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Você deve ter lido comentários de gente como Leonardo Sakamoto dizendo que pichar os monumentos que homenageiam bandeirantes é pouco, que eles deveriam mesmo é ser demolidos, pois simbolizam a opressão, o mal do capitalismo em sua marcha colonizadora, simbolizam, enfim, a elite paulistana, este mal absoluto…

Esta visão é estúpida e ignorante. Se fosse consultar os textos de Marx, o grande farol da esquerda do século XX e XXI, veria lá o velho barbudo defendendo a colonização europeia da Ásia como uma forma de civilizar a barbárie, sonhando com o progresso capitalista formando operários e com eles seu exército revolucionário…

Este ataque direto ao que pode ser considerado um “mito fundador” de São Paulo me lembrou de outro artigo deste blog chamado Brasil, a síntese de todos os vícios em que o assunto é abordado. Achei oportuno reproduzir aqui alguns trechos que funcionam como contraponto a esta bobagem regressiva de Sakamotos da vida:

(…)“Toda sociedade, comunidade, tribo ou nação têm uma origem, um marco zero da autoimagem. A isto se dá o nome de mito fundador, cujas características estão intrinsecamente ligadas à memória histórica de um povo.

Roma, por exemplo, tinha seu mito fundador encarnado por Remo e Rômulo; os EUA o têm na figura dos Peregrinos e dos Desbravadores (Self-made-man); o estado de São Paulo tem o seu nos Bandeirantes.

Os mitos fundadores não são obra do acaso histórico, mas sim uma escolha da memória coletiva para ser a pedra fundamental da sociedade que se constrói.

Os mitos fundadores não são obrigatoriamente perfeitos, não se referem a condutas irretocáveis e nem mesmo são sempre moralmente louváveis. Contudo, os mitos fundadores estão diretamente ligados à identidade do povo que neles se reconhece e marcam as suas virtudes, os vícios, a ética, a estética, a vida.

Ao escolher um mito fundador a sociedade escolhe reforçar um determinado conjunto de traços, escolhe lembrar esses traços e esquecer outros.

Nesse ponto voltamos ao Brasil e suas crises crônicas. O que esperar de um país cujos mitos fundadores são o Português explorador, o Índio preguiçoso e o Negro safado?

Evidentemente o problema não é nem o Português, nem o Índio, nem o Negro, mas os adjetivos que lhes atribuímos, sempre negativos, sempre reforçando estereótipos. Nosso mito fundador é Macunaíma. É a síntese de nossos defeitos, não de nossas virtudes. É a síntese não do que fomos, mas de quem e como queremos lembrar que fomos. Escolhemos o vício como traço cultural.

O Brasil só vai mudar quando “recomeçarmos o começo”, quando trocarmos a nossa pedra fundamental desgastada, quebrada, por outra sobre a qual conseguiremos edificar uma sociedade digna. Não se trata de mudar o passado, mas de aprender a reconhecer e valorizar nele as virtudes, que existem e são muitas”.

Por ocasião da morte de Eduardo Galeano, escrevi que de todos os conceitos derivados de “As Veias Abertas da América Latina” o que teve maior penetração e causou mais estragos no continente foi o que podemos chamar de “a exterioridade da culpa” ou “coitadismo”. Isto significa que a culpa dos problemas da América Latina é externa e não interna. É dos outros e não nossa. Não são nossas escolhas cotidianas que nos afligem, mas as imposições de exploradores.

Trata-se de uma visão cômoda, que oferece a desculpa perfeita para os sucessivos erros a que  nossas escolhas nos conduzem.

É preciso entender que valorizar a malandragem e o “jeitinho brasileiro” é cultivar o vício e não a virtude.

Artigo de Paulo Falcão.

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