Trabalhador em mina de ouro em Moçambique - Foto de Goran Tomasevic

O Facebook resgatou uma publicação que fiz há alguns anos, em que destaco e comento a foto que ilustra este artigo.

Faz parte de uma retrospectiva de fotos de 2010 disponível no site do Estadão.

Na época, a foto me chamou a atenção porque, para mim, e talvez para brasileiros em geral, transmite uma alegria carnavalesca, ou como diria o José Celso Martinez Corrêa, dionisíaca.

A foto é plasticamente e tecnicamente perfeita e, ao contrário do belo “Inferno de Dante” que Sebastião Salgado nos mostrou em Serra Pelada, na foto do trabalhador da mina de ouro em Moçambique, o fotógrafo Goran Tomasevic nos mostra que até no inferno há alegria.

Não conheço o restante de seu trabalho em Moçambique, mas a foto é de rara felicidade, em todas as acepções da expressão. Talvez, diante dela, Mia Couto lhe dedicasse um poema ou um romance.

Ao rever a foto neste início de 2018, somou-se àquela primeira impressão a memória das reflexões de Umberto Eco sobre o poder revolucionário do riso em seu romance de estreia “O NOME DA ROSA”.

A narrativa ocorre na Idade Média, quando o riso era considerado pecado pela Igreja e hipoteticamente defendido por Aristóteles em um manuscrito envolto em mistério, escondido em uma biblioteca labiríntica. A simples confirmação de sua existência poria em risco o grande poder da Igreja na época.

Qual o motivo e a relevância desta lembrança?

Talvez seja o fato de se contrapor subliminarmente à “nova igreja da crítica social” em que a alegria do trabalhador também é vista como “pecado”, como uma forma de alienação.

A alegria em estado bruto, vibrante, como o trabalhador sorridente ou samba na laje, enfraquece a narrativa opressiva da utopia socialista.

Ou talvez sejam apenas lembranças se entrelaçando no tempo.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

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