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Já andei abordando por aqui o debate sobre gênero, quando publiquei e comentei uma entrevista de Camille Paglia.

Volto ao tema por um prisma totalmente diferente e que me lembrou o célebre livro “Aula”, de Roland Barthes, quando ele diz: “(…) a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”.

O texto que publico abaixo, de Eduardo Affonso, faz uma gostosa e inteligente análise do tal papel “autoritário” da palavra e da língua.

Penso que exagerou apenas quando considerou o imperador da capitania hereditária do Maranhão como ponto de partida do desvario que nos atormenta.

Divirtam-se.

Introdução de Paulo Falcão.

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Quem já tentou explicar a um gringo por que “lua” é uma palavra feminina e “sol”, uma palavra masculina sabe o trabalho que dá.

“Lua” não produz óvulos nem tem cromossomos XX.

“Sol” não tem testículos, não produz esperma ou tem cromossomos XY.

É só uma convenção.

Mais complicado se tiver que convencer um alemão, para quem “lua” é masculino (“der Mond”) e “sol”, feminina (“die Sonne”).

É que na gramática – conforme ensina a linguista mexicana Concepción Company – gênero não corresponde necessariamente a sexo.

O latim, o alemão e o russo têm os gêneros masculino, feminino e neutro (e este não se refere a seres e coisas transexuais).

No sueco e no holandês, há o gênero comum (que abrange tanto masculino quanto feminino – e nem por isso torna tudo hermafrodita) e o neutro.

E no finlandês, no basco e no húngaro não há gênero nenhum (o que não quer dizer que tudo e todos na Finlândia, na Hungria e no País Basco sejam assexuados – já estive nos três e posso garantir isso).

As línguas que evoluíram do latim apenas suprimiram o gênero neutro, usando o masculino em seu lugar.

Daí dizermos “as alunas” quando nos referimos apenas a pessoas do sexo feminino e “os alunos” no caso de pessoas do sexo masculino ou de ambos os sexos (nesse “ambos” podendo ser incluídos todos os sexos atualmente disponíveis).

Não é machismo.

Assim como não é feminismo dizer “as cobras”, “as onças”, “as vítimas” ou “as crianças”, mesmo havendo seres do sexo masculino envolvidos.

Porém, desde que Sarney inventou essa coisa de “brasileiros e brasileiras”, tenta-se submeter o idioma à ideologia – como se confundir sexo biológico (ou psicológico) e gênero gramatical fosse equiparar salários, coibir estupros ou eliminar a violência doméstica.

Em turco não há distinção entre masculino e feminino, e nem por isso a Turquia é um exemplo de igualdade entre os sexos.

A língua se ajustará naturalmente às necessidades dos seus falantes.

Não havia por que existirem as palavras “médica”, “juíza” ou “ministra” quando a medicina, a magistratura ou os ministérios não eram acessíveis às mulheres. Essas palavras só foram criadas porque sua formação é natural ao idioma.

Já há mulheres chanceleres mundo afora, e não se inventou a palavra “chancelera” (ainda que tenhamos penado alguns anos com uma “presidenta” – que era, ainda por cima, “inocenta”).

Voltando à Concepción Company (citada lá no comecinho), “primeiro eduquemos e criemos igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, e deixemos de lado besteiras como ‘o cachorro e a cadela são o melhor amigo e a melhor amiga do homem e da mulher”.

Até porque, para fazer a coisa direito, teríamos que dizer também que
“º cachorrº é º melhor amigº dº homem trans”
“@ cadel@ é @ melhor amig@ d@ mulher trans”
“e cachorre&cadele é e melhor amigue de bissexual”
“# cachorrdel# é # melhor amig# d# intersexual”
“cachorr (ou cadel) é melhor amig d assexuad””.

Aceitam-se sugestões para a grafia do gênero fluido.

A pronúncia disso fica para uma próxima encarnação.