Igor Fuser

O que dizer de um cientista político, mestre em Relações Internacionais e professor de Universidade Federal que demonstra publicamente sua incapacidade na área em que se diz especialista?

A ele, nada. É perda de tempo. Mas é importante desmontar a farsa.

Igor Fuser foi entrevistado por Heródoto Barbeiro em 19 de abril de 2017 e proferiu várias das bobagens que adora repetir. Não vou me deter em suas opiniões sobre o impeachment de Dilma porque seus argumentos já estão desmontados aqui e aqui. Vamos nos concentrar na sua narrativa sobre as dificuldades políticas e econômicas da Venezuela.

A opinião do militante professor na entrevista pode ser resumida assim: a crise na Venezuela é culpa da direita malvadona, dos comerciantes inescrupulosos e da queda dos preços do petróleo a partir de 2014 (link para a entrevista completa aqui).

Uma afirmação destas revela miséria intelectual ou moral. Se de fato acredita nisto, o que é improvável para um especialista em Venezuela, o déficit é intelectual. Caso contrário, está simplesmente mentindo e o problema é moral.

Uma semana após a reeleição de Dilma em 2014 escrevi um artigo em que fiz a seguinte análise:

“A esquerda e o PT acreditam que aparelhando tribunais, autarquias, congresso, repartições, estatais etc. vão conseguir mudar até as leis da oferta e da procura ou a lógica da economia. Imaginam que todos os movimentos, todas as experiências internacionais falharam porque não tinham um Lula, um José Dirceu ou uma Dilma manejando o leme do destino. Mas para quem entende um pouco de economia, de natureza humana e de matemática, Brasil, Argentina e Venezuela formam um gráfico que mostra diferentes estágios da evolução desta “doença”.

No Brasil, com estrutura econômica e política mais sólida, com maior vigilância da sociedade civil, o caos evolui mais lentamente. Na Argentina, já vemos o estágio 2, com dólar paralelo e índice de inflação totalmente descolados da “verdade oficial”, desemprego crescente e falência financeira. Na Venezuela, infelizmente, chegou-se ao estágio 3, ou seja, terminal. Dificilmente o país sai desta crise sem muito sofrimento para toda a população”.

É algo bem mais sólido e lúcido do que estas bobagens que o professor Igor Fuser diz agora, em 2017, sem reconhecer nem mesmo a realidade que o atropela.

Para começar, como está claro no gráfico abaixo, os preços do petróleo no período de 2010 até o final de 2014 estiveram acima dos preços anteriores à 2008.

Como explica bem Justin Fox em artigo de 2015, a divergência entre receitas e despesas da Venezuela começou muito antes do colapso do preço do petróleo em 2014. Quando os preços atingiram uma alta histórica, em julho de 2008, 40 por cento da recita do governo vinha diretamente do petróleo, mas já estava diminuindo porque a capacidade de produção apresentava queda: caiu de 3,3 milhões de barris por dia em 2006 para 2,7 milhões em 2011 e seguiu assim até 2014, segundo estudo da BP Statistical Review of World Energy.

A queda na produção não é falta de reservas ou de compradores, mas falta de capacidade técnica de exploração. A gestão que o governo Chávez realizou na Petróleos de Venezuela (PVDSA), a partir do ano 2000, corroeu a eficiência da companhia.

Ao mesmo tempo em que reduzia a eficiência da empresa, o presidente venezuelano começou a chamar sua estratégia de governo de “Socialismo do Século 21” e transformava em gastos públicos os recursos do petróleo. Continuou com gastos elevados mesmo após o dinheiro começar a acabar, o que deixou o país em uma situação insustentável (é o tal realismo mágico que a esquerda adora, gastando como se não houvesse amanhã).

Assim, não é por acaso mas por má gestão que Chávez desvalorizou a moeda venezuelana em 2005 e repetiu a dose em janeiro de 2010.

preço do petróleo

A crise, é bom lembrar, não se deve apenas à péssima gestão do setor de petróleo e à irresponsabilidade fiscal. Chávez, com seu socialismo populista, dilapidou a iniciativa privada da Venezuela e, com ela, a eficiência em diversos setores. Em 2009, por exemplo, a produção industrial se retraiu 8,3% devido à escassez de matérias-primas e de recursos para importar estes insumos. Não foi um caso isolado e sim a reiteração do desastre conduzido pelo caudilho bolivariano.

Em 2010 a Venezuela teve inflação de 40% e uma das recessões mais severas do mundo. Foi neste ano que, após perseguir e sucatear o setor de supermercados (como se eles fossem os responsáveis pela escassez), Chávez criou a PDVAL, estatal alimentícia, subsidiária da estatal petrolífera PDVSA, para distribuir alimentos no país. Não resolveu e ficou famoso o episódio das toneladas de carne apodrecendo no porto pela ineficiência da estatal.

É importante lembrar que, com o desestímulo aos produtores rurais “burgueses”, cerca de 90% dos alimentos consumidos no país eram importados.

De lá para cá a coisa não melhorou nada, ao contrário.

Em 2015, para pagar suas contas, a Venezuela teve que emprestar US$ 15 bilhões da China e imprimir muito dinheiro, piorando ainda mais a inflação e as contas públicas.

Acredito que até aqui tenha ficado claro que a explicação de Igor Fuser para a crise da Venezuela é falsa sob qualquer aspecto.

Passemos então para suas opiniões sobre a “democracia” na Venezuela, que ele inclusive já declarou desejar ver implantada no Brasil.

Ao atribuir a crise ao congresso e falar do poder judiciário como se fosse um poder independente, legítimo, e não um órgão destruído e aparelhado por Hugo Chávez, novamente nos leva à questão: trata-se de falha intelectual ou moral?

José Miguel Vivanco era diretor da Human Rights Watch para as Américas quando declarou: “Durante anos, o Presidente Chávez e os seus seguidores tem construído um sistema no qual o governo pode intimidar e punir venezuelanos que interferem com a sua agenda política. Hoje esse sistema está firmemente enraizado, e os riscos para juízes, jornalistas e defensores dos direitos humanos são maiores do que nunca.

Logo depois, em setembro de 2008, foi expulso do país e disse:

“(Chávez) Foi eleito democraticamente, mas trata-se de uma democracia em que o governante governa sem controles à sua gestão; é um Estado de Direito de papel”.

Ou seja: qualquer pessoa que domina o sentido das palavras e alguma lógica sabe que onde o estado de direito é de papel e não real, já não há democracia.

Democracia, como é compreendida em teoria política, pressupõe a existência de eleições periódicas e a existência e independência dos poderes executivo, legislativo e judiciário.

Também por lógica e precisão conceitual, tudo que não é democracia é ditadura, que pode assumir diversas formas, como a teocracia iraniana, as monarquias absolutistas, o fascismo, o nazismo, o comunismo, o socialismo ou o bolivarianismo Chavista.

Estes três últimos, aliás, são uma espécie de “sonho de consumo” de Igor Fuser. E, como podemos comprovar, ele não tem qualquer pudor em fazer malabarismos com as palavras e a realidade para defendê-los.

 

Artigo de Paulo Falcão.

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