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Em artigo recente afirmei que entre dois polos que sonham com ditaduras, à esquerda e à direita, estão aqueles que reconhecem a democracia e o estado de direito como valores fundamentais (poucos) e aqueles que não entendem nada disso mas desejam ter emprego, fazer um churrasquinho no final de semana e pagar as contas em dia (muitos).

No artigo abaixo, Fernando Schüler analisa pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, criada e mantida pelo PT, que tem um tom crítico com o resultado que encontrou, provavelmente porque referenda de maneira direta o que venho afirmando: os brasileiros, em sua esmagadora maioria, querem apenas que a economia funcione, que tenham emprego, que a inflação não coma seus salários e que sobre um dinheirinho para esquecer de tudo no final de semana. Afinal, como já cantou Paulo Vanzolini, “os pecados de domingo, quem paga é a segunda-feira”.

Fiquem com o artigo.

Introdução por Paulo Falcão.

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O BOM-SENSO DOS “SEM IDEOLOGIA”

A pesquisa da Perseu Abramo é muito reveladora da lógica opaca de seus autores. Na vida prática, as pessoas, há muito tempo, não dividem o mundo entre “burguesia” e “classe trabalhadora”

 

FERNANDO SCHÜLER para a Revista Época em 07/04/2017

 

“Os pesquisadores da Fundação Perseu Abramo fizeram um bom trabalho. Foram lá na periferia de São Paulo e descobriram muita gente de bom-senso. Pessoas que apostam no trabalho e no mérito pessoal, sonham em empreender, não acreditam muito no governo, em escolas públicas e andam relativamente pouco preocupadas com política. Achei ótimo isso. O que parece ter chamado a atenção, no trabalho, foi o contraste dessas ideias simples e relativamente previsíveis com a narrativa partidária. A pesquisa sugere que os moradores da periferia se tornaram mais “liberais” com a ascensão econômica da década passada. E acentuaram uma cultura individualista, pouco dada a soluções comunitárias, na crise recente. Será? Faz sentido buscar um “encaixe” ideológico, à esquerda ou à direita, para a atitude simples e pragmática das pessoas que vivem e trabalham na periferia de São Paulo?

Nossos pesquisadores sugerem que os mais pobres “assumem o discurso propagado pela elite apontando a burocracia e os altos impostos como empecilhos para o empreendedorismo”. Lendo isso, não sei por que, me lembrei do Sebrae. Será que o pessoal do Sebrae andou pela periferia de São Paulo fazendo a cabeça de todo mundo? Ou será que alguém por lá leu que estamos no 123º lugar no Doing business do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios, e em 181º no quesito “pagamento de impostos”? Será que precisa mesmo aderir ao discurso da elite para saber dessas coisas? Ponto para a periferia de São Paulo. Aliás, achei sensacional a turma dizendo que quer abrir uma franquia da Cacau Show ou da “casa da batata frita”. Me deu até uma esperança no Brasil.

A pesquisa diz que as pessoas “querem colocar filho na escola particular ou pagar convênio médico” quando conseguem dinheiro para pagar. Achei ótimo isso. O Ideb médio das escolas privadas é 51% superior ao das escolas públicas e parece óbvio que os pais façam essa escolha. É a mesma lógica, perfeitamente legítima, que leva políticos de “esquerda” a frequentar o Hospital Sírio-Libanês. Por que os moradores da periferia deveriam agir contra seu próprio interesse? Na curiosa visão dos pesquisadores, eles fazem isso porque há “pouca valorização do público”. Se eu fosse pesquisador da Fundação, sugeriria outra hipótese: eles fazem isso para se defender da precariedade do Estado. Se os dados do Ideb mostrassem resultado inverso, a mães da periferia mostrariam uma súbita “desvalorização do privado”.

Nossos pesquisadores descobriram que, fora do mundo metafísico dos manuais de sociologia, não faz nenhum sentido a ideia de um conflito entre “burguesia” e “classe trabalhadora”. Ainda me lembro, nos anos 1980, quando ouvi falar pela primeira vez a palavra “burguesia”. Virou uma das minhas palavras favoritas, mas confesso que nunca entendi exatamente a que ela se refere. Renda? Estilo de vida? Domínio sobre o capital? Adesão a certas ideias? Nunca entendi, mas ao menos agora vejo que não estou sozinho. No mundo “líquido” do século XXI (homenagem ao Zygmunt Bauman), da sharing economy e das mil e uma formas de empreendedorismo, é mesmo curioso imaginar que alguém insista em dividir o mundo entre capital e trabalho, ricos e pobres e coisas desse tipo.”

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*Fernando Schüler é titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta, cientista político, professor e doutor em filosofia, escreve sobre análise política, economia e comportamento brasileiro na Revista ÉPOCA.

 

Link para o artigo original aqui.

Link para a música Capoeira do Arnaldo, de Paulo Vanzolini, aqui.

 

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