não continuarei discutindo com adepto da “pós-verdade”, pois não há base objetiva — estatística e factual — para uma concordância.

 

15. Questões Relevantes

14/03/2018 às 20:25

O seu comentário aguarda moderação.

 

Não deixa de ser um avanço que reconheça o desastre de 2015, embora tente jogá-lo nas costas de Joaquim Levy.

No entanto, ao me acusar de adepto da “pós-verdade”, sem base objetiva estatística e factual nas críticas que fiz, sou obrigado a lembrar que me atenho aos dados e aos fatos quando afirmo que os 14 milhões de desempregados começaram a ser fabricados em 2008.

A chamada “Nova Matriz Macroeconômica”, que substituiu o antigo tripé macroeconômico (metas para a inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal) tinha aspectos do receituário keynesiano, mas não há dúvida nenhuma que a dose foi exagerada e por tempo demasiado.

O objetivo era desonerar o setor produtivo, reduzir os juros reais, expandir o crédito público para além do razoável, além da decisão selecionar e fomentar “campeões nacionais” via créditos subsidiados e vultosos do BNDES.

Os resultados, durante o primeiro mandato de Dilma, foram a alta da inflação, ampliação do déficit externo, atividade econômica estagnada e juros maiores do que no final do governo Lula.

A degradação evidente da economia e das regras de boa governança levaram à baixa confiança do mercado e da sociedade na capacidade do governo em retomar a estabilidade monetária e recolocar o Brasil na rota do crescimento econômico.

A campanha de 2014 foi fortemente marcada por esta crítica.

Também não podemos esquecer da autoritária Medida Provisória (MP) nº 579/2012 (convertida na Lei nº 12.783/2013) que pressionava de forma ostensiva o setor elétrico, ao atrelar a renovação das concessões a uma redução drástica das tarifas.

O resultado foi um desequilíbrio absurdo no setor, atingindo de forma violenta o caixa e a saúde financeira das empresas que aderiram à renovação. O grupo Eletrobrás, por exemplo, que teve 67% das suas concessões de geração renovadas, amargou prejuízo de R$ 13,2 bilhões somente no biênio 2012-2013.

Como disse antes, minha preocupação quando você e outros economistas ligados à esquerda não reconhecem a relação de causa e efeito entre estas ações e a crise que delas emergiu, é que sofreremos novamente os mesmos males sempre que tiverem a possibilidade de colocar suas teses em prática.

De qualquer maneira, como você disse, encerramos por aqui.

 

FIQUEM COM O ARTIGO, NA ÍNTEGRA.

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CONTRA-ATAQUE KEYNESIANO: SRAFFA CONTRA HAYEK.

Por Fernando Nogueira da Costa no blog Cidadania & Cultura

Nicholas Wapshott, no livro “Keynes x Hayek: a origem e a herança do maior duelo econômico da história”, conta que, para criticar Hayek, Keynes designou Sraffa com seu tom pessoal, sarcástico e implacável de ataque. Ele abriu sua crítica descrevendo as palestras de Hayek na LSE como dentro da tradição que os escritores modernos sobre dinheiro estão rapidamente estabelecendo: a da ininteligibilidade. Embora cumprimentasse Hayek por concentrar-se no modo como a quantidade de moeda no sistema afetava os preços dos produtos, em vez de olhar os preços em geral, “em todos os outros aspectos a inescapável conclusão é que [os pensamentos de Hayek] apenas se somam à confusão de pensamento prevalecente sobre o assunto”.

Em Prices and Production, Hayek havia procurado provar que, se dinheiro é emprestado a uma taxa em desacordo com a soma das poupanças, ele é investido em produção que não pode sustentar-se. Quando os recursos adicionais secam, os donos da fábrica descobrem que não atraem clientes e algumas linhas de produção são levadas a um final abrupto. Em outras palavras, quando o preço do crédito está fora de ordem, ele corrompe os estágios ordenados da produção de bens até que, após um período de crise, a economia encontre um novo equilíbrio.

Hayek sugeriu que havia uma taxa ideal em que o dinheiro poderia ser emprestado, uma taxa que sustentava a produção em todos os estágios sem desperdício e fornecia bens a preços que os consumidores podiam pagar. Essa era a “taxa natural de juros” que, efetivamente, deixava a moeda com um papel “neutro”, porque não tinha influência nenhuma na operação “natural” do sistema produtivo.

abordagem de Piero Sraffa era clara. Ele tinha sido encarregado de avaliar Prices and Production e dirigir a atenção para os erros de Hayek. Não estava preocupado em defender as teorias de Keynes. Sraffa, primeiro, repreende Hayek por considerar que a moeda jamais pudesse ser neutra, “isto é, um tipo de moeda que deixa a produção e os preços relativos de bens, incluindo a taxa de juros, ‘inalterados’, exatamente como ficariam se não houvesse moeda alguma”.

Sraffa acusa Hayek de erro rudimentar, lembrando-o de que a noção de moeda neutra dele é condenada no “início de todo livro-texto sobre a moeda. Isto é, que a moeda não apenas é meio de troca, como também reserva de valor”.

Sraffa descreve as teorias de Hayek como “um labirinto de contradições [que] deixam o leitor tão completamente tonto que, quando chega à discussão sobre dinheiro, pode, por desespero, estar pronto para acreditar em qualquer coisa”.

Quanto à afirmação central de Hayek, de que “não há dúvida” de que, se os produtores empregarem crédito maior do que o volume de poupança, a inflação e o colapso se seguirão, Sraffa usa as palavras de Hayek contra ele. “Como um momento de reflexão vai mostrar, ‘não pode haver dúvida’ de que nada desse tipo acontecerá. Uma classe, por um tempo, roubou outra classe de parte de suas rendas; e poupou o saque. Quando o roubo chega ao fim, fica claro que a vítima não pode, de forma alguma, consumir o capital que agora está bem fora de seu alcance.”

Enquanto Hayek afirmava que o crédito fácil era cortado, os fabricantes ficavam com maquinaria redundante, Sraffa sugere que os donos de fábrica tratavam de manter a fábrica, que poderia ser colocada em funcionamento quando o mercado se recuperasse. Tudo isso era pago por seus clientes.

Hayek predisse o desastre para os donos de fábricas se os bancos emprestassem a uma taxa demasiado baixa. Sraffa contra-argumentou que, durante o período em que capital adicional não sustentado por poupança estivesse disponível, os fabricantes ganhariam bastante para pôr dinheiro de lado para pagar o juro sobre o capital adicional quando sua reserva chegasse ao fim. Nesse meio-tempo, os produtores terão obtido meios de fazer um número maior de bens a um preço mais baixo [devido à expansão da capacidade produtiva]. Assim, longe de ser inflacionária, a redução das taxas de juros para apoiar a produção tenderia, no longo prazo, a reduzir preços.

Depois de concluir com o intransigente julgamento de que “a discussão do Dr. Hayek é profundamente irrelevante para a moeda e a inflação”, Sraffa acusa Hayek de “fugir de seu problema da moeda neutra” e inadvertidamente aterrissar “direto no meio da teoria do Sr. Keynes”. De acordo com Sraffa, Hayek não era oponente de Keynes e sim um apoiador e admirador inconsciente. “E aqui esta crítica deve parar”, declara Sraffa, acrescentando a frase de zombaria, “o espaço não permite uma crítica adequada da posição nova e bastante inesperada assumida pelo Dr. Hayek.”

Ao repetir sua explicação para o que acontece quando capital novo sem suporte de poupanças é injetado na economia, Hayek em sua resposta a Sraffa deu ênfase ao fato de que os empregados finalmente receberiam mais, enquanto dinheiro adicional jorrado para dentro do sistema desencadearia a inflação dos salários. O gasto incremental com salários em lugar de capital, sugeriu, iria com o tempo reduzir o crescimento em bens de produção e um novo equilíbrio seria alcançado, onde as taxas de juros seriam “as mesmas que antes que a poupança forçada acontecesse e [produtores] e capital se exaurissem para algo próximo ao seu estágio anterior”.

O fato de os produtores poderem ser deixados com equipamento ocioso não significou que o valor de sua fábrica não diminuiu, porque isso aconteceu. Maquinaria não usada era menos valiosa do que a fábrica produtiva e, nesse meio-tempo, produtores tinham que pagar juros sobre seu empréstimo.

Desafiando Sraffa a justificar sua “objeção surpreendentemente superficial a essa análise”, Hayek fez uma mudança inesperada, perguntando: “Ele pertence à seita que acredita em empregar fábrica ociosa para estimular o consumo”, como Keynes acreditava? ”

Em sua réplica a Hayek, Sraffa diz que o que Hayek chamava de “poupança forçada”, que levaria à catástrofe, ele preferia chamar “pilhagens”, em que:

  1. “aqueles que ganharam com a inflação escolhiam guardar os saques” e
  2. “aqueles sobre os quais a poupança forçada tinha sido infligida não teriam poder para tomar decisão”.

Sraffa afirmava que, longe de terminar em catástrofe, como Hayek sugeria, “poupança forçada” — que talvez seja mais bem descrita como “empréstimo inapropriado” — terminava felizmente. A partir do momento que a inflação termina enquanto “os processos de produção recém-iniciados começam a render bens de consumo… os empresários serão capazes de pagar as despesas da produção corrente e a manutenção do capital aumentado inteiramente fora de suas receitas com as vendas, sem necessidade de nenhum dinheiro inflacionário adicional”.

Isso só poderia acontecer, Sraffa concordava com Hayek, se os salários não subissem para corresponder aos novos custos. “Afirmo que isso não acontecerá”, declara Sraffa, pela razão que Hayek dá em uma nota de rodapé: “Exceto para os volumes que podem ser absorvidos por reservas em caixa em quaisquer estágios adicionais de produção.”

“Exatamente”, afirma Sraffa. “Se o Dr. Hayek tivesse tido tanto trabalho para escrever esse livro quanto seu comentador teve para lê-lo, ele se lembraria sob suas suposições de que tais reservas em caixa vão absorver não meramente certos volumes excepcionais, mas todo o dinheiro adicional emitido durante a inflação; de que, consequentemente, as rendas não podem crescer de maneira alguma e, então, não haverá ocasião para qualquer dissipação de capital.”

Em seu artigo, Hayek desafiou Sraffa a revelar em que realmente acreditava, uma vez que a base intelectual de seu pensamento não tinha sido declarada. Agora Sraffa respondeu com o mais profundo ridículo. “Depois [da exposição de Sraffa da falha na lógica de Hayek], o Dr. Hayek me permitirá não levar a sério suas perguntas em relação àquilo em que eu ‘realmente acredito’. Ninguém poderia acreditar que qualquer coisa que, logicamente, se siga de tais suposições fantásticas seja verdadeira em realidade. Mas admito a possibilidade abstrata de que as conclusões deduzidas de seu falso raciocínio possam, por acidente feliz, provar ser bastante plausíveis.” Sraffa tencionava que essa sentença fosse um nocaute.

O economista sueco Knut Wicksell, respeitado tanto pela Escola Austríaca quanto pelos keynesianos, que desenvolvera a noção da taxa natural e da taxa de juros monetária, reconhecera que não havia uma única taxa natural, mas várias taxas naturais diferentes para cada produto. A solução de Sraffa era imaginariamente pesar cada uma das taxas naturais de forma que emergisse uma taxa natural composta que equalizasse a taxa monetária agregada para o conjunto da economia em tempo de equilíbrio. “Esse caminho de fuga não está aberto para o Dr. Hayek”, exultou Sraffa, “por que ele tem repudiado enfaticamente o uso de médias.”

Esse duelo paralelo ao grande debate Keynes-Hayek foi técnico, obtuso, difícil de seguir e mal-humorado. Muito dele resulta em pouco, exceto por um exercício de pugilato logístico entre dois pensadores pesos-pesados. Muito atrito para pouca luz