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AS VEIAS ABERTAS DA VENEZUELA E O SILÊNCIO DA ESQUERDA.

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O fenômeno não é exclusivo da América Latina, mas ganha um colorido mais forte por aqui: o silêncio da esquerda diante de ditaduras que se digam comunistas ou socialistas. No caso específico do projeto bolivariano da Venezuela, que nunca foi sólido e agora se desmancha a olhos vistos, é fácil observar que quando não silenciam, mentem, como já demonstrei no artigo em que analiso a inacreditável entrevista de Igor Fuser a Heródoto Barbeiro (disponível aqui).

No prefácio da reedição de 2010 do livro As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano diz: “A história não quer se repetir – o amanhã não quer ser outro nome do hoje –, mas a obrigamos a se converter em destino fatal quando nos negamos a aprender as lições que ela, senhora de muita paciência, nos ensina dia após dia”.

Evidentemente esta frase foi lavrada por ele como uma crítica aos seus culpados prediletos, os colonizadores europeus e o imperialismo dos EUA no continente. A culpa de nossas mazelas não é de nossas escolhas, mas de exploradores malvadões. É o que já chamei de “exterioridade da culpa” e funciona como a desculpa perfeita para não reconhecer os próprios erros.

Quando Galeano escreveu este prefácio Hugo Chávez já havia dado uma cópia do livro ao presidente Barack Obama durante a 5ª Cúpula das Américas e usado toda a “exterioridade da culpa” que ele dissemina para justificar seu “socialismo do Século XXI”. Também já havia transformado a Venezuela em uma ditadura de esquerda, com ineficiência econômica, inflação crescente e contas públicas em entropia (desvalorizou a moeda em 2005 e 2010).

Assim, é justo que apliquemos a frase de Galeano à sua própria retórica e ao discurso viciado da esquerda que continua vendo liberdade onde a população vive sob o julgo de ditaduras e vê como redentoras escolhas econômicas que terminam sempre por esgotar as veias da população para irrigar o estado inchado, ineficaz e corrupto.

O que já estava desenhado em 2010 “arromba as retinas” em 2017, mas continua não sensibilizando a esquerda.

Assista a este VÍDEO que mostra o pitoresco alheamento da imprensa venezuelana à realidade que atropela a população. É particularmente reveladora a cena aos 40 segundo em que vemos o contraste entre Maduro dançando na TV e a população em confrontos nas ruas.

É oportuno também o contraponto com o artigo de Leandro Narloch que reproduzo abaixo. Nele, ao contrário dos devaneios de Eduardo Galeano,  Narloch lembra que a CIA bateu asas pelo Chile na época, mas não causou o desabastecimento e a crise. E eu lembro que na Venezuela a crise e o desabastecimento foram produzidos tijolo a tijolo pelos erros em série de Chávez e Maduro,  enquanto a CIA continua longe e os EUA seguem sendo o principal comprador do seu petróleo (se parasse de comprar a crise seria muito maior).

Introdução por Paulo Falcão.

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Venezuela de Maduro lembra o Chile de Allende

Por Leandro Narloch – Gazeta do Povo

 

Imagine se daqui algumas décadas seus netos aprenderem no livro didático de história que o caos atual da Venezuela foi causado pela queda do preço do petróleo e por sabotagens da CIA, que teria patrocinado greves e protestos pelo país.

Seria um absurdo, é claro. Todos sabemos que a triste crise venezuelana nasceu com as maluquices socialistas e populistas de Chávez e Maduro. Mas a narrativa acima é a mesma que se divulga sobre uma crise similar, a do fim do governo Salvador Allende, em 1973.

“Era preciso fazer fila para comprar tudo, papel higiênico, sabonete. Na padaria, não tinha pão. Meu sogro precisava fazer fila na banca de jornal para comprar cigarro”, conta a bióloga chilena Celia de las Mercedes Morales Ruiz, que emigrou para o Brasil em 1973 e hoje dá aulas de espanhol em São Paulo. “Quando casei, em junho de 1973, uma amiga minha me deu tamancos de madeira, porque não havia sapatos à venda. Uma conhecida de minha mãe fez para mim dois jogos de lençóis, porque não havia onde comprá‑los.”

Como Chávez e Maduro, Allende nacionalizou empresas, impôs controles de preços e quebrou as contas públicas. O resultado foi um completo desabastecimento de produtos básicos. Quando milhares de chinelos formaram filas em supermercados de prateleiras vazias, Allende criou um cartão de racionamento similar ao de Cuba.

Em 2011, escrevendo o Guia Politicamente Incorreto da América Latina, eu e o jornalista Duda Teixeira entrevistamos chilenos que viveram a crise do governo Allende. É impressionante como o relato deles é o mesmo dos imigrantes venezuelanos de hoje.

“Para comprar alimento, era preciso fazer fila nas Juntas de Abastecimentos de Preços”, conta o chileno Ricardo García Valdés, engenheiro elétrico da Standard Electric em Santiago na época. “Cada um tinha o seu cartão de racionamento. Havia uma coluna com o nome dos produtos (carne, sal, óleo etc.) e outras nas quais as pessoas faziam um “x”. De tempos em tempos, era preciso trocar o cartão. Isso era para pessoas como eu. A grande maioria dos socialistas tinha acesso especial à comida.”

Como venezuelanos que se mudam hoje para Roraima, chilenos ficavam maravilhados com a abundância de produtos nos mercados brasileiros. “Quando chegamos, eu e minha mulher ficamos meia hora olhando a Sears, em Botafogo, com andares cheios de produtos. Tinha bateria de carro. Tinha pneu. Geladeira. Máquina de lavar roupa. Ferro de passar. No Brasil tinha de tudo. No Chile não tinha nada”, diz o engenheiro.

É verdade que a CIA bateu asas pelo Chile na época. Mas as nacionalizações e racionamentos provocariam protestos mesmo sem o apoio americano. Também é verdade que o governo Pinochet, que sucedeu Allende, cometeu crimes que não se pode perdoar. Isso não diminui o fato do socialismo de Allende ter arruinado o Chile seguindo a mesma receita que, décadas depois, inspiraria Chávez e Maduro.

 

Link para o artigo original AQUI

 

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19 comentários em “AS VEIAS ABERTAS DA VENEZUELA E O SILÊNCIO DA ESQUERDA.

  1. Questões Relevantes
    08/31/2017

    Ainda existe quem negue o óbvio, mas ficam mais ridículos a cada dia. Veja esta notícia do El País:
    Linguagem stalinista na Venezuela
    Constituinte criminaliza os membros da Assembleia Nacional e os julga como “inimigos do povo”
    https://goo.gl/Bwfmk4

  2. Valeria Marcolin
    08/02/2017

    Eu morei lá em 2010 e já faltava um monte de coisas nas prateleiras. Chávez chamava quem jogava golf de maricon em rede nacional. Caos.

    • Questões Relevantes
      08/02/2017

      Obrigado pelo depoimento.

  3. Helder Lopes
    06/17/2017

    Interessa-me mais um país a procura de seu ideal, com crise de abastecimento e desorganizado, que um país com o capitalismo em toda sua pujança…hirc!

    • Lúcio Júnior Espírito Santo
      06/17/2017

      Mas não é socialismo e nem comunismo.

      • Marcus Vinicius
        06/17/2017

        Maduro discorda de você, Lúcio.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        06/17/2017

        Maior demagogo.

      • Questões Relevantes
        06/17/2017

        Helder, é interessante que prefira o desastre à razão, o erro persistente a alternativas que já se provaram muito melhores sob qualquer régua que se use para compará-las. Admiro sua coragem de dizê-lo claramente, mas como já disse em outro artigo, é o tipo de esperança sem amanhã.

    • Lourival Marques
      06/17/2017

      Enquanto Maduro está à procura do “ideal”, Helder, os venezuelanos estão passando fome e morrendo aos magotes.

      E goste vc ou não, o único sistema político que deu certo até hoje é o capitalismo.

      • SEVERIANO MENDONÇA SARMENTO
        07/18/2017

        NO CASO DA VENEZUELA NÃO É SÓ A FOME QUE ASSOLA AS FAMÍ
        LIAS MAS POBRE S~SAO MAS DE 100 MORTOS DIGA-SE MELHOR MAS DE 100 ASSASSINATOS DE PESSOAS QUE ESTAVAM MANIFESTANDO CONTRA A DITADOR MADURO…MAS DE 100….PESSOAS NOS ULTIMOS 3 MESES DE MANIFESTAÇÕES NA VENEZUELA

      • Questões Relevantes
        07/18/2017

        E pensar que temos no Brasil psicopatas defendendo a ditadura Venezuelana, como Igor Fuser, Gleisi Hoffmann e parte considerável da esquerda tupiniquim.

  4. Lúcio Júnior Espírito Santo
    06/17/2017

    Venezuela é democracia liberal. Tem imprensa contra o governo. Tem oposição no parlamento. Ou essa oposição sabe menos q vc Paulo…

    • Questões Relevantes
      06/17/2017

      Lúcio, democracia não existe sem independência entre os poderes e respeito ao estado de direito.
      Eleições e imprensa garroteada não definem uma democracia.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        06/17/2017

        Eu acho que lá há populismo e crise. Mas havia ditadura socialista sob Allende. Lembre-se q a oposição a qual vc se alinha é que deu o golpe em ambos os casos…

        Como te incomoda a vitória do populismo em eleições hein…

      • Questões Relevantes
        06/17/2017

        Minha posição é pela democracia que ocorre com eleições livres e periódicas, existência e independência dos 3 poderes e respeito à constituição.
        Combato todas as ideias que desprezam estes valores, à direita e à esquerda. São ideias perigosas que sempre terminam em ditaduras. Sem exceção conhecida.

    • Lourival Marques
      06/17/2017

      “Venezuela é democracia liberal. Tem imprensa contra o governo. Tem oposição no parlamento.”

      Como se só isso bastasse para tornar um país uma democracia liberal.
      E outra coisa, Lúcio Júnior: imprensa e oposição estão sendo sistematicamente esmagadas por Maduro, do mesmo modo que Chávez fazia.

      • Questões Relevantes
        06/17/2017

        Quem não compreende a democracia e não a tem como valor fundamental não vê mal nenhum nas ações que a desfiguram, que a corroem.

  5. Victor Hugo Pinheiro Cunha
    06/17/2017

    Na Venezuela não havia nada desde antes da esquerda subir ao poder.. Se o venezuelano está desapontado com o fracasso da esquerda… Isso não é uma vitória da direita… É o fracasso da política seja de qual lado for.

    • Questões Relevantes
      06/17/2017

      Não é verdade. Tenho amigos por lá.

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