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Democracia é difícil, imperfeita, morosa, mas as alternativas são piores. É triste e constrangedor observar que ainda hoje, depois que as democracias ocidentais permitiram a consolidação de sociedades com os maiores graus de liberdade, direitos e qualidade de vida da história da humanidade, principalmente para os mais pobres, tantos discordem da conclusão de Platão popularizada por Winston Churchill.

Evidentemente, democracia não pode ser imposta. Precisa ser construída, desejada, cultivada. É uma conquista cultural que evolui lentamente. Já a sua destruição pode ser bem mais rápida.

Diante de certas manifestações flertando claramente com a interrupção da democracia, à direita para “arrumar a casa” e à esquerda porque uma construção burguesa que dá suporte ao capitalismo, é importante fazermos algumas reflexões.

Em um fórum na internet que celebrava o confronto em que manifestantes de esquerda atiraram pedras portuguesas das calçadas cariocas em policiais com suas bombas de gás, como se aquilo fosse o prenúncio da “revolução socialista”, fiz uma pergunta que não encontrou resposta concreta: o que ocorre se realmente radicalizar? A opção pela violência daquelas pessoas é movida pela esperança de que possam vencer, mas estarão preparadas para perder? Estarão preparadas para uma reação violenta de verdade? Há um ponto em que o tênue verniz civilizatório se rompe e emerge a barbárie. Neste momento, os policiais “pretos, pobres e mulatos E quase brancos quase pretos de tão pobres”, mas armados, enfrentarão em que termos a juventude classe média que os agride?

Do outro lado do espectro ideológico temos os defensores de gente como Jair Bolsonaro e seus filhos, que são ainda mais primitivos que o pai. Temos os idiotas que falam em “intervenção militar”. Temos os que cultivam de forma grosseira a intolerância contra toda e qualquer pessoa que lhes pareça “de esquerda” – embora a maioria não consiga definir o que seja esquerda ou direita – e muito menos democracia.

Este ambiente tóxico é dominante na internet e nas redes sociais. 99% ou mais do que é publicado pelos dois grupos antagônicos é constituído de notícias falsas comentadas com argumentos insanos. Até mesmo a chamada Grande Mídia tem esquecido as diretrizes básicas do bom jornalismo e publica uma série de fantasias sem qualquer filtro, sem qualquer apuração. Dá para contar nos dedos de uma mão os jornalistas que se mantém intelectualmente íntegros.

Diante do governo Temer, então, a desinformação atingiu níveis inacreditáveis. A estupidez e o oportunismo, idem.

Vamos deixar claro, como já o fiz em outro artigo: para mim o impeachment de Dilma nunca foi uma esperança de redução da corrupção, e sim da incompetência. Temer era a alternativa legal. Era ele ou Dilma e a petista já havia demonstrado à exaustão sua incapacidade gerencial.

A corrupção aumentou com Temer? Não é possível saber. Quem afirma isto está simplesmente mentindo. Mas aumentou a gritaria, pela simples razão de que aqueles que antes apoiavam a cleptocracia petista somaram-se agora àqueles que faziam coro contra Dilma com o foco principal na corrupção.

Embora eu concorde que seja preciso apoiar a lava-jato, que todo cuidado seja pouco diante das raposas acuadas, reconhecer os acertos do Governo Temer é igualmente necessário.

Três deles são particularmente visíveis:

– Aumentou a transparência das contas públicas e pudemos enxergar melhor o desastre gerencial que Lula e Dilma deixaram para trás.

– Foram implementadas medidas concretas para equilibrar receitas e despesas.

– A economia mostra sinais de uma pequena recuperação, o que deve ser comemorado se nos lembrarmos que os dois últimos anos de Dilma foram de recessão, de queda expressiva na atividade econômica.

Infelizmente nada disso parece mobilizar positivamente a sociedade.

A “união estratégica” contra o Governo Temer entre a esquerda (vejam o entusiasmo de Janio de Freitas e Guilherme Boulos) e a direita obtusa é apenas um fator de instabilidade desnecessária que retarda a decisão da iniciativa privada em voltar a investir.

Do ponto de vista da disputa política, a quem interessa uma economia em frangalhos? Simples: à turma do “quanto pior, melhor”. De um lado, estão os que cultivam o fim da democracia e a superação do capitalismo; do outro, os que são estúpidos ao ponto de sonhar com um golpe militar e algum tipo de fascismo.

Entre um e outro estão aqueles que reconhecem a democracia e o estado de direito como valores fundamentais (poucos) e aqueles que não entendem nada disso mas desejam ter emprego, fazer um churrasquinho no final de semana e pagar as contas em dia (muitos).

Como já lembrou muito bem James Carville, é muito raro um governo se reeleger ou fazer seu sucessor com a economia sangrando em praça pública.

E as alternativas eleitorais que surgem no horizonte deveriam acender o sinal de alerta de todos que têm juízo.

Neste cenário, as manifestações marcadas para 26 de março fariam mais sentido se fossem claramente em apoio às medidas de austeridade fiscal e demais iniciativas que possam reanimar a economia.

Também é importante reafirmar o apoio à lava-jato, mas sem cair na cilada do “Fora, Temer”, uma bandeira que só interessa mesmo à esquerda.

O triunfo do “quanto pior, melhor” é uma péssima notícia para quem entende o valor da democracia.

 

Artigo de Paulo Falcão.

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