Leidy Cordova, 37, with four of her five children at their home in Cumana, Venezuela.

Para ler ouvindo O RONCO DA CUÍCA de João Bosco e Aldir Blanc

Venho observando há algum tempo que parte majoritária da esquerda trafega por um território intelectual em que a ética foi substituída pela conveniência, pelo oportunismo. Demonstro isto em diferentes artigos, em temas que vão do racismo ao impeachment de Dilma, da censura ao desejo de reescrever a história, de Cuba à Venezuela.

É justamente para falar desta última que retomo a questão da ética, mais uma vez. No caso, a falta de ética está em silenciar diante da incompetência e truculência de um governo que mata adultos e crianças de fome na Venezuela. Fica evidente que a esquerda não se incomoda com a fome em si. Se é fruto de um algoz de “direita”, críticas e protestos. Se o algoz é “de esquerda”, apenas silêncio.

O artigo abaixo foi publicado no jornal El Pais pelo jornalista Juan Arias, que se identifica com o que chama de “esquerda social” em oposição à “esquerda ideológica” * que já perdeu qualquer sentido, para ele e para mim.

O artigo tem sim um tom meio piegas, mas os fatos narrados são claros e as perguntas que faz merecem respostas, não silêncio cúmplice.

Introdução de Paulo Falcão.

*Sobre a diferenciação de “esquerda social” e “esquerda ideológica” sugiro a leitura deste outro artigo.

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POR QUE A ESQUERDA BRASILEIRA ESTÁ MUDA DIANTE DA FOME QUE MATA CRIANÇAS NA VENEZUELA?

Mais do que nunca é necessário que a esquerda social, uma vez que a ideológica já perdeu seu sentido, se sensibilize com aqueles que vivem momentos dramáticos

 

Por JUAN ARIAS

Acredito que não exista nada mais doloroso do que ver uma criança morrer de fome, principalmente se isso acontece em um país que, como a Venezuela, tem as maiores reservas de petróleo do mundo e se proclama socialista. Não deixa, portanto, de causar estranheza o silêncio da esquerda brasileira diante dessas mortes infantis por falta de comida no país amigo. O Partido dos Trabalhadores quer voltar ao poder com Lula. Tem todo o direito de tentar fazer isso democraticamente, mas antes terá de nos dizer o que pensa sobre o que a imprensa mundial está denunciando a respeito da Venezuela. Semanas atrás, a Folha de S. Paulo escreveu: “A fome persegue a Venezuela há anos. Agora está matando as crianças do país em um ritmo alarmante”. O jornal relata como uma equipe do The New York Times publicou no Natal uma longa investigação realizada durante cinco meses em 21 hospitais de 17 estados venezuelanos em que médicos e enfermeiros confirmaram que as crianças estão morrendo de fome e desnutrição por falta de comida.

A ONG Provea, defensora dos direitos humanos, denunciou por sua vez, segundo O Estado de S. Paulo, que os venezuelanos mais pobres, diante da crise alimentar em uma economia que, como escreveu o EL PAÍS, “está em coma”, com uma inflação de cinco dígitos, são obrigados a comer uma espécie de salsicha para cães, feita com restos de carne e gordura sem controle sanitário, ou ração para galinhas que serve como substituto do arroz. Lula, que apoiou as campanhas de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, chegou a afirmar que na Venezuela havia “democracia em excesso”. A esquerda brasileira ainda continua pensando assim? O que existe é a fome que mata, enquanto aqui no Brasil o que começa a preocupar é o excesso de peso e a obesidade, que já atingem 53% da população, incluindo as crianças.

É verdade que muitas vezes o grande público, especialmente o menos culto, não se sensibiliza com a falta de democracia em um país e, às vezes, até sente saudade das ditaduras, mas o que não deixa de doer em ninguém é a fome de uma criança. O mundo está vivendo uma guinada para a extrema direita com contornos de novos e perigosos autoritarismos. Mais do que nunca é necessário que a esquerda social, uma vez que a ideológica já perdeu seu sentido, se sensibilize com aqueles que vivem –como na Venezuela– momentos dramáticos, não por não terem papel higiênico, mas porque lá se morre de fome. Fechar os olhos a essas tragédias é trair os valores da esquerda sensível ao pranto dos desamparados.

Só quem sentiu na carne o ferrão da fome pode entender o que significa para os pais ter de enterrar seu pequeno morto por falta de comida, como no caso da Venezuela que a Folha conta. Sabem muito bem disso aqueles que conseguiram escapar de um campo de concentração nazista. Um desses sobreviventes, brasileiro, que veio almoçar em nossa casa quis comer apenas o pão que minha mulher havia feito. Ele nos contou que a fome que mastigou no inferno do campo era tanta que, até hoje, sua iguaria preferida é um pedaço de pão. Eu mesmo, que sou um sobrevivente da fome que açoitou os espanhóis durante a Guerra Civil de 1936 e o período do pós-guerra, posso garantir que poucas coisas são tão duras para uma criança como foi para mim e meus dois irmãos ir dormir com fome. Durante muito tempo, e até na idade adulta, sonhava, como um pesadelo, com pão quente saindo do forno.

São lembranças que hoje se aglomeram na minha memória quando leio que na irmã e rica Venezuela existem crianças que morrem de fome ou são forçadas a disputar comida com cães e galinhas. E assim como me machuca a fome delas, me machuca o silêncio da esquerda rica brasileira que, enredada em suas pequenas disputas políticas, não consegue levantar a voz para denunciar essa tragédia. Ou a esquerda ainda pensa que o que sobra na Venezuela é a democracia? O que sobra hoje é o pranto daqueles que não conseguem comida para seus filhos.

 

 

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