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BRASIL, FRANÇA E O FUTURO EM GESTAÇÃO.

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Em julho de 2016, quando a França enfrentava violentos protestos contra as reformas do presidente socialista François Hollande, publiquei um artigo intitulado A ESPERANÇA SEM AMANHÃ em que destacava a necessidade das reformas e a ironia de ser um presidente socialista a implantá-las. O recém-eleito Emmanuel Macron, inicialmente à frente das reformas, virou alvo de muita fúria e críticas e já havia deixando a linha de frente, mas não o governo.

Em maio de 2017, menos de um ano depois, Macron não apenas se elege, mas faz uma excelente base parlamentar.

Talvez por sorte, talvez por racionalidade dos eleitores, as reformas vão continuar, e continuarão não porque o novo presidente seja sádico, nem tampouco masoquista. Continuarão porque, como Hollande havia percebido, a França já não tem mais alternativa a não ser ajustar suas contas.

Como venho afirmando, é a matemática exigindo um choque de realidade da política.

Neste sentido, o artigo abaixo, de Helio Gurovitz no portal G1 traz uma reflexão bastante oportuna. Em relação ao Brasil, o trecho que mais me chamou a atenção foi quando disse:

“Macron fez o diagnóstico correto sobre a raiz dos problemas franceses: ela não está fora, mas dentro do país. Não está na burocracia da UE ou nos imigrantes (por mais que possa haver problemas aí também), mas no Estado obeso, que consome 53% do PIB em impostos, nas leis trabalhistas anacrônicas, numa Previdência kafkiana e na visão pachorrenta que emperra a inovação.”

Parece que lá, como cá, pratica-se a “exterioridade da culpa”. Nestas paragens a semente do atraso foi plantada pelo livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, e cultivada com esmero em escolas e universidades, tornando popular a ideia de a culpa de nossas mazelas não é de nossas escolhas, mas de exploradores malvadões. Funciona como a desculpa perfeita para não reconhecer os próprios erros, o que torna mais difícil corrigi-los.

Fiquem com o artigo de Gurovitz.

 

Introdução de Paulo Falcão.

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AS LIÇÕES DA FRANÇA PARA O BRASIL

Por Helio Gurovitz no portal G1.

 

Quem dissesse, 15 meses atrás, que Emmanuel Macron (foto) seria o próximo presidente da França, eleito por dois terços dos votos e comandando uma maioria de dois terços na Assembleia Nacional, seria tachado no mínimo de delirante.

Na ocasião, Macron era um ministro da Economia liberal, que perdia espaço no governo socialista de François Hollande. Saíra tão desgastado das reformas econômicas que levaram seu nome em 2015, que aceitou um papel secundário na nova tentativa de reforma trabalhista no início de 2016, comandada pela então ministra do Trabalho.

Macron defendia a necessidade de enxugar o Estado francês, de promover reformas nas leis trabalhistas, na Previdência, privatizar e desregular setores inteiros da economia, a exemplo do que Margaret Thatcher fizera no Reino Unido nos anos 1980. Mas o estatismo atávico de sindicatos, da sociedade e da classe política francesa resistia.

A popularidade de Hollande naufragava, e as apostas para derrotá-lo em 2017 se dividiam entre dois nomes: o ex-premiê Alain Juppé, e a nacional-populista Marine Le Pen. Isolado no governo, Macron decidiu fundar no início de abril seu movimento En Marche! (Avante!), embrião do partido La République en Marche, consagrado ontem nas urnas.

Nestes 15 meses, o Reino Unido decidiu abandonar a União Europeia (UE), e Donald Trump passou de azarão nas primárias a presidente da nação mais poderosa do planeta. É na França, contudo, que estão as lições mais valiosas para as eleições previstas para daqui a 15 meses no Brasil.

A primeira lição é óbvia: não adianta, a esta altura, especular sobre nomes. Como Macron, é perfeitamente possível que nosso próximo presidente seja alguém que hoje nem cogitemos ou cujas chances sejam dadas como ínfimas em todas as pesquisas. Não necessariamente alguém de fora da política, mas talvez hoje fora do radar.

Segunda lição: numa sociedade em que políticos ligados a partidos tradicionais estão queimados (aqui, pela Operação Lava Jato), há chance concreta de renovação. Na Assembleia Nacional que saiu ontem das urnas na França, apenas 145 dos 577 deputados foram reeleitos. Dos novos, 204 jamais haviam sido eleitos para nada. Há 39 com menos de 30 anos, 145 entre 30 e 40 anos, outros 174, entre 40 e 50. Pela primeira vez, quase 40% (224) serão mulheres. O responsável pela renovação é o movimento criado por Macron.

Terceira lição: num ambiente de incerteza, propostas extremistas ou populistas tendem a crescer, mas não são necessariamente favoritas. Os dois partidos franceses no extremo do espectro ideologógico – à esquerda, a França Insubmissa (FI), de Jean-Luc Mélenchon; à direita, a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen – saíram das urnas com 17 e 8 deputados, respectivamente. Tamanho compatível com o de minorias extremistas ao longo da história.

Havia enorme expectativa em torno do desempenho de Marine, depois do Brexit, de Trump e, sobretudo, depois de ela tentar “desdemonizar” a imagem de seu partido, associada à xenofobia, ao racismo e ao antissemitismo. Marine obteve a maior marca de votos da FN no segundo turno da eleição presidencial (10,6 milhões, ou 33,9%). Nas legislativas, contudo, a FN ficou aquém da média desde 1986 (10,8%), com menos de 9% dos votos.

Os oito deputados são o maior patamar que o partido já alcançou. Ainda assim, é um resultado pífio para quem pretendia comandar a oposição. O sucesso da FN continuou restrito a bastiões tradicionais no Sul da França e, agora, a regiões do Nordeste como o Pas-de-Calais (onde Marine foi eleita), atingido pela desindustrialização e pela perda de empregos, resultantes da globalização.

Os perdedores da globalização, ressentidos com a UE, pessimistas diante da hesitação dos socialistas e descrentes de propostas liberais, também aderiram na última hora à proposta populista da FI, de Melenchon. Mas, mesmo aliada aos comunistas, a extrema-esquerda terá apenas 27 cadeiras na Assembleia.

O maior vitorioso, ainda que tenha ficado aquém das previsões otimistas da semana passada, é Macron. Seu partido, sozinho, terá 310 cadeiras. Com o apoio recebido de outras agremiações, ele comandará uma maioria de 378 deputados, mais que suficiente para aprovar qualquer projeto de reforma liberal.

Está aí, enfim, a lição mais importante para o Brasil. A democracia pode apresentar resultados supreendentes e pregar peças naqueles que acreditam nela como uma marcha racional na direção do progresso. Mas a surpresa também pode ser positiva.

Macron fez o diagnóstico correto sobre a raiz dos problemas franceses: ela não está fora, mas dentro do país. Não está na burocracia da UE ou nos imigrantes (por mais que possa haver problemas aí também) , mas no Estado obeso, que consome 53% do PIB em impostos, nas leis trabalhistas anacrônicas, numa Previdência kafkiana e na visão pachorrenta que emperra a inovação. Ele quer transformar a França numa “nação start-up”.

Não é um desafio simples. As dificuldades prometem ser inúmeras, a começar pelas tensões intrínsecas na sociedade francesa e nos rumos da integração com a UE. Mas dois passos essenciais já foram dados: o diagnóstico e a obtenção de um mandato popular inequívoco para pôr o programa – com o perdão do trocadilho – em marcha.

Não é preciso muito esforço para entender a semelhança entre os problemas econômicos da França e do Brasil. Aqui temos uma agravante: a crise política, com a sensação de que a corrupção tomou conta de todas as áreas da vida pública. Populistas à esquerda e à direita apostam na desilusão e no caos para chegar ao poder em 2018. O exemplo de Macron mostra que as propostas sensatas – que combatam problemas reais, não inimigos imaginários – ainda têm chance numa democracia. A oportunidade está aberta.

 

 

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18 comentários em “BRASIL, FRANÇA E O FUTURO EM GESTAÇÃO.

  1. Lourival Marques
    06/27/2017

    Desculpem-me por fugir um pouco do assunto, mas não posso deixar de comentar:

    Viram o desespero dos petistas e cia com a proximidade da sentença de Moro?
    Lula pede que Temer antecipe eleições imediatamente, ao arrepio da Constituição, como se o Brasil fosse parlamentarista.
    O presidente do PT – RJ prega luta armada nas ruas se Lula for preso.

    Eu já tinha uma boa noção do desprezo que eles sentem pela democracia, e diante dessas notícias não pude deixar de lembrar seus textos sobre as esquerdas, Paulo.

  2. Francisco Fabio de Paula Colares
    06/23/2017

    Você respondeu o que eu não perguntei. Perguntei qual a carga tributária destes países. Já concordei, de longa data, que também acho imprescindível o equilíbrio fiscal. Então faça uma análise do que perguntei e não volte a esta ladainha. Não, Paulo, o problema da França e do Brasil não é o custo trabalhista; É quem financia o Estado. Na França eu não sei, mas aqui eu sei. E o que sei não colabora nada com seu pensar. Estamos ficando nas mãos dos rentistas que nos leva à escravidão. E eu não aceito que a humanidade, em sua grande maioria se torne escrava.

    • Questões Relevantes
      06/23/2017

      Eu respondi o que perguntou. Mas para não variar, você não entendeu.

      • Francisco Fabio de Paula Colares
        06/24/2017

        Aonde? Faço então outra pergunta: QUEM PODE AGREGAR VALOR A UM PRODUTO? É O TRABALHO OU O CAPITAL? POR QUÊ O CAPITAL FICA COM A RENDA? Estas são questões básicas para se entender a relação TRABALHO X CAPITAL. Então você entenderá porque a proteção das leis trabalhistas. Se o capital se contentasse com os juros e a renda fosse para que a produz não haveria necessidade destas leis. É Paulo eu não sou erudito, mas, ao contrário de muitos eu raciocino. Explique então o porque da renda ir para o capital. Com sua aula, talvez eu me convença. Mesmo você dizendo que eu não entendo. Ajude, eu sou um aluno esforçado!

      • Questões Relevantes
        06/24/2017

        Seu raciocínio é fruto de preconceito e desconhecimento de como os diversos trabalhos individuais se articulam para gerar um produto ou serviço, inclusive muito trabalho intelectual.

        Seguem abaixo dois artigos. O primeiro trata da questão da MAIS VALIA, que é a base de seu raciocínio. O segundo volta à suas perguntas anteriores.

        MARX, A MAIS-VALIA E O PESO DOS OBJETOS TRANSPARENTES.
        http://wp.me/p4alqY-zJ

        SERÁ QUE EXISTE UMA EXPERIÊNCIA VIRTUOSA DE ESQUERDA?
        http://wp.me/p4alqY-if

      • Francisco Fabio de Paula Colares
        06/24/2017

        ‘Outra sem resposta. Eu perguntei para você e não para Marx. QUEM AGREGA VALOR A UM PRODUTO? É O CAPITAL OU O TRABALHO?
        _Desde as conversas anteriores que tendo mostrar para vocês da direita (Não é só para você. Quero atingir quem nos nos lê) que apresentam soluções simplistas de problemas complexos. Tipo: Violência do menor querem resolver com diminuição da idade penal. Combate a violência com ações policiais e armar os do “bem” para se defenderem. Fechar os olhos para a miséria construindo muros de isolamento e fazendo “limpeza cirúrgica” tipo Dória com a “cracolândia”.São soluções que não solucionam nada.
        -Vocês não conseguem nem o diagnóstico correto como querem chegar as soluções?

      • Questões Relevantes
        06/24/2017

        Francisco, se você não entende as respostas, o debate fica sem sentido.

  3. Rocco Linquito Criscuola
    06/21/2017

    Comparação desproporcional. É difícil chamar o Estado do Brasil de obeso quando as empresas daqui são majoritariamente do ramo de serviços, empresas essas que emparelham e corrompem o Estado e agora lançam esse lobby, essa fantasia do “Estado Mínimo”.
    Paralelo a isso e ajudando nessa pouca industrialização e dependência estrangeira pro acesso a tecnologia que mantém um belíssimo monopólio. A economia agrícola é a base de commodities que nunca terá um “vale do silicio” pois as próprias empresas de lá que aqui operam não permitiriam nem um estado de anarquia. Negar isso é negar a realidade.

    • Questões Relevantes
      06/21/2017

      Rocco, você revela duas coisas claras: preconceito e desconhecimento do que comenta. Defende o mesmo tipo de lógica que derrubou a economia brasileira e gerou 14 milhões de desempregado.

      Sem responsabilidade e equilíbrio fiscal não há solução sustentável.

      • Francisco Fabio de Paula Colares
        06/23/2017

        Paulo. você voltou com a mesma ladainha e como ainda não morri, também volto. Você continua a sofismar com o mote da “responsabilidade fiscal” como se alguém, com alguma lucidez, pudesse ser contra isto. O problema não é este, o problema é QUEM FINANCIA O ESTADO.O problema daqui e da França é este.Você fala do “absurdo” de carga tributária que chega a 53% do PIB. Como sei que você é capitalista e o capitalista diz que a renda deve ser diretamente proporcional ao capital empregado, pergunto: Qual empresa, nos dias de hoje,seja de que tamanho for, tem o capital próprio acima do capital investido pelo ESTADO E A COLETIVIDADE, que permite esta empresa funcionar? Comece com o “cabedal de conhecimentos da humanidade que esta empresa usa e e siga com tudo que o ESTADO coloca a disposição dela,água, luz, esgoto, estradas, aeroportos, etc, etc etc e me diga qual deve ser a participação do ESTADO na renda desta empresa? Pense…!

      • Questões Relevantes
        06/23/2017

        Francisco, você andava sumido. Melhorou o nível da argumentação, mas continua não entendendo o que escrevo. O problema da França é que ela, por conta da legislação trabalhista, perdeu competitividade DENTRO da Europa. Não consegue competir com Alemanha, Itália, Espanha etc. Está perdendo indústrias, empregos e impostos. Gera problemas em cascata e não tem caixa para sustentar os benefícios atuais. Ou arruma a casa, ou quebra.

  4. Lourival Marques
    06/21/2017

    Bom para a França. Espero que ele consiga “dessindicalizar” um pouco aquele país. Mas por aqui…

    Quem seria nosso potencial Macron (se é que existe um)?

    • Questões Relevantes
      06/21/2017

      Realmente não temos ninguém no radar. Os nomes que andam circulando ou são assustadores.

      • Lourival Marques
        06/22/2017

        Temo pelo que poderá vir por aí…

      • Francisco Fabio de Paula Colares
        06/23/2017

        É continua o mesmo! Eu não entendo o que você escreve! Eu entendo Paulo, não sou erudito (que pena, né?), mas eu entendo e sei que você também me entende. Só que aonde você quer chegar não é o mesmo lugar que eu quero. Daí estarmos certos, eu para chegar no meu e você para chegar no seu. Só que eu raciocino levando em consideração o caminhar da humanidade e este chega, paulatinamente ao socialismo; Porque é o lógico. E sei que você é suficientemente inteligente para não me fazer a pergunta: “Aonde o socialismo deu certo?” Pois retrucarei: “Aonde o capitalismo deu certo?”
        -Agora, só para fazer você pensar: Quais os países considerados com melhores qualidade de vida? E qual a carga tributária deles? Então não é por aí…!

      • Questões Relevantes
        06/23/2017

        Francisco, o problema da França é CUSTO TRABALHISTA. É esta a discussão principal. Quanto à questão “dos melhores países”, são todos democracias liberais com equilíbrio fiscal.

      • Lourival Marques
        06/27/2017

        Não vejo diferença entre quem defende o socialismo, como o Francisco Fabio, e quem defende a inquisição, como Olavo de Carvalho.

      • Questões Relevantes
        06/27/2017

        Lourival, o Olavo de Carvalho tem coisas brilhantes e outras estúpidas, mas ele domina muito bem os conceitos que utiliza. Já o Francisco Fábio ignora completamente os conceitos de que trata. Já, algumas vezes, brinquei com ele dizendo que criou um socialismo para chamar de seu, uma coisa assim boazinha, bovina, pacífica, a própria encarnação do belo e do justo. Não para em pé, não tem exemplos práticos, ninguém compartilha, mas é neste realismo mágico que ele trafega.

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