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CÁLICE, DE CHICO E GIL, A VENEZUELA E A PORCA QUE JÁ NÃO ANDA.

Chico e Milton

Nos últimos dias debati com várias pessoas sobre a falsificação da realidade promovida por parte da esquerda sempre que se manifesta em público. Não estou afirmando que toda pessoa de esquerda mente, conheço alguns que são íntegros, mas há uma turma com visibilidade na mídia que mente compulsivamente. O ponto de partida objetivo do artigo anterior e do debate que se seguiu foi a Venezuela que o militante professor Igor Fuser vê com “democracia até demais”. Chega inclusive a declarar publicamente que deseja vê-la implantada no Brasil (o artigo e o debate podem ser lidos aqui).

Hoje, vendo as imagens de Maduro dançando na TV e seus blindados atropelando a população, me lembrei da bela canção CÁLICE  composta por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973, plena de jogos de palavras e metáforas sobre o peso da ditadura brasileira, sobre a opressão de quem faz de tudo para calar vozes dissidentes.

É cultuada pela esquerda, merecidamente, mas repare: embora à época estivesse se opondo a uma ditadura de direita, sua postura é contra o arbítrio, a violência, o estado autoritário.  Hoje, serve perfeitamente como trilha sonora contra a ditadura de esquerda pilotada por Nicolás Maduro.

Segue a letra e o link para a excelente gravação com Chico e Milton Nascimento.

CÁLICE

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno

Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

https://www.youtube.com/watch?v=376c56dmHmY

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10 comentários em “CÁLICE, DE CHICO E GIL, A VENEZUELA E A PORCA QUE JÁ NÃO ANDA.

  1. Pavel Leguska
    05/09/2017

    Bom, o Questões Relevantes quer ser bom moço e evita avançar na questão da ação política da esquerda naquele período, na verdade naquela época já existia um forte patrulhamento que impedia que os autores, cantores e demais artistas não filiados a esquerda tivessem palco, eles eram dizimados até o ostracismo.
    Foi a música de Vinicius de Morais que encantou a França a ponto de seu mega filme da epoca “Um homem,Uma mulher” ser uma louvação da música brasileira, anos mais tarde um francês esteve aqui querendo se deslumbrar na “magica música do Brasil” e saiu decepcionado do festival dizendo que aquilo não era música do Brasil. O fato era que a música brasileira era muito requintada e classe média no coração, música alternativa era a “baiana” da trupe dos velosos que investia em homossexualismo feminino e atitude drop out tupiniquim portanto ativista embora não esquerda engajada mas contracultura.
    Chico era um produto da época uma época inocente que não criava barreiras sociais e daí geravam John Lennons, Chicos e Brizolas, Chico vinha da classe média baixa e estudava em colégio onde todos menos ele vinham em carros particulares com motoristas, ele ia de ônibus daí para virar sociopata (roubava e vandalizava carros que ele não possuía) foi um passo mas a sociedade brasileira da época era tolerante e ai nasceu o abestado compositor (a banda) que então virou musico de protesto, a música Cálice é sua obra prima e tem construção requintada a partir do título que faz contraponto do Cálice de Jesus com o cale-se da pretendida violência da elite nacional, sua letra é o sofrimento de quem habitou os dois lados mas veio do lado “negro da força”, Brisola e Lennon sem dúvida eram seus irmãos na posição de penetras sociais e então eternos farsantes. O fato é que sua música tem o selo da classe média no período e vai fenecendo na eliminação da burguesia brasileira pos-64 ele já admitiu que comprava música e algumas delas são nítidos plágios mas de ghost-writers letristas ele nunca falou assim os esquerdas classe média que o ajudaram provavelmente ficarão no limbo.
    O aparelhamento da música brasileira foi além do patrulhamento, a música brasileira era civilizada, de elite e musicalmente muito criativa, a ordem era destruir esta cultura para cópia de baixa qualidade de música americana de baixa qualidade, até nosso samba do morro era de ótima qualidade, surgiu até um movimento entre os artistas em defesa da produção nacional dos anos 60, “É preciso que nossa emoção sobreviva” era o distico do movimento mas o globalismo não deixou, começamos com o rock e agora estacionamos no funk, chico parece bom solitariamente porque foi o único com Caetano que foi deixado sobreviver mas como ícone da esquerda e não um dos músicos do período. No Brasil pós 64 toda a produção artística, (filmes, musica, o escambau) virou caso de estado e só os que criavam o brasil berço esplendido tinham vez e então no lulismo os que representavam o brasil esquerda quando a globo de emissora da elite passou a ser a voz do esquerdismo criaram e continuam criando a narrativa totalitária como representação da alma e história do Brasil.
    Seria interessante alguém escrever sobre a música do brasil de 40 a 1970 sem Chico nem Caetano e caterva, é um tesouro enterrado mas num pais onde até seus feitos aeronáuticos são destruídos fisicamente pela eliminação do modesto museu no parque Ibirapuera para outro museu “do Negro” onde a chegada do elemento europeu, asiático, judeu e árabe a partir do seculo 19 em São Paulo é omitido para a estoria do afro criador de tudo sendo explorado pela “elite Branca” sem dúvida não vai haver nem apoio do estado nem permissão de exibição do trabalho, a esquerda o fará morrer no silencio que impõe a todos que não participam de seu projeto de poder.

    • Questões Relevantes
      05/09/2017

      Me perdoe a brincadeira, mas seu comentário está naquela linha consagrada por Sérgio Porto através de seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta: um “Samba do Cioulo Doido”.
      Sim, é verdade que praticamente toda a classe artística era de esquerda ou adepta da contracultura, mas você faz uma avaliação rasa e preconceituosa do período e de seus desdobramentos. É um caso típico de quem escutou ou leu um monte de bobagens e acreditou nelas, como por exemplo a insinuação de que Chico se utiliza de ghost-writers. Há um vídeo que alguns “jenios” compartilham com frequência em que ele “confessa” comprar músicas. É inacreditável uma “denúncia” destas. Checar as informações antes de compartilhar ou emitir opiniões bombásticas faz bem. Este vídeo faz parte dos EXTRAS de um DVD do próprio Chico e é uma piada, uma brincadeira, relacionada com o personagem do seu livro Buapest, cujo personagem principal é um ghost-writer.
      Eu discordo de todas as opiniões políticas do Chico, mas discordo ainda mais de quem reproduz barbaridades como esta. Segue link sobre o DVD com a brincadeira:
      http://zip.net/brtJv2

      Quanto à sua sugestão sobre a valorização da produção dos anos 1940 a 1970, já foi feita e reeditada diversas vezes pala Editora Abril em fascículos História da Música Popular Brasileira em que vinha uma biografia do artista, uma análise de sua obra e um disco de vinil com uma coletânea bem organizada. Nomes como Heraldo Lobo, Lamartine Babo, Dorival Caymmi, Vadico e Ari Barroso fizeram parte.
      Nos anos 1980 o Grupo Rumo também lançou um disco chamado Rumo aos Antigos que resgatava preciosidades de Vadico, Noel Rosa, René Bittencourt, Lamartine Babo, Sinhô, Heitor dos Prazeres etc.
      Recomendo que ouça com atenção e prazer o excelente cancioneiro produzido por Chico, Edu Lobo, Tom Jobim, Caetano e Gil, Vinícius de Moraes, Caymmi e muitos outros. Aproveite para estudar um pouco o assunto de que trata.
      Não é preciso ser “um copo até aqui de mágoa” como já cantou Chico Buarque e se deixar contaminar por exóticas teorias. Lembre-se de Riobaldo Tatarana, personagem e narrador do livro “Grande Sertão: Veredas” de Guimarães Rosa: “…a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve tolerar de ter. Porque quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente: o que isso era falta de soberania, e farta bobice, o fato é.”

  2. Carmen Gimenez
    05/08/2017

    O tempo mostrou chico direitinho…

    • Questões Relevantes
      05/08/2017

      O Chico continua um gênio da canção brasileira e nunca escondeu suas preferências políticas. O presente artigo é, evidentemente, uma ironia com o próprio artista e suas escolhas, mas mesmo discordando de suas preferências ideológicas, não abro mão de sua qualidade estética.

  3. Eurico Silva
    05/07/2017

    É uma Questão Relevantíssima para a direita global dar um golpe na Venezuela. Estão tentando a mais de 10 anos!

    • Questões Relevantes
      05/07/2017

      Já tivemos esta discussão. O que a Venezuela atravessa hoje, praticamente uma guerra civil, é a consequência natural de uma ditadura esperneando para se manter no poder. O cenário foi obra interna, executado por Chávez e herdado e piorado por Maduro.

      • Eurico Silva
        05/07/2017

        Se eu fosse um chavista, faria de tudo mesmo para não permitir o golpe. A violência de direita seria tamanha que minha vida e de outros chavistas estaria em risco extremo. Chavistas devem mais é aniquilar a direita violenta e golpista, até por extinto de sobrevivência física.

      • Questões Relevantes
        05/07/2017

        Tudo isso poderia ter sido evitado se Chávez não tivesse destruído a economia e a democracia da Venezuela.

        Previ que não haveria um final indolor para esta história em 2014. Já estava tudo desenhado.

  4. Arnaldo Campelo
    05/07/2017

    Pensando bem, já na época poderia ter sido cantada pelo Chico para os irmãos Castro. Ainda tem o Raulzito para se comover com sua posição de opressor.

    • Questões Relevantes
      05/07/2017

      Tem razão. Obrigado.

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