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ALCEU VALENÇA E SEU PAPAGAIO DO FUTURO: IRONIA COM MARX OU MERA COINCIDÊNCIA?

Vivo Alceu Valença

O genial e irrequieto pernambucano Alceu Valença chamou a si mesmo de “Papagaio do Futuro” em canção de 1972 onde se arriscava a falar do “futuro indicativo”. A música é ótima e o disco animou (talvez ainda anime) muita festa de universitários. Se ainda não conhece, não deixe de ouvir. O link está no final.

O que esta música tem a ver com Marx? Tudo, mesmo que seja uma mera coincidência. Posso estar enganado, mas acredito que Alceu Valença, com sua irreverência acelerada, fez uma releitura bem humorada de um dos trechos mais famosos e mais utópicos de Marx, extraído da “Crítica ao Programa de Gotha”. Nele Marx discorre sobre o paraíso terreno que estaria no final da ditadura do proletariado e o idílico e mitológico comunismo que dela brotaria:

“Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”

Agora comparem com estas quatro últimas estrofes da canção, removendo a utopia messiânica e acrescentando boa dose de existencialismo extrovertido:

 

Olha, a defesa é natural

E cada qual para o que nasce

Cada qual com sua classe

Seu estilo de agradar

 

Um nasce pra trabalhar

Outro nasce para a briga

Outro vive de intriga

Outro de negociar

 

Outro vive de enganar

Olha, o mundo só presta assim

É um bom, outro ruim

E eu não tenho jeito pra dar

 

Pra acabar de completar

Quem tem o mel dá o mel

Quem tem o fel dá o fel

E quem nada tem, nada dá

 

É interessante que a utopia da homogeneização dos quereres e da fraternidade universal dão lugar a uma análise pragmática e terrena, sintetizada com perfeição na estrofe Olha, o mundo só presta assim / É um bom, outro ruim / E eu não tenho jeito pra dar.

Qual dos dois descreve melhor a natureza humana e os sucessivos “devires” deleuzianos, as tensões e tentações da vida cotidiana em sociedades complexas?

Viva, Alceu Valença!

Segue a letra na íntegra e o link para a canção.

 

Papagaio do Futuro

 

Estou montado no futuro indicativo

Já não corro mais perigo

Nada tenho a declarar

Terno de vidro costurado a parafuso

Papagaio do futuro

Num para-raio ao luar

 

Eu fumo e tusso

Fumaça de gasolina

Olha que eu fumo e tusso

 

Quem sabe, sabe, quem não sabe, sobra

Cobra caminha sem ter direção.

Quem sabe a cabra das barbas do bode

A águia avoa sem ser avião

 

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

 

Tem gente lá de São Paulo (quer dizer que é paulistano)

Tem gente da Paraíba (quer dizer paraibano)

Tem gente das Alagoas (quer dizer alagoano)

Tem gente de Pernambuco (quer dizer pernambucano)

 

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

Vamos visitar a Lua (é num foguete americano)

 

Nas horas premeditada eu vou cantar pra você

Com brilho, vou proceder

Lá vou eu continuar

 

Olha, a defesa é natural

E cada qual para o que nasce

Cada qual com sua classe

Seu estilo de agradar

 

Olha, um nasce pra trabalhar

Outro nasce para a briga

Outro vive de intriga

Outro de negociar

 

Outro vive de enganar

Olha o mundo só presta assim

É um bom, outro ruim

E eu não tenho jeito pra dar

 

Pra acabar de completar

Quem tem o mel dá o mel

Quem tem o fel dá o fel

E quem nada tem, nada dá

 

 

 

Artigo de Paulo Falcão.

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5 comentários em “ALCEU VALENÇA E SEU PAPAGAIO DO FUTURO: IRONIA COM MARX OU MERA COINCIDÊNCIA?

  1. Alfredo S. Amaral
    05/31/2017

    Grande Alceu. O cara sempre foi antenado. Espero que apareça por aqui para confirmar sua impressão. Eu gostei e concordo com você.

    • Questões Relevantes
      05/31/2017

      Seria uma honra. Quem sabe?

  2. Solange Gomes
    05/30/2017

    Bela sacada. Gostei.

    • Questões Relevantes
      05/30/2017

      Obrigado.

  3. Jornal do Siúves
    05/30/2017

    Viva Valença-ça-çá!

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