briga-de-galos

Há um tema recorrente deste blog, talvez sua própria espinha dorsal: a compreensão do que representam, na prática contemporânea, os conceitos de ESQUERDA X DIREITA. O debate entre Marcos Nobre, professor livre-docente de filosofia da Unicamp e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP); e Luiz Felipe Pondé, filósofo pós-doutorado e professor na PUC-SP e FAAP, traz contribuições importantes para este objetivo. Produzido pela Fundação Moreira Sales, teve mediação do jornalista e diretor de redação da Folha de S.Paulo Otavio Frias Filho.

Minhas posições pessoais estão bem mais próximas de Pondé do que de Marcos Nobre, mas foram as falas de Nobre que mais me chamaram a atenção. A partir de 6:54″, por exemplo, faz uma afirmação que posso sintetizar assim: só há sentido em discutir conceitos como direita X esquerda em um ambiente democrático, até porquê, fora dele, esta discussão é suprimida pelo arbítrio.

Nas palavras dele: “estou excluindo todos aqueles que veem seu adversário como um inimigo a ser abatido. Esquerda e direita tem de estar em um ambiente democrático, ou seja, você tem que encontrar o outro como adversário. Isto não torna a disputa menos acirrada, menos violenta, às vezes, mas você vê o outro como adversário e não como inimigo a ser abatido. As formas de pensamento e de ação de esquerda e de direita que não aceitam a democracia não estão nesta caracterização que acabei de tentar esboçar”.

Outro ponto com o qual concordo (no trecho que começa em 14:54”): “a História do século XX, com todas as suas catástrofes, é uma História de compatibilização de democracia de massas e capitalismo” (…) “Neste momento você não tem mais o Estado que tinha no século XIX. Se você não tem mais o Estado que existia no século XIX, a ideia do Marx, o desaparecimento do Estado, desaparece junto. Então, a ideia de propriedade coletiva dos meios de produção, que passava primeiro por uma ditadura do proletariado e por um desaparecimento do Estado, perde seu sentido, porque o Estado no século XX se torna poroso aos movimentos sociais, se torna poroso à ação dos indivíduos e dos grupos. Passa a ser um espaço de disputa que não era antes. Isto muda completamente a configuração da disputa política e da própria democracia”.

Até aqui, falamos a mesma língua. Concordamos com o sentido das palavras em gênero, número e grau. Mas estão ele deixa escapar o complemento que revela, ao menos para mim, que não se deixou permear totalmente pelas próprias palavras (16:49”): “um dos direitos que está lá no catálogo, inquestionável para a direita, é o direito de propriedade, e eu acho um dos direitos mais interessantes de se questionar, e de levar até o limite, até onde for possível, dentro de regras democráticas de atuação”.

Mais adiante ele vai questionar também o conceito de liberdade.

Ora, se reconhecemos que a propriedade privada dos meios de produção e a liberdade individual são partes estruturais e estruturantes da democracia liberal (a única experiência concreta de democracia documentada depois da revolução industrial), o que Nobre propõe, na prática, é tentar usar as características que a tornam virtuosa para corroê-la e, no fim, destruí-la.

Como nos lembra Mariana Nóbrega em seu artigo BURGUESIA À BRASILEIRA, “Os direitos civis têm como pedra de toque a liberdade individual. Nessa categoria estão os direitos à vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei, prerrogativas que se desdobram na garantia de livre circulação, manifestação e organização, na inviolabilidade do lar e da correspondência, na garantia de um processo legal justo e no respeito às leis impostas pelo Estado por meio de uma Constituição. Os direitos políticos dizem respeito à participação dos cidadãos e cidadãs nas decisões relativas aos destinos da sociedade a qual compõem. O seu exercício corresponde à possibilidade de votar e ser votado, formar grupos políticos e organizar partidos. É possível existir direitos civis sem direitos políticos, no entanto, a plena realização dos direitos políticos só acontece com a realização dos de natureza civil”.

Logo, a contradição entre discurso e essência, ou a inconsistência conceitual entre os elementos centrais do pensamento expressado por Marcos Nobre neste debate me fazem cético quanto a ele realmente acreditar nos pontos de seu discurso em que estamos de acordo. Seja como for, as sínteses que produziu foram bastante interessantes ao logo de todo o programa, como demonstram os dois segmentos a seguir, como os quais também concordo:

“Quando a gente fala Estado, estamos falando de algo que, para mim, é sociedade, no sentido de que, se o Estado se autonomiza em relação à sociedade, nós temos um problema. O regime democrático, até hoje, foi o único que conseguiu manter o Estado mais ou menos submetido à sociedade. ” (30:53”)

“Para poder ter um debate entre direita e esquerda, a primeira coisa é não identificar direita com a manutenção da desigualdade. ” (Está em 40:04” mas para ser bem compreendia, sugiro assistir de 36:48 até 41:10”).

Já no próximo destaque vemos um primeiro segmento que nega boa parte da prática da esquerda no século XX e XXI e termina, mais uma vez, deixando entrever que a democracia, esta democracia liberal com a qual a esquerda vive em simbiose, não lhe é um valor fundamental. Sonha, utopicamente, com outras configurações:

“O pensamento utópico teve seu papel progressista no século XVIII, mas a partir do século XIX ele se torna simplesmente reacionário, quando não, perigoso. O pensamento de esquerda que estou defendendo aqui, desde o início, não tem nada a haver com utopismo, que não fica imaginando sociedades ideais na prancheta, nem nada disso, mas que sempre considera as condições concretas, sociais, em que está instalada a democracia e como é possível desafiar os limites da democracia estabelecida. ” (52:24”).

Ao longo do programa Pondé lembra diversas vezes (a primeira é aos 8:56″) de um tema essencial neste debate: o papel da direita como uma resistência aos utopismos que vendem sonhos e entregam pesadelos, à direita e à esquerda. Nobre nega este papel, literalmente, no final do programa, embora, como destaquei acima, seu discurso (e o sentido das palavras) o traia, pelo menos aos meus ouvidos.

 

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