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Sou contra o muro que Trump quer construir por vários motivos, mas nenhum deles semelhante à conversa mole do Cortella neste VÍDEO que muita gente está compartilhando. Poucas vezes o vi ser tão historicamente equivocado, para ser gentil.

Comecemos pelo início: o muro de Berlim foi construído por uma ditadura totalitária para impedir que seus cidadãos fugissem, não para impedir os vizinhos de entrar. O chamado Muro da Vergonha caçava o direito de ir e vir de seus próprios cidadãos. A comparação com o muro de Trump não faz sentido lógico ou histórico, não importa que muita gente repita esta bobagem.

Aliás, como um breve parêntese, não localizei nenhum comentário dele contra o presidente Obama ter acabado com a chamada política de “pés secos, pés molhados”, por meio da qual, durante mais de 20 anos, praticamente todos os cubanos que conseguiam escapar do muro líquido que cerca Cuba podiam ficar nos EUA, ainda que tivessem chegado de forma ilegal. Aliás, toda a esquerda fez “silêncio de rádio” sobre o episódio. Mas voltemos à inconsistência dos argumentos do Cortella.

Quando fala da guerra entre EUA e México e anexação de territórios, poderia dizer também (como alguns adoram fazê-lo) que 300 anos antes daquele conflito não havia nem México nem EUA, apenas nações indígenas. Seria a cereja do bolo.

A anexação de territórios pela via militar não era estranha à Europa, à Rússia dos czares ou aos impérios Árabes e Persas.

Em 1819, quando foi assinado o Tratado de Adams – Onis, os EUA ainda eram um país em formação política e havia conquistado a independência da Inglaterra há meros 36 anos. Foi este mesmo país em ebulição que impressionou Alexis de Tocqueville em sua visita aos EUA no início de 1831, com suas virtudes e defeitos, período em que já ocorria a guerra entre México e EUA.  Na época, tal guerra entre os vizinhos era um assunto muito menos relevante para Tocquerville e europeus em geral do que os partidos políticos americanos que estavam num processo de transformação profunda, deixando de ser pequenas organizações dominadas pelas elites locais e as suas comissões eleitorais para se tornarem corpos massivos, devotados a eleger funcionários para os níveis local, regional e nacional.

Esta ebulição e as contradições internas resultaram também na Guerra de Secessão de 1861 a 1865.

São fatos importantes, que moldam o espírito e a cultura dos EUA, mas que não servem em absoluto para atacar o muro de Trump. Os argumentos do Cortella são apenas “anti-imperialismo” tupiniquim, uma falsa argumentação que cria um outro muro, intelectual, que impede uma discussão séria e racional sobre a questão.

O muro é um equívoco gigantesco como fato em si, não porque os EUA um dia anexaram territórios do México.

É um gesto rude e autoritário agravado pela pretensão insana de que o vizinho pague metade da conta.

É uma solução de eficiência duvidosa e populista.

É um símbolo de truculência que não combina com democracias.

Não é uma solução lógica.

Se o objetivo é conter a imigração ilegal, há um muro muito mais rápido e eficiente que poderia ser construído: criar leis que punam severamente quem empregue imigrantes ilegais. Que puna quem se aproveita dos imigrantes e não aqueles que perseguem o “sonho americano”. Mas será que os EUA estão preparados para viver sem esta simbiose de décadas?

Esta é a discussão que faz sentido. É muito melhor e mais produtivo encarar o presente do que utilizar o passado como muleta ideológica. Infelizmente, mesmo que Galeano tenha reconhecido que sua obra “As veias abertas da América Latina” era um equívoco, seu veneno continua circulando nas veias e fazendo estragos no cérebro de muitos intelectuais latino-americanos.

 

Artigo de Paulo Falcão.

 

Vídeo do Cortella aqui.

 

 

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