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O CAMPO MAGNÉTICO DA LIBERDADE E O FIO DA NAVALHA.

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Em outro artigo do blog afirmo: “o que os engenheiros sociais e outros pensadores não compreenderam é que, enquanto o Liberalismo Econômico é uma leitura da sociedade, uma tentativa de compreender como funciona uma sociedade fruto de milênios de desenvolvimento, Nazismo, Fascismo e Socialismo, por exemplo, são “projetos de sociedade”, são propostas de uma nova forma de organização que se propõe a abolir a atual e resolver os problemas do mundo.

Este é o ponto. Toda filosofia procura explicar o mundo. Isto é produção de conhecimento. Quando a filosofia deixa de explicar o mundo e passa a propor outro mundo, a propor uma ruptura, deixa de ser filosofia e produção de conhecimento e passa a ser, antes de tudo, um projeto de poder”.

O artigo abaixo, de Renata Ramos, que trabalha no Tribunal de Justiça de Santa Catarina e é Doutora em Direito pela UFSC traz pontes muito interessantes e concretas com esta ideia. Certamente não é um artigo fácil, mas vale o esforço. Para compreendê-lo é importante ter em mente os conceitos de liberdade negativa e positiva.

Segundo Bobbio, “a liberdade negativa é uma qualificação de ação; a positiva uma qualificação de vontade. Quando dizemos no primeiro sentido, significa que uma determinada ação minha não é obstaculizada, portanto posso realiza-la. No segundo, o meu querer é livre, não sendo determinado pelo querer do outro. Quando tomamos em consideração a liberdade negativa, o sujeito é singular, já quando o objeto de discurso é a liberdade positiva, o sujeito passa a ser um ente coletivo. As liberdades civis por exemplo, protótipos da liberdade negativa, são liberdades individuais.

Outro modo de expressar essa diferença, é chamar liberdade negativa de liberdade do burguês, onde entende-se indivíduo singular; e a liberdade positiva de liberdade do cidadão, onde se particulariza o indivíduo como parte de uma totalidade”.

Esta definição não esgota o tema, mas é suficiente para percebermos que existe uma polaridade nos conceitos que remete aos polos magnéticos de um imã e sua força tanto de atração como de repulsão da liberdade. É sobre este fio de navalha que o artigo abaixo caminha.

 

Introdução por Paulo Falcão

_______________________________

O invisível da civilização livre

por Renata Ramos (16/02/2017)

O enigma para a supremacia da Atenas de Péricles e da América de Jefferson encontra-se em um elemento comum: o império da lei.

1.

A aventura no empreendimento da civilização se confunde com a própria aventura individual em prol da liberdade. Associar a luta contra o arbítrio, em todos os tempos, a adjetivos que descrevem movimentos muito específicos e sem qualquer unidade teórica, a exemplo de neoliberalismo ou liberalismo, este último manejado pela primeira vez no 18 Brumário de Napoleão, ou a substantivos marcados pelo mesmo desacordo semântico, pode contribuir para que o intérprete permaneça confinado em teias mentais divorciadas do mundo dos fatos.

Hegel perspicazmente observou que liberdade é um conceito somente assimilável no âmbito das instituições. Nesse particular, a intuição de Hegel relaciona-se, em certa medida, a dos pensadores tributários do individualismo metodológico, uma vez que a ação humana deve ser o motor das avaliações sociais desde a moldura de um quadro institucional que a respalde. E certa vertente liberal, ou programa evolucionário, desenvolveu um panorama bem definido e sistemático de princípios que englobam as muitas nuances da salvaguarda à liberdade individual em relação ao poder político. Como todo programa de princípios, a tentativa em identificá-lo a um modelo pronto e acabado de sociedade, ou a uma perspectiva única de civilização, despreza as sutilezas do argumento, consoante explica F. A. Hayek: “o princípio fundamental segundo o qual devemos utilizar ao máximo as forças espontâneas da sociedade e recorrer o menos possível à coerção pode ter uma infinita variedade de aplicações”.

O economista austríaco, um dos principais herdeiros dessa tradição, rejeitou a diferença usual no Continente entre liberalismo político e econômico (elaborada principalmente pelo filósofo italiano Benedetto Croce, como a discriminação entre liberalismo e liberismo), porquanto percebeu que a liberdade de ação é um todo indivisível, e a visualizou, sobretudo, como esfera privada inviolável em relação ao poder político. Enquanto os adeptos da liberdade no sentido negativo se preocupam em limitar a autoridade como tal, os simpatizantes da liberdade no sentido positivo querem a autoridade colocada em suas próprias mãos, mormente nas esferas social e econômica. “Não são duas interpretações diferentes de um único conceito, mas duas atitudes profundamente divergentes e irreconciliáveis para com os fins da vida”, nas palavras de Isaiah Berlin.

Conquanto a obra de John Rawls seja conhecida como o mais importante livro de Filosofia Política do Século XX, também em razão da importância em retomar o debate quanto às questões normativas após a hegemonia do positivismo lógico, e da terra arrasada proporcionada pelos projetos totalitários, o texto Os fundamentos da liberdade, publicado em 1960, não teve o mesmo impacto que o de Rawls, lançado somente onze anos após a obra de Hayek. O pioneirismo do economista austríaco, no debate institucional, permanece pouco reconhecido, uma vez que sua tradição de pensamento, filiada ao que Berlin nominou liberdades negativas, o manteve em descompasso ao liberalismo contemporâneo, paradigma em que as liberdades positivas resplandecem como o grande projeto redentor da humanidade.

Em uma perspectiva um tanto quanto cética no tocante a projetos redentores que desprezam a condição humana, mas totalmente ciente da importância de planejamentos afinados à sobrevivência de nossa espécie, autores como Hayek recusaram-se a compulsar locuções como neoliberalismo e liberalismo, uma vez que nas últimas décadas, nos Estados Unidos, o termo liberalismo assumiu, inclusive, o formato de intervencionismo estatal em benefício de vazios teóricos como justiça social que, em última instância, dizem bem mais sobre o poder político, ou a respeito da liberdade como poder, do que sobre a liberdade em relação ao poder.

Os entusiastas da liberdade como poder, muito influenciados pela obra de Rousseau, visualizam nas instituições uma perspectiva emancipatória em relação aos mais variados entraves humanos. Ao afirmar que o “o homem nasce livre, mas que em toda parte encontra-se acorrentado”, Rousseau romantiza o real da condição humana desde a fantasia de um jardim de delícias primitivo, em que os homens viveriam em estado de igualdade e de liberdade naturais. Por sua vez, para a tradição das liberdades negativas, os seres humanos já nascem constrangidos por instituições e tradições responsáveis por sua própria existência. Com efeito, é perfeitamente possível que o indivíduo lute por emancipação em relação às tradições do direito burguês, por julgar que o contrato e a propriedade só foram inventados nos últimos 300 anos. Não obstante, a história atesta que o vale-tudo institucional de engenharias sociais sem qualquer vínculo com o real da condição humana, e com as tradições que já se afirmaram imprescindíveis à evolução da nossa espécie, respondem pelas trágicas carnificinas ideológicas do Século XX.

No importante texto Reflexões sobre a revolução em França, o vidente Edmund Burke rejeitou a definição direitos do homem – a base teórica para as liberdades positivas, porquanto a enxergava como legitimadora tanto de um arbítrio sem limites quanto da falta de moderação do poder político. Para Burke, os revolucionários franceses eram destemperados e extremistas, uma vez que a pretensão emancipatória quanto às religiões e à monarquia não materializava apenas uma recusa a tradições e a costumes específicos, mas sim um ataque a toda e qualquer autoridade decorrente da tradição. Ao contrário de observarem a educação ao longo da história, a literatura e as ciências voltadas a disciplinar e a elevar a recalcitrante condição humana, os revolucionários desejavam reformulá-la integralmente, a fim de enquadrá-la na razão abstrata dos direitos do homem. Não é à toa que a genialidade de Burke antecipou tanto o terror jacobino quanto os totalitarismos do Século XX, uma vez que a fé dos revolucionários em modificar a condição humana, via poder político, era um convite manifesto a toda espécie de violência desumanizadora.

Os pensadores não adeptos da escola construtivista, a exemplo de Burke, Tocqueville e Hayek, sempre enfatizaram que a liberdade nunca produziu bons resultados na ausência de convicções morais firmemente arraigadas, ou tradições apropriadas, e que a coerção somente poderia ser reduzida a um mínimo no momento em que se pudesse esperar que os indivíduos, de modo geral, observassem voluntariamente determinados princípios. Para esses autores, instituições como as religiões, o mercado, a moral, a família etc. são importantes na compensação do caráter marcadamente coercitivo dos poderes políticos.

Para sobreviver no curso de milênios o homem desenvolveu as referidas instituições, responsáveis por sua proteção diante da natureza intempestiva, e da arbitrariedade de seus semelhantes, instituições estas que evoluem, ou são abandonadas, a depender das contribuições que oferecem à conservação de nossa espécie. O conjunto dessas instituições, quase todas fomentadas, mesmo que em condições germinais, pelos antigos gregos, pelos italianos no começo da Renascença e pelos holandeses, também desde importantes contribuições de franceses e alemães, foram incorporadas, sobretudo, ao panorama institucional da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.

Ao contemplarmos o brilho dessas comunidades políticas, e desejarmos que suas glórias se estendam a todos os povos, mormente àqueles que mais sofrem, é comum uma enorme insensibilidade, talvez fruto de obscurantismo, quanto aos fundamentos que permitiram o êxito destes povos em remediarem o real da condição humana. No belíssimo ensaio “O que se vê e o que não se vê“, Bastiat aponta para a dificuldade que os indivíduos possuem em associar as causas e os efeitos dos fenômenos sociais. A despeito de Bastiat ter dirigido o texto a economistas munidos de boas intenções, mas inocentes quanto aos efeitos não pretendidos por seus programas benevolentes, a proposição é adequada na tentativa articular um exame sobre os fundamentos das duas maiores experiências de liberdade da história registrada: Atenas e Estados Unidos da América.

2.

Atenas e EUA, ao contrário de suas contemporâneas Esparta e Rússia, triunfaram pelo conhecimento como mecanismo à conquista de um fim maior, que é a salvaguarda da liberdade individual, e não pelo conhecimento apenas como ferramenta ao recrudescimento do poder político, ou ordem pela ordem. De fato, o conhecimento é símbolo para o que não se vê nesse particular. A despeito da chaga da escravidão, defendida por Aristóteles e por homens do quilate intelectual de Thomas Jefferson, já na modernidade, a liberdade econômica conquistada em um primeiro momento lançou as luzes necessárias às liberdades políticas posteriores: igualdade perante a lei e não discriminação em razão de raça, berço e gênero. Na essencial lição de Hayek: “a luta pela liberdade foi desde sempre uma luta por igualdade”.

O enigma para a supremacia da Atenas de Péricles e da América de Jefferson encontra-se em um elemento comum: o império da lei, ou o governo das leis, e não o dos homens, como limite ao arbítrio para a proteção das liberdades. E o império da lei, nesses povos, repousava sobre uma melhor compreensão da condição humana, e sobre um ceticismo quanto à arrogância das pretensões demiúrgicas em modificar essa condição pela via institucional, ao contrário de adaptar o quadro institucional a essas mesmas condições. Nas palavras de Madison, um dos Founding Fathers: “caso fossem anjos a governarem os homens, não existiria a necessidade de controles externos e nem internos ao governo”.

O invisível da civilização livre repousa em princípios ordenadores que possibilitam aos indivíduos conquistar relativo êxito na sobrevivência da espécie. A despeito das diferenças entre povos, as instituições que mais contribuem para o florescimento humano são aquelas que convergem na direção de uma principiologia comum, e a liberdade individual resplandece como o grande valor a embasar esses princípios. A ancestralidade do mencionado princípio pode ser aferida em textos que, inclusive, não fazem parte da tradição ocidental, a exemplo do Tao te ching: “A fome do homem é devida a seu superior alimentar-se de impostos em demasia. Por isso existe fome. A difícil governabilidade de cem famílias é devida a seu superior agir intencionalmente, por isso existe o desgoverno […]”.

A principiologia comum em questão, e os gérmens do conceito de poder limitado – o Rule of Law – surgiram na antiguidade clássica, a exemplo de Aristóteles em A Política: “é mais certo que a lei governe, e não qualquer cidadão”, e o ideal brilhou com força soberana nos Estados Unidos da América a partir da arquitetura desenhada pelos Founding Fathers. Estes, por sua vez, foram buscar na Grécia Clássica, na República de Cícero, e em certos valores judaico-cristãos, o desenho institucional mais consentâneo à volúvel condição humana. Não por acaso Hayek dedicou a obra Os fundamentos da liberdade “à civilização desconhecida que se desenvolve nos Estados Unidos da América”.

Ao estabelecer como “verdades auto-evidentes” a igualdade de autoridade entre todos os homens, a Declaração de Independência nada mais fez do que materializar o conceito de isonomia muito caro a certo período helenístico, ou isonomy, no sentido de “leis gerais aplicáveis igualmente a todos”. Na lição de John Adams: “a América é uma nação de leis, não de arbítrios”. O termo isonomia vigorou até o século XVII “até ser substituído gradativamente pelas expressões ‘igualdade perante a lei’, ‘governo da lei, ou ‘Estado de Direito’”, consoante explica Hayek.

Para Heródoto, é a isonomia, e não a democracia “a mais bela de todas as palavras de uma ordem política”. E Jefferson parece ter rendido vênias ao historiador grego ao afirmar: “173 indivíduos podem ser tão despóticos quanto 1 só”. Não por acaso a palavra democracia é desprestigiada tanto na Constituição Federal quanto nas Cartas Estaduais, que privilegiaram o Rule of Law no sentido de isonomia. Conquanto as instituições dos Estados Unidos operem pelas instâncias democráticas, mormente como método pacífico para a substituição de seus representantes políticos, o alicerce institucional da mais bem-sucedida experiência moderna de liberdade não é a democracia, mas sim o constitucionalismo compreendido como limite ao Poder.

Os Dois tratados sobre o governo civil, de Locke, tiveram enorme impacto sobre os Fathers e, por conseguinte, sobre a Revolução Francesa, a ponto de Jefferson se referir a Bacon, Locke e Newton como “os três maiores homens que já passaram pela Terra”. Locke também rendeu tributos aos gregos antigos quando afirmou que o governo das leis, e não o dos homens, era a única possibilidade de preservação e ampliação da liberdade, uma vez que “onde não há lei, não há liberdade”. Não obstante, emerge dessa proposição o seguinte impasse: será que toda e qualquer lei consegue responder por um quadro geral de liberdades?

O enigma em análise nos aproxima de outro importante elemento invisível das civilizações livres: a diferença entre Lei e Legislação (Law e Legislation na lição de Hayek). A acepção de Lei que responde a um quadro de liberdade negativas é aquela que prioriza um sentido moral para o Direito na perspectiva de nomos (thesis é aferida desde o contexto de nomos), que é o conteúdo evolucionário do princípio da liberdade individual. Ao se insurgir contra o decreto de Creonte que a impedia de realizar as cerimônias fúnebres do irmão, Antígona imortalizou o ideal moral do império da lei, na qualidade de preservação das tradições consentâneas à liberdade individual, em oposição ao poder político. Para Antígona, o decreto de Creonte não era Lei, mas sim Legislação produzida em descompasso à tradição que embasava sua liberdade.

Ao distinguir Lei de Legislação, Hayek afirma que a segunda é muito pródiga em sufocar a primeira. Para o Autor, o simples fato de legislações serem promulgadas com lastro na vontade da maioria, não significa que se encontrem em consonância àquilo que entende por Lei formulada pela maioria. A simples validade não é suficiente para conferir justiça às normas. Normas válidas podem significar apenas Legislação, consoante o Autor. Com efeito, um ordenamento que se vincule à liberdade individual como valor soberano é aquele que mantém o poder político sob a mais estrita vigilância, e o compreende somente como árbitro e arquiteto das instituições necessárias à cooperação. Existe um limite ao poder, e o limite é sempre o indivíduo visualizado como fim em si mesmo.

Na hipótese, as leis que fundaram a República de Jefferson eram Leis no sentido moral de salvaguarda às liberdades, e não mera Legislação produzida por vontade política desvinculada de nomos. Anteriormente a Darwin, e aos economistas que ofereceram suporte às suas ideias, era muito comum o uso da expressão Direito Natural em atenção ao ideal do Rule of Law. Todavia, a expressão também oportuniza divergências semânticas labirínticas, e pode ser melhor compreendida quando afirmamos um Direito Evolucionário com raízes pré-históricas e funções adaptativas. Os seres humanos evoluíram em pequenos grupos sociais também em razão de tradições mais favoráveis à adaptação, a exemplo da propriedade e do contrato. E as civilizações grega e romana eram civilizações do contrato e da propriedade.

Contudo, somos filhos de uma época em que indagações saudáveis a certas tradições não afinadas à sobrevivência abriram as portas do inferno rumo a toda espécie de desconstrução, e a um enorme desprezo inclusive a certa biologia que nos condiciona. Parece que a liberdade econômica, destravada nos últimos séculos, criou as bases para nossa autodestruição, uma vez que gerou encruzilhadas não apenas perigosas à civilização, mas sobretudo a ela fatais. Hayek certa vez afirmou que “as antigas verdades devem ser constantemente reafirmadas na linguagem e nos conceitos de sucessivas gerações”, oportunidade em que contemplou consternado os ataques às instituições do Ocidente como um todo, empreendidos por indivíduos que desconhecem os próprios pilares que sustentam sua existência nesse planeta.

A redução expressiva dos índices de pobreza, em todo o mundo, bem como a rede de segurança oferecida por grande parte dos Estados Nacionais na atualidade, via confisco compulsório de recursos, oferecem aos indivíduos um mínimo para a subsistência ou, na terminologia de Foucault, biopolíticas necessárias à sobrevivência. Não obstante, existe um verdadeiro abismo entre viver e sobreviver. E, ao desprezarmos os elementos invisíveis que nos transformaram de primatas a astronautas, corremos o risco de retornarmos à condição de primatas (se é que algum dia a abandonamos de fato), e nos apartarmos, cada vez mais, dos dispositivos que nos permitem usufruir da vida do espírito, a exemplo de antibióticos, vacinas, aviões e tecnologia. Lutar para que os elementos invisíveis da civilização livre se tornem visíveis, significa “reafirmar na linguagem e nos conceitos de sucessivas gerações” o mais sublime dos ideais humanos em todos os tempos: a liberdade individual.

Renata Ramos

Doutora em Direito pela UFSC. Trabalha no Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

Link para o artigo original aqui:

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16 comentários em “O CAMPO MAGNÉTICO DA LIBERDADE E O FIO DA NAVALHA.

  1. Cicero A.
    03/27/2017

    Vc usou a metáfora magnética (e não a elétrica), que requer dipolo, enquanto a advogada, me parece, trabalhou com a ideia de um monopolo: liberdade é igual a liberdade individual (negativa) e ponto. Qdo Isaiah Berlin elaborou essa dicotomia, ele pensou num dipolo: um polo (lib positiva) não é redutível ao outro (lib negativa). Ambas estão em tensão recíproca mas, ao mesmo tempo, precisam uma da outra. Como defender a lib negativa sem fazer uso da lib positiva (a liberdade de interferir no poder)? A lib negativa (a de não sofrer interferência externa, dentro de um certo espaço) não existe por si mesma; ela só pode existir porque há uma disposição dos cidadãos de protegê-la através da lib positiva.
    Voltando à sua metáfora: na natureza, ao contrário da eletricidade, não existe monopolo magnético (só dipolo). A lib positiva é o Norte, a negativa é o Sul (ou, se vc quiser, o inverso).

    • Questões Relevantes
      03/27/2017

      Ela, de fato, coloca as liberdades negativa e positiva não como forças que se equilibram, mas como forças que combatem, que se excluem. Não é um bom caminho, evidentemente. Mas achei interessante e necessária a lembrança dos direitos individuais (e dos direitos civis) como fruto das liberdades negativas e que, ao contrário do que você afirmou, as liberdades positivas com seu “eu coletivo”, o cidadão, podem, no limite, representar uma ameaça aos direitos individuais. É algo que pais fundadores da constituição americana tinham muito claro. E obrigado pela leitura.

      • Cicero A.
        03/28/2017

        Elaborando só com monopolos, ela chega a opor (no meio da seção 2) “democracia” e “império da lei” (constitucionalismo). Mas como poderia haver, hoje, império da lei sem democracia? E como haver democracia sem a liberdade (positiva) de interferir no poder? Aliás, ditado romano: “a lei não protege os que dormem”… Abr!

      • Questões Relevantes
        03/28/2017

        Caro Cícero, tive uma compreensão diversa da sua. Quando ela coloca “o império da lei, ou o governo das leis, e não o dos homens, como limite ao arbítrio para a proteção das liberdades” me parece clara a defesa do “império da lei” contra eventuais pressões populares (império dos homens). O estado democrático e de direito não é monopolo e você parece concordar com isso. No entanto, o professor Marcos Nobre, do departamento de filosofia da Unicamp, em debate com o Pondé, deixa claro que usa a liberdade positiva para questionar direitos consignados no campo das liberdades negativas, como o direito à propriedade privada dos meios de produção, sem o qual fica diretamente prejudicada a liberdade individual de empreender e suas consequências. Neste sentido, me parece claro que o próprio conceito de liberdades positivas e negativas só existe plenamente durante a vigência do estado democrático e de direito. Abraço.

  2. Lúcio Júnior Espírito Santo
    03/24/2017

    Na democracia liberal e burguesa a burguesia busca sempre a hegemonia enquanto classe. Para isso ela não se atem ao império da lei. Não existe pensamento desligado totalmente de algum projeto de poder. Só pq propõe ruptura com burguesia não deixa de ser filosofia. O marxismo como disse Jdanov é a revolução na filosofia.

    • Questões Relevantes
      03/24/2017

      Questionar a burguesia faz parte do que podemos classificar como filosofia. A imposição de um modelo utópico, não. Este é o ponto central de minha introdução ao artigo.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        03/24/2017

        E na história é bem diferente o comportamento das democracias liberais diante do nazismo e do comunismo. As tropas da URSS entraram na Tchecoslovaquia mas também as democracias liberais entregaram o pais A Hitler. E tb os liberais tchecos invadiram a Hungria socialista em 1919.

      • Questões Relevantes
        03/24/2017

        As democracias liberais não são perfeitas, mas são o resultado de um longo processo histórico de aprendizado. Não é difícil observar que aprendem com os erros, próprios e alheios. Isto não as torna infalíveis ou justas, mas continuam sendo a melhor solução para a solução pacífica de conflitos, para a garantia dos direitos individuais e para o império da lei sobre o arbítrio em suas diversas formas.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        03/24/2017

        Fiquei bastante impressionado com a professora citando Foucault como se fosse compatível com esse elogio do neoliberalismo. Felizmente tem a democracia liberal brasileira corrupta e sórdida para te dar um banho de realidade.

        Como te disse a partir de certo ponto o artigo e contra a revolução francesa e a favor da monarquia e da igreja.

      • Questões Relevantes
        03/24/2017

        Não entendi a citação de Foucault como um elogio ao neoliberalismo. No que tange à revolução francesa, faz uma crítica recorrente: os excessos das revoluções. Quanto ao elogia à monarquia e à igreja, você entendeu mal. São citados em um contexto específico como exemplos de freios morais que fizeram/fazem parte da construção da ética interna do homem livre no final do século XIX.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        03/24/2017

        Ela cita a biopolitica de Foucault como se ela não fosse um tipo de dominação recorrente na democracia liberal tb. O liberal conservador não poderia deixar de pontuar a revolução francesa pois a comuna de paris e um desdobramento direto dela.

        As revoluções comunistas são sempre continuidade e tentativa de realizar ideais que a democracia liberal sempre deixara para trás.

      • Questões Relevantes
        03/24/2017

        Para fazermos uma síntese rápida, a biopolítica pode ser definida como a aplicação e o impacto do poder político sobre todos os aspectos da vida humana. Neste sentido, TODO poder político a exerce. Quanto a usá-lo como elogia ao neoliberalismo, acho estranha sua conclusão, já que no primeiro parágrafo Renata Ramos diz: “A aventura no empreendimento da civilização se confunde com a própria aventura individual em prol da liberdade. Associar a luta contra o arbítrio, em todos os tempos, a adjetivos que descrevem movimentos muito específicos e sem qualquer unidade teórica, a exemplo de neoliberalismo ou liberalismo, este último manejado pela primeira vez no 18 Brumário de Napoleão, ou a substantivos marcados pelo mesmo desacordo semântico, pode contribuir para que o intérprete permaneça confinado em teias mentais divorciadas do mundo dos fatos”. Na questão das revoluções, retomamos um velho conflito: as democracias liberais são o palco da maior elevação da qualidade de vida (IDH) das populações da base social em toda a história da humanidade, enquanto os totalitarismos de esquerda foram pródigos em nivelar a população pela equalização da pobreza. A China só mudou um pouco este cenário quando partiu para seu peculiar Capitalismo de Estado, mas ainda assim 70% da população vive precariamente na zona rural e não tem acesso nem mesmo à educação básica.

      • Lúcio Júnior Espírito Santo
        03/24/2017

        Vc fala das democracias imperialistas ne. Seus dados quanto a china me parecem equivocados. Achei Foucault incompatível com esse elogio colonizado e que recusa o termo neoliberalismo para não encarar o fato de que a democracia liberal no brasil não parece nem ter produzido um autor que você cite e respeite. O que dirá acabar com latifúndio e nos tirar da idade media…

      • Questões Relevantes
        03/24/2017

        Lucio, se tiver tempo, assista inteiro. Se não tiver, assista do minuto 20 ao 30:

  3. Victor Hugo Pinheiro Cunha
    03/23/2017

    Ninguém tem convicções morais firmemente arraigadas nem se enquadra em tradições….. Sem coerção nem que seja doutrinação religiosa e conservadora desde a tenra infância seguida de perseguição ou preconceito e discriminação por toda a vida adulta… Quando se educa para ter bom senso crítico e embasamento essa mesma direita acusa de estar havendo uma tal doutrinação marxista cultural…

    • Questões Relevantes
      03/23/2017

      Victor, seu comentário é oportuno de diversas formas. Para começar, o próprio parágrafo que você comentou esclarece que “Para esses autores, instituições como as religiões, o mercado, a moral, a família etc. são importantes na compensação do caráter marcadamente coercitivo dos poderes políticos”. É importante lembrar também que não acreditam de maneira alguma no “homem ideal” necessário para a utopia socialista. Ou seja, a eventual doutrinação marxista tampouco pode ser considerada uma ferramenta para a contrução de um homem livre, já que não existe homem livre se não á admitida a liberdade individual.

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