JUDITH BUTLER

Venho chamando a atenção para uma doença degenerativa na sociedade brasileira: a estupidez barulhenta e agressiva de pessoas orgulhosas de seus vícios.

O recente caso das agressões à filósofa e ativista da questão de gênero Judith Butler é um exemplo eloquente, que se assemelha muito à perseguição e à violência contra a blogueira (e crítica do feudalismo cubano) Yoani Sánchez quando visitou o Brasil, também para fazer palestras, dar entrevistas e participar de seminários.

A diferença entre os dois casos não é a agenda das convidadas, nem o autoritarismo dos agressores, mas o referencial ideológico que os move: Judith Butler foi vítima da direita e Yoani Sánchez, da esquerda.

Este clima ambidestro de embrutecimento da razão é uma péssima notícia para quem acredita nas virtudes da moderação, da solução pacífica de conflitos e do respeito ao outro.

Há uma famosa frase atribuída à Voltaire que se transformou em sinônimo da desejável tolerância civilizatória: “Não concordo com o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo.”

Recusar esta ideia é recusar o enriquecimento do debate, a troca de pontos de vista, o aprendizado.

A atual polarização da política brasileira, este câncer nas entranhas de nossa ainda frágil democracia, é fruto deste culto à estupidez.

De um lado, uma esquerda autoritária que abraça a corrupção e promete radicalizar sua gestão caso volte ao poder.

Do outro, o primitivismo autocrata de Bolsonaro e congêneres.

É impossível esperar que de qualquer um destes protagonistas surja algo de bom, a não ser que traiam o próprio discurso.

A sociedade civil, a imprensa, os formadores de opinião precisam acordar para este fato e começar a denunciá-lo, pra valer.

Flertar com o arbítrio, tolerá-lo, seja de direita ou de esquerda, já é sintoma de contaminação pela doença que começa a se transformar em epidemia.

A única vacina conhecida contra esta grave síndrome é a Democracia e o Estado de Direito. Pratique.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

 

 

 

 

 

 

 

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