O INFERNO DAS BOAS INTENÇÕES

Há um ditado antigo, como costumam ser os ditados, segundo o qual o inferno está cheio de boas intenções. Acrescento: e de puristas também.

O jornalista Denis R. Burgierman publicou um artigo no portal de notícias NEXO chamado Talvez o Brasil precise mesmo quebrar, que aborda a reforma da previdência de uma forma que ilustra bem o caso.

Na primeira parte faz uma análise que deveria ser a regra e não a exceção para quem se dispõe a tratar do tema: avalia o sistema, os números e a projeção que desenha claramente a insustentabilidade do atual modelo.

Faz uma boa leitura dos diversos interesses envolvidos, inclusive grupos econômicos e os privilegiados que ganham aposentadorias polpudas, como o funcionalismo público em todas as esferas de poder.

Chama a atenção para o fato nada razoável de que o gasto anual do governo destina 36% para aposentadorias e pensões (percentual que vai aumentar se nada for mudado), contra apenas 9% para a Educação.

Depois de tudo isto, reconhece: a reforma é mesmo necessária. Inevitável.

Então… envereda pelo caminho dos puristas e abre as portas que conduzem ao inferno.

A primeira porta é negar ao governo Temer legitimidade para conduzir esta reforma.

É um pensamento militante e puritano.

Já disse e repito novamente: Temer serviu ao governo Lula e foi vice de Dilma em duas eleições. Não há motivos para imaginar que seja mais honesto que ambos. Foram colegas de armas e métodos.

O mesmo vale para a maioria dos nomes de sua base no congresso.

Mas do ponto de vista institucional, tem exatamente a mesma legitimidade que teve Itamar Franco para conduzir a implantação do Plano Real.

Os dois assumiram o poder após um processo de impeachment. Em ambos os casos, respeitou-se as regras constitucionais. Dizer o contrário é apenas brigar com os fatos.

Do ponto de vista da realpolitik, não há nenhum motivo concreto para se imaginar que as próximas eleições elegerão um congresso e um senado de melhor qualidade que o atual.

Na verdade, com a moralista proibição das doações de empresas às campanhas, crescerá o número de candidatos apoiados por empresas que fazem caixa 2, igrejas evangélicas e o crime organizado.

A segunda porta é consequência da primeira e também de crueldade bem-intencionada.

Burgierman lembra que postergar a reforma da previdência poderá inibir investimentos, piorar o desemprego e disparar o dólar, mas que este seria um preço a ser pago para a construção de um país melhor…

É um preço estúpido, sádico e desnecessário.

Pergunte para os 14 milhões de desempregados pela gestão irresponsável de Lula pós 2008 e Dilma se eles preferem esperar.

Pergunte para quem está com medo de perder o emprego.

Pergunte aos pequenos comerciantes se suportarão mais uma crise.

Pergunte às milhares de pequenas e médias empresas se reverter a modesta retomada da economia é algo desejável.

Pergunte a quem luta para pagar suas contas se quer ver a inflação e os juros dispararem novamente.

Fazer conjecturas abstratas e utópicas sobre um Brasil melhor e mais justo que emergiria de uma crise ainda mais profunda do que Lula e Dilma nos legaram é um insulto ao brasileiro de carne e osso que rala diariamente para sobreviver.

É também um insulto ao bom-senso.

Temer é a alternativa legal que nos coube e, mesmo que muitos julgassem impossível ou improvável, mesmo que muitos tenham trabalhado muito, de forma legal e ilegal, para atrapalhar, teve conquistas importantes.

Assumiu em agosto de 2016 com uma inflação de 9,28% e acelerando. Terminou 2017 com a inflação em 2,9%, o menor índice em muitos anos.

Encarou o desafio de uma recessão de quase 4% que se arrastava por 2 anos e reverteu o processo. Atravessamos 2017 com em crescimento mínimo, mas o último trimestre já apontava para um crescimento anualizado próximo a 3% do PIB.

Tirou o setor elétrico do caos em que Dilma o havia mergulhado.

Mesmo a Petrobrás, que quase foi destruída pela gestão do PT, mostra sinais de recuperação.

Quer dizer que está tudo bem?

Claro que não. Mas apostar no aprofundamento da crise econômica, social e política é certamente um atentado contra o povo brasileiro que não vive no reino da fantasia nem é militante profissional.

Quem se importa realmente com o sofrimento do povo deve trabalhar para que as contas públicas se ajustem, para que a responsabilidade fiscal seja um valor republicano, para que as reformas necessárias sejam feitas e que a economia decole.

Pleno emprego é a melhor, mais eficiente e mais digna política social, além de ser também a melhor estratégia para o aumento de renda da população.

 

Artigo de Paulo Falcão.