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O número de pessoas desfila suas certezas por aí como se “dinheiro público” fosse apenas uma abstração infinita é surpreendente e preocupante. Parecem adeptas de um “realismo mágico” em que tudo depende apenas de “vontade política” ou de se imprimir dinheiro sempre que necessário equilibrar as contas públicas.

As teses de quem nega a necessidade de reforma da previdência seguem um roteiro que podemos chamar de “Ode à Ignorância”. A alternativa é que seja apenas má-fé.

As teses “negacionistas” mais utilizadas são:

  • Não existe déficit (por tanto, devemos crer que tudo não passa de maldade contra o povo, algo que não faz nenhum sentido em democracias).
  • Basta cobrar das grandes empresas devedoras que o déficit acaba (esta é uma tese de quem desconhece que a discussão é atuarial, é sobre a capacidade de se auto sustentar do modelo em si, mesmo que se cobre tudo de todos os devedores).
  • Precisamos fazer uma auditoria cidadã da dívida pública (é irmã da tese anterior: ignora que o problema é atuarial).
  • Basta acabar com a corrupção (é outra bobagem, não que não devamos acabar com a corrupção, mas estas pessoas deveriam ao menos se perguntar por que os sistemas previdenciários foram reformados em países como Japão, Coreia, Alemanha, França, Suíça etc.).

Como já abordei em outros artigos do blog, parece que certos formadores de opinião consideram a matemática uma invenção burguesa para prejudicar o trabalhador. Não faz sentido, claro, mas é assim que agem e acabam adiando o enfrentamento do problema, o que resulta em ajustes futuros mais severos do que seriam necessários se enfrentássemos o problema hoje.

O artigo abaixo, de Luís Eduardo Assis* para o Estadão, é mais um chamamento à racionalidade. Confesso que não tenho grandes esperanças de que os batedores de bumbo (Salve, Cazuza) sejam permeáveis ao bom senso, mas não me é possível deixar de tentar.

 

Introdução por Paulo Falcão.

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CRENDICE PREVIDENCIÁRIA

Manipulações contábeis não vão nos livrar da imperiosa necessidade da reforma.

Por Luís Eduardo Assis* para o Estadão em 03 Abril 2017.

 

“Mede-se tudo nos Estados Unidos. Sabe-se, por exemplo, que 42% das pessoas acreditam em casas mal-assombradas, 36% aceitam a telepatia e 33% creem ser possível um contato com seres extraterrestres. Michael Shermer escreveu um livro imperdível (Why people believe weird things), para explorar este tema. Uma das constatações mais interessantes, que contraria o senso comum, é que a tendência à crendice não guarda correlação com o nível educacional. Não há evidência estatística de que pessoas com maior nível educacional ou com QIs mais altos sejam imunes a acreditar em ideias estrambóticas.

No Brasil, mede-se pouco. Mas há muita gente que acredita no boitatá ou no saci-pererê. Mais impressionante ainda, há quem acredite que a Previdência Social não é deficitária.
É difícil de entender por que algumas pessoas, que não são ignaras, se apegam a teses anômalas. Para Shermer, elas advogam teses disparatadas apenas porque têm a habilidade racional de defender essa crença, à qual chegaram por motivos irracionais.
O economista polonês Kalecki tem uma explicação um pouco diferente. Para ele, teses absurdas podem ser longevas quando duas condições são satisfeitas. A primeira é que a ideia não contrarie o senso comum. A segunda é que ela atenda a interesses específicos de algum grupo social. O geocentrismo, por exemplo, durou séculos porque estava escorado nos cânones do cristianismo e também porque estava em conformidade com a experiência cotidiana do homem comum que, afinal de contas, “via” todos os dias o sol girar em torno da Terra.

Entre nós, a crendice de que a Previdência não gera déficit claramente atende aos interesses de uma pequena – e ruidosa – parcela de apaniguados, que usam suas habilidades racionais para explicar essa irracionalidade. Ao mesmo tempo, esta tese vai ao encontro do senso comum de quem não é afeito a números e letras e acredita que o déficit público é causado apenas pela corrupção e pela incompetência na gestão da coisa pública.

O apego a crendices econômicas nos levou aonde estamos. Manipulações contábeis não vão nos livrar da imperiosa necessidade de reformar um sistema cuja generosidade é incompatível com nossas condições econômicas. A idade média de aposentadoria no Brasil está em 59 anos, ante 72 anos no México, 71 anos na Coreia e 69 anos no Chile. O brasileiro não só se aposenta mais cedo, como ganha mais, relativamente. A aposentadoria média entre nós alcança 86% do salário de quando a pessoa trabalhava, ante 36% no Japão, 42% na Alemanha e 43% nos Estados Unidos. Se, ainda assim, a aposentadoria é baixa, é porque somos pobres. Gastar mais do que podemos não nos deixará ricos.
Há quem diga que a Previdência é uma bomba prestes a explodir. Não é verdade. Ela já explodiu. No ano passado, os benefícios previdenciários alcançaram R$ 507,9 bilhões, o que representa um crescimento de 29% em relação ao ano anterior. O déficit da Previdência praticamente empatou com o déficit primário do governo central. O quadro só não é desesperador, como em alguns Estados, porque o governo federal não tem limitação legal para emitir dívida. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), a dívida pública bruta saltou de 52% no final de 2013 para 70% em dezembro de 2016. A dívida pública está fora do controle, o que aumenta a percepção de risco, eleva os juros e atravanca o crescimento.
A aprovação de um novo regime previdenciário é crucial. Seu adiamento ou a sanção de uma versão mutilada pode custar muito caro. É tempo de esquecer as crendices e de enfrentar a realidade. A conta chegou.”

* LUIS E. ASSIS – ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP.

 

Link para o artigo original aqui.

 

 

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