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O relato que reproduzo abaixo pode ser considerado uma visão parcial e estatisticamente irrelevante da realidade cubana atual, mas o repórter Aiuri Rebello Do UOL, em Havana, o tomou como uma metonímia válida, reconheceu nele a realidade que se revela diante de seus olhos e ouvidos atentos.

Lázaro, o narrador, operador e conhecedor do mercado negro da ilha dos Castro, reconhece pontos positivos da ditadura cubana, mas reconhece igualmente os seus muito defeitos, entre eles a ineficiência econômica e política que assola a ilha. Aliás, em nenhum momento atribui qualquer culpa pelos problemas que enfrenta a embargo econômico ou outros fatores externos.

No relato, temos a clara sensação de que, através de seu olhar calejado, o socialismo se olha no espelho, e não se reconhece.

Mas os críticos do socialismo o reconhecem. Estão lá vários dos problemas que apontam como consequência do modelo.

No fim, temos a impressão de um cadáver insepulto, um zumbi, assombrando o presente e o futuro do feudo castrista.

Até quando? – pergunta o nosso personagem.

Fiquem com a reportagem de Aiuri Rebello do UOL, em Havana.

 

Introdução de Paulo Falcão.

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DEPOIMENTO: “COMO DESISTI DA MINHA PROFISSÃO E FUI PARAR NO MERCADO NEGRO DE CUBA”

Aiuri Rebello Do UOL, em Havana (Cuba) 10/01/2018

Em Cuba, com o colapso da União Soviética a partir do final dos anos 1980 – principal parceiro comercial da ilha caribenha — a economia passou a depender progressivamente do turismo estrangeiro. Com o afluxo de turistas, a ditadura cubana criou em 1994 um câmbio paralelo, para ser utilizado apenas no turismo. Na prática, o país possui hoje duas moedas correntes.

Teoricamente, a moeda dos cubanos é o CUP (Peso Cubano), e a dos turistas é o CUC (Peso Cubano Conversível). Na prática, as duas se misturam no dia a dia das pessoas e acabaram por ajudar a criar uma dupla realidade econômica para os cubanos: a oficial, de lojas vazias, falta de insumos e opções e preços baixos em CUPs, e a paralela, em que sempre há tudo, desde que o comprador esteja disposto a pagar caro e em CUCs.

Os “corredores”, como são conhecidos os operadores do mercado negro cubano, são cada vez mais comuns. O termo serve também para designar qualquer um que viva da economia paralela, ligada ao turismo ou não, sem pagar impostos nem manter nenhuma relação formal com o governo.

Lázaro (o sobrenome será omitido a pedido dele) é um cubano de 32 anos. Em relato ao UOL durante encontro em Havana, ele conta como foi parar no mercado negro de Havana depois de ter visto a mulher e o filho esmolando uma caixa de leite para um casal europeu na rua e decidiu que, no que dependesse dele, aquilo nunca mais ia ocorrer.

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“Não pago impostos”

 

“Meu nome é Lázaro. Tenho 32 anos e sou um corredor. Sabe o que é isso? No Brasil, acho que corredor é quem corre profissionalmente, atleta. Aqui, corredor é quem trabalha no mercado negro cubano. No mercado negro de Havana. Parece ruim, hein? Mas não é. Não é mesmo.

O que eu faço? O que as pessoas fazem em qualquer lugar do mundo. Basicamente, compro coisas em um lugar para revender em outro por um preço maior. Comércio, mas aqui é mercado negro. Aqui é proibido comprar e vender coisas sem autorização do governo. Principalmente, sem pagar a “comissão” deles. Não pago impostos. Vivo por minha própria conta.

Assim sou livre e consigo fazer coisas que não conseguiria fazer trabalhando formalmente. Junto dinheiro, consigo fazer planos, viajo, reformei a casa da minha família, tenho um carro novo, comemos bem, temos boas roupas. Não é isso que todo mundo quer?

Aqui mesmo, nesta comedoria [pequeno restaurante familiar, que serve comida caseira e barata, muito popular entre os cubanos, onde se deu o encontro da reportagem com ele em Havana]. Você acha que os donos são eles? [aponta para o casal que anda de um lado para outro do pequeno salão servindo as mesas]. O dono é o governo… Esses aqui apenas trabalham e ficam com uma migalha do resultado do próprio esforço.

Vou te contar uma história: eu sou enfermeiro, pós-graduado e tudo. Durante muitos anos, dei duro no hospital. Estudei bastante para ajudar a salvar vidas. É isso que gosto de fazer. Gosto mesmo. E isso sou obrigado a admitir: tive um excelente estudo a vida toda, e me formei no que queria. Quantas pessoas no mundo podem dizer isso, hein? Aqui, ainda é mais ou menos assim: se tiveres talento nos estudos, as portas estão abertas até o topo, até o ensino superior. Eu era tão orgulhoso, tão feliz comigo mesmo.

Mas aí, comecei a ver. Um garçom vizinho reformou a casa, trocou o carro, fazia churrascos. O mensageiro do hotel, meu primo, ganhava mais que eu. Tinha aparelho de DVD, computador, geladeira nova. Dizia que eu era idiota, trabalhar para o governo, para o partido. Enquanto eles enriqueciam, eu trabalhava e, se não tomasse cuidado, passava fome no fim do mês.

Hoje aqui está tudo distorcido. As pessoas que têm estudo, como engenheiros, médicos, cientistas, estão sempre correndo o risco de passar fome, passar necessidade. Quem tem um emprego público, o que, fora dos hotéis, são quase todos na ilha, está mal. Ou é corrupto e fatura algo por fora ou está mal.

Diferentemente do pessoal do governo, do partido… São eles que mandam em tudo e usufruem de tudo. São poucas famílias que comandam a ilha inteira. Os governantes têm muitos filhos, familiares. São eles que são donos de tudo. São ricos e vivem como ricos. A família dos comandantes, ah… Vivem como príncipes, escondidos. Não sabemos nada deles. Não nos dão satisfação.

No hospital, meu salário era o equivalente a 30 CUCs [cerca de R$ 107] por mês. Para levar um turista da Cidade Velha [na região central de Havana] ao aeroporto no meu carro, cobro 25 CUCs  [cerca de R$ 90]. Percebe? Está tudo errado, de ponta-cabeça. Em uma ida ao aeroporto com um gringo ganho a mesma coisa que em todo um mês no hospital. Com plantões de 12 e 24 horas. O mesmo acontece com os médicos e com qualquer profissão tradicional, que exija estudo.

De que adianta se formar como médico, como engenheiro, e passar o resto da vida pagando de volta ao governo o estudo. Sem possibilidade de escolher o que vai fazer, onde vai trabalhar. Tem que obedecer e pronto. Contentar-se com um salário que não dá para o mês todo e ficar calado. Em nome da revolução, do socialismo [ri bastante neste momento].

Quem faz trabalho braçal, ou servindo, ou cozinhando, ou de qualquer maneira atrelado aos estrangeiros, ganha muito mais e está melhor de vida do que os outros. Existem duas economias em Cuba. A dos turistas – forte, rica, próspera, cheia de oportunidades – e a oficial – débil, emperrada, mal paga, arcaica.

Eu atuo entre as duas. É ali que fica o mercado negro. Consigo coisas destinadas aos cubanos mas também aos gringos, aos hotéis estrangeiros, às empresas – de material de construção a charutos finos – e revendo depois, quando o produto sumir do mercado ou o preço subir. Meus clientes são cubanos, não são estrangeiros.

Quem está reformando a casa vem me procurar. Quem precisa de um remédio que não tem no hospital nem na farmácia vem me procurar. Tem clientes estrangeiros que querem charutos legítimos por metade do preço? Eu posso arrumar, desviam direto da fábrica, tenho um contato lá. Precisa de uma peça para seu carro que está em falta nas oficinas? Talvez eu tenha…

A gota d’água para mim foi quando vi minha mulher com meu filho, ele tinha uns três anos, pedindo na rua. Eu estava voltando do hospital, um plantão de 24 horas. E ela estava lá, na calçada perto de nosso apartamento, segurando ele pela mão. Ela tentava falar com as pessoas, que passavam sem olhar. A cena me paralisou e fiquei um pouco assistindo.

Eventualmente, um casal jovem, da nossa idade, parou para ouvi-la. Após alguns instantes, entraram todos no mercado e, pouco depois, saiu o casal com um litro de leite na mão e minha família atrás. Os gringos deram o leite para a minha mulher e meu filho agradeceu a ajuda, com um beijo no rosto de cada um. Ela não me contava aquilo. Apenas ia lá e dava um jeito. E eu vi… Aquilo me machucou muito, e a partir daquele dia eu decidi que não ia mais faltar leite em casa.

Já faz quase sete anos. Quem não consegue se adaptar também são os velhos. Quem ainda é jovem, consegue aproveitar uma oportunidade dessa nova economia, se dá bem e consegue tocar a vida. O mesmo não acontece com os idosos. Vivem de suas aposentadorias e vendem cacarecos pela rua, já reparou? Em Havana Velha têm aos montes. Andam por aí esmolando moedas e até sabonetes. Vendem os livros velhos e mofados de suas casas, discursos do Fidel.

Ontem comprei algumas caixas de azulejos. Eles vivem em falta nos depósitos de construção. Semana que vem, quando acabarem de novo, quem quiser azulejos virá comprar comigo. Vou cobrar mais caro e dizer que, pela falta, o preço subiu. É assim que funciona agora.

Se me pegam apanho, vou preso. No melhor dos casos, pago uma propina, dou um presente. Todos me conhecem. Sempre tem um jeitinho. Nisso já ouvi que os cubanos e os brasileiros são parecidos. Tudo tem um jeito, uma saída.

Tenho saudades do tempo em que eu acreditava no socialismo, na revolução. É triste, porque tivemos conquistas importantes. Veja, eu nasci e aqui já estava em decadência toda essa história. Mas tive boas escolas, tive esporte, temos, mal ou bem, uma saúde pública muito avançada. Sem falar na segurança. Mesmo para mim, que vivo no limite da bandidagem, é um país muito seguro. Para os turistas, para todo mundo.

O problema é que as conquistas, a transformação, acabou mesmo antes de eu nascer. E ficou por isso. Estamos parados no tempo, sendo engolidos pela realidade bruta que todo dia impõe o desafio de sobreviver, de alimentar e vestir o seu filho. Quem consegue pensar em socialismo sem leite em casa, sem um sapato decente? Eu ia adorar viver no comunismo, no socialismo, mas não é isso que temos aqui. Essa época passou, não existe mais e não vai voltar, infelizmente. Não sei o nome disso que inventaram, esse modelo misto. Socialismo não é mais. Capitalismo não é ainda.

A verdade é que hoje vivemos em dois mundos distintos ao mesmo tempo, no socialismo e no capitalismo, regidos por uma ditadura que, no fundo, não sabe o que fazer e não quer largar o poder. Na teoria, o país é socialista, mas o que vemos nas ruas é o capitalismo, a lei do mais forte. Tudo o que vemos na rua, no nosso dia a dia, é capitalismo. Mas nas relações com a ditadura, temos que aceitar e ouvir que somos socialistas, mesmo todo mundo sabendo que isso não é mais verdade. Assim vivemos. Até quando?”

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